quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Steve Mason - Boys Outside



Nesses estranhos dias que antecedem o reveillon, ás vezes buscamos conforto ou refúgio na música que deixamos esquecidas em algum ponto perdido no HD. Steve Mason me presenteou com um álbum que fora deixado de lado por meses. Mason foi o líder da banda pós Britpop Beta Band. Coroada por críticos no final dos anos noventa, o grupo teve trajetória errática. Quando do lançamento do seu primeiro disco (precedido pelos lendários 3 Eps), Mason deu uma entrevista detonando o próprio álbum. Esse episódio demonstrou as violentas variações de humor do compositor, característica que acabou por corroer as relações com os outros integrantes. Mesmo diagnosticado com transtorno psíquico, Mason não tratava os sintomas com medicamentos por achar que eles afetariam a sua criatividade.

Após o fim do grupo, Steve se viu diante de uma dívida financeira com sua antiga gravadora, além de problemas pessoais. Apesar de lançar dois projetos nesse período (King Biscuit e Black Affair), o escocês viveu episódios depressivos graves e contemplou suicídio: chegou a ficar duas semanas desaparecido após deixar uma mensagem obscura em sua página no Myspace: "I've had enough". Isso foi em 2006.

No começo desse ano, um renovado Mason tinha composições para lançar sob seu próprio nome. Recuperado graças ao amor pela música e bons medicamentos, Boys Outside soa como um retorno triunfante. Marcado por letras que resumem as feridas emocionais recentes, o álbum brilha com a combinação de composições tradicionais resvalando no folk rock britânico e sutis intervenções eletrônicas.

Apesar de a temática ser a de observar fatos passados sob uma perspectiva mais positiva, como uma espécie de reflexão e até mesmo de redenção, Mason evita os clichês auto-piedosos. Nem os versos nem o acompanhamento musical convergem para a imagem de "poeta torturado". Am I Just A Man é tão contagiante quanto um encontro de Dry The Rain (hit da Beta Band) com Lucky Man (Verve): "Oh, Am i just a man in love?/ Or am i just a boy out of touch? /Because i tried to go/I tried to last the difference/But God did not have the mentalness assistants". The Letter possui o refrão mais efetivo do rock inglês nos últimos anos, um tipo de fluidez entre a melodia grandiosa e a introspecção das letras incomum para as bandas mais novas.

Lost And Found é representativa do momento criativo de Mason, brilhando com uma confiança incrível: um conto sobre ser encontrado na beira de um rio, praticamente um ritual suicida contado sem meias palavras, a música fluindo como algo cheio de alma e coração, lindamente. A segunda metade do disco aprofunda ainda mais as emoções despejadas no início: I Let Her In é quieta e assombrada pelo passado: "i'll never fall in love again". All Come Down é talvez a balada mais redonda do disco, e nenhum tipo de crítica está embutida nesse comentário: melódica, reflexiva e ainda assim dolorosa e abrasiva, num mundo ideal isso seria um hino. A faixa título é uma espécie de auto afirmação, algo como deixar a zica de lado, de seguir em frente diante da escuridão inevitável.

Boys Outside se apresenta assim, como nesses estranhos dias finais do ano, repletos de emoções conflitantes, e esperançosos e ás vezes tristes e nostálgicos pensamentos. Soa lindo, com ou sem medicação. 9/10

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Juliana R - Juliana R

Saindo mais pro fim do ano, esse álbum de estréia da cantora-compositora baseada em São Paulo Juliana R não foge do padrão encontrado em outros debuts independentes de 2010. E isso é um elogio e uma constatação: uma nova safra de músicos construiu um caminho que começa a ser enxergado para além dos esporádicos shows; trata-se do registro de estúdio de composições que foram testadas e aperfeiçoadas por anos. Basta observar a lista de melhores de 2010 elaborada por esse blog: mais da metade dos listados apresentaram seus primeiros trabalhos.

Juliana aposta em variações estilísticas, mas possui clara definição e mão firme nas composições. Fuga queima lentamente, levada em insistentes acordes e loops de bateria. Também já mostra a qualidade das letras da cantora, que cria pequenas suítes hipnotizantes. Dry These Tears exercita o pop ensolarado, embora marcado por letras como "I'm as lonely as someone can be". Funciona como aquele truque de enroscar ganchos melódicos e inclinação melancólica. Vou Ver, De Repente é carregada quase unicamente pela guitarra e voz, e reafirma o talento para desenhar cenários através de versos e riffs simples e efetivos. El Hueco injeta eletricidade e crueza sem perder as características positivas citadas acima. Repare que as quatro primeiras músicas passeiam por idiomas e estilos diferentes, costuradas pela sagacidade de Juliana R.

Since I've Met You resgata o folk pop já conhecido, arredondando algo que poderia soar óbvio e transformando em uma pepita delicada. Mas não há espaço para sentimentos leves aqui: Longe retoma a lenta melancolia, criando atmosfera densa, como uma Cat Power mais jovem. Essa ciclotimia do álbum não reflete confusão e/ou indefinição, mas soa como se Juliana possuísse um controle bastante elástico, repuxando ora para momentos mais brilhantes e outros mais dark. Desde Que Cheguei possui tom confessional, e pode muito bem refletir a sensação de enfrentar um ambiente diferente, ás vezes hostil e solitário, mas também a busca pela afirmação da adaptabilidade: "Desde que Cheguei/ ninguém para confiar/para num abraço/ me confortar/ me acomodar.../noites sem fim/ iguais a mim".

If You Could See Me Now aprofunda o clima denso, mais uma vez Juliana carrega a canção com entrega de letras cortantes: bonita e pungente. Viagem encerra de forma correta esse surpreendente álbum de cores distintas, que ganha maior valor justamente por coordenar pequenos arroubos de iluminação mais clara com a beleza da escuridão. 8/10

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Céu - Cangote Vídeo

Novo clipe da Céu, música extraída de Vagarosa (2009), ótimo segundo álbum da paulistana:

James Blake - James Blake


Esse é o primeiro disco do produtor-compositor-cantor inglês. E também uma boa demonstração de como a música é consumida nesses dias. Previsto para ser lançado em fevereiro de 2011, o álbum vazou no último dia 21. Imediatamente, blogs abriram fóruns de discussão e resenhas foram feitas; a dimensão da repercussão poderia sugerir que James Blake é um artista com longa carreira, tal a expectativa pelo álbum. Na realidade, Blake ganhou espaço com seus três EPs lançados ao longo de 2010, como uma nova face de um cenário em que o dubstep se transfere para o mainstream: os EPs CMYK, The Bell's Sketch e Klavierwerke introduziram a alquimia do produtor londrino: estilhaçando elementos presentes no gênero, criando ambiências minimais e criativas, e gerando espaço para introdução de novos caminhos.

Mas sua versão de Limit To Your Love (presente no álbum), da canadense Feist, é que engrandeceu a figura pop: Blake canta - e bem - sem deixar de utilizar seu approach minimal. Praticamente uma reinvenção da original, o single não atingiu boa posição na parada britânica, porém conquistou a crítica e atenção nas mídias mais tradicionais. O espaço para inserção de peças na criação sônica de James gerou uma música cheia de alma.

E o disco segue soa como uma continuação lógica de Klavierwerke: pianos, batidas fragmentadas, silêncios, inserções de pequenos ruídos digitais, crescendos e loops vocais, e Blake cantando com uma grande melancolia. Alguns descontentes chegaram a relacionar a "simplicidade" do álbum com o trabalho de Justin Vernon (Bon Iver). Aparentemente a idéia de uma música recheada de quietude e melodia como a do Bon Iver combinada com eletrônica moderna e inventiva não agradou boa parte dos ouvintes. Mas soa como um sonho pra mim. Na verdade, o trabalho do americano Tom Krell seria uma associação mais próxima. Krell comanda o projeto How To Dress Well, que junta o R&B com batidas desaceleradas e fragmentação digital.

Lindersfarne, canção dividida em duas partes, desafia o ouvinte para um andamento arrastado e repetitivo. Mas uma audição mais acurada (o disco exige ser ouvido com fones, e não como trilha de fundo) descortina momentos de beleza, dedilhados de violão tentando se sobrepor á poeira eletrônica. Se você achou Limit To Your Love muito quieta, saiba que é a música mais eloquente de todo o disco. Não por acaso, aparece exatamente no meio da jornada. Give Me My Month é uma suíte carregada apenas por voz e piano. To Care (Like You) recompensa com loops vocais sobrepostos, batida compreensível e dueto garoto/garota alienígena. Why Don't You Call Me e I Mind também parecem pedir audição conjunta. Em particular a segunda, que merece o registro de melhor composição de Blake até agora: mais loops de vocais lamuriosos, agora com um deles sendo usado como uma espécie de arpeggio, e andamento entre o metronômico e o entrecortado. Bela e estranha.

James Blake, o artista, ainda desafiará definições pelos próximos meses. E possui um talento admirável, que nos permite vislumbrar um caminho interessante. James Blake, o álbum, não é o clássico instantâneo esperado por alguns. Somente em tempos velozes como o século 21 alguém esperaria de um estreante uma revolução apenas depois de alguns bons EPs. E um disco de 2011 estaria sendo baixado e discutido avidamente em 2010. Até fevereiro, e ao longo do próximo ano, o hype pode se deslocar para outros focos, e poderemos apreciar esse ótimo disco sem distorções.
8/10 >>>>Assista o vídeo de Limit To Your Love com James Blake, e a versão original da Feist.



segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

PJ Harvey - The Last Living Rose Video


Let England Shake, oitavo disco da inglesa PJ Harvey está pra sair do forno em fevereiro de 2011. Mas já tivemos um gostinho do que virá com Written In The Forehead, que foi colocada na web algumas semanas atrás. Essa The Last Living Rose é mais um saboroso aperitivo do álbum, sucessor de White Chalk (2007). Se Stories From The City, Stories From The Sea (2000) era um disco que refletia a impressão de PJ com a cosmopolita Nova Iorque em contraste com sua criação no interior da Inglaterra, Let England Shake parece uma reflexão sobre suas raízes. Vamos aguardar:

domingo, 19 de dezembro de 2010

Drogas + Morte + Tóquio + Paz De La Huerta: Enter The Void



Enter The Void é o novo filme de Gaspar Noé (Irreversível). Na verdade, o filme foi exibido em diversos festivais em 2009, mas só agora foi lançado comercialmente. Julgar o filme pelas controvérsias ou as reações de alguns críticos - "misógino"," insuportável", disseram alguns- seria diminuir toda a experiência. Noé recebeu as mesmas críticas por Irreversível. Eu diria que ele paga o preço por tentar realizar obras pungentes num mundo que se encanta por Avatar ou qualquer outra franquia limpinha de Hollywood.

A estória se passa em Tóquio. Se essa informação te fez lembrar de Lost In Translation, bem, a Tóquio de Enter The Void é mais hardcore e crua. As luzes, becos e prédios parecem mais como uma dimensão assustadora de frieza cosmopolita do que um cenário onírico. Oscar (Nathaniel Brown) e Linda (Paz De La Huerta) são irmãos. Enquanto Oscar vive traficando drogas, Linda é uma stripper num clube privado. A narrativa é contada sob a perspectiva de Oscar: a câmera acompanha seus movimentos, e o espectador enxerga através desses olhos.

Aqui começa o truque de Gaspar Noé: quando Oscar consome DMT (substância química presente na Ayahuasca), suas viagens alucinógenas são transmitidas "de dentro pra fora", e o uso de imagens e sons buscam reproduzir uma experiência química. Logo o destino de Oscar acaba sendo a morte por policiais: essa é a segunda parte do truque: continuamos a acompanhar o que seria o espírito do personagem, vagando pelo mundo físico.

Após essa premissa, somos levados a contemplar melhor a perspectiva: entre flashes do passado, compreendemos o caminho das personagens, e as relações entre os fatos. Imagine isso não como uma narrativa digressiva linear, mas como uma viagem através de eventos humanos: o nascimento, a infância, os traumas, intercalados com eventos presentes. Seguindo a descrição do pós-morte tibetano, a alma de Oscar, lutando para continuar ligada ao plano conhecido, sofre com a noção abstrata de cronologia e pertencimento.

Gaspar usa elementos visuais vertiginosos, mas a grande qualidade aqui, assim como em Irreversível, é o caminho tortuoso, visceral de se contar uma estória. O roteiro seria quase uma redundância ao relatar o lado selvagem de personagens urbanos, blábláblá, mas na visão de Noé é uma oportunidade de oferecer algo diferente ao expectador. Para aqueles que acharam o filme "vazio", uma recomendação: tente algo mais afável e unidimensional nessa área vida- após- a morte. Ghost, por exemplo. Enter The Void fragmenta a construção do enredo, das personagens, mas não os torna pequenos. São perfeitamente reconhecíveis, e o mais belo disso tudo é que não há condução maniqueísta. Apenas imagens, sensações, pedaços de vida espalhados por visões, sons e cores dissonantes. Fora que certas questões levantadas aqui perturbam os conservadores: a relação entre experiências com drogas alucinógenas e espiritualidade; ou a percepção de dimensões maiores do que bem e mal, céu e inferno.

Pra resumir, se ainda não estiver convencido: Enter The Void é cativante, provocativo, bacanudo, veloz e tem a Paz De La Huerta. Em uma palavra, FODA.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Some Community - RinoRino EP



Esse quinteto de São Paulo é mais uma banda brasileira confirmada no SXSW 2011, em Austin. Certamente isso trará mais atenção ao trabalho das quatro meninas + um menino. RinoRino saiu no começo de 2010, e merece audição mais cuidadosa. As seis canções trazem um rock que transita entre a delicadeza e tons mais abrasivos, algo sempre difícil de equilibrar.

Two Colours inicia o disquinho toda climática, de construção lenta e melodia bonita. Os belos vocais de Juliana Vacaro se destacam, mas a boa habilidade pop da banda já é demonstrada. Young And Fresh é um hit pronto, guitarras duelando num powerpop redondo, acelerado, fazendo contraponto ao início do EP. Interessante perceber o domínio do Some Community nessas duas músicas: eles estão á vontade quando constroem uma balada e também quando precisam engatar uma marcha mais alta, sem perder a identidade.

De forma invertida, Random Words segue com pegada empolgante, mas logo deixa espaço para Tereza, mais trabalhada nos espaços, contando com um tom mais melancólico. Funcionam bem os ruídos de guitarra e os versos cortantes: "Tereza was never in control of her life".

Dois terços percorridos, e o Some Community já soa como uma banda de personalidade, as arestas esperadas em trabalhos iniciais quase inexistentes: há algo aqui que parece preceder momentos de grandiosidade, seja no joguete instrumental variado, na pegada pop ou nas aspirações mais ruidosas das guitarras. Let's Go To Africa encerra o EP justamente apontando para um caminho bastante interessante: as melodias matadoras duelam o tempo inteiro com uma disposição para a distorção, como num emaranhado de sombras e luzes . 7/10 >>Abaixo, uma apresentação na Poploaded Sessions e o link para baixar RinoRino



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Ame Ou Odeie: Natal De 2010 - As Canções

Ah, o Natal: época de inúmeros contratempos, trânsito, shoppings lotados, amigo secreto/oculto constrangedor, reunião familiar, congregação espiritual...e músicas pop. Nesse ano, Kanye "incansável" West, Coldplay, Futureheads lançaram seus singles natalinos. Mas também tem a campanha inglesa para levar 4'33 do John Cage ao primeiro lugar na parada. O número 1 do Natal é algo sério na Inglaterra. Acontece que nos últimos anos, esse espaço sempre era ocupado pelos singles dos ganhadores do X-Factor, o reality show de calouros. Um pessoal ficou chateado com isso, e no ano passado bancou uma campanha para levar Killing In The Name, do Rage Against The Machine para o primeiro posto. Deu certo. Então, esse ano eles lançaram a nova campanha entitulada Cage Against The Machine. Eles querem que 4'33, de John Cage, seja executada oficialmente como a canção mais vendida do Natal de 2010. Composta em 1952 pelo pianista americano, possui três movimentos. Digamos que você toque violoncelo, por exemplo. Inicie com 30 segundos, depois 2 minutos e 23 segundos e finalize com 1 minuto e 40 segundos de silêncio. É isso. Confira tudo aí embaixo:








Tiê - Mapa Múndi

A cantora-compositora Tiê passou o ano em turnê de seu elogiado primeiro disco e lançando o programa Na Cozinha Ou No Jardim, transmissões via web - twitcam - de apresentações musicais de amigos em sua casa. Já rolou a francesa Soko e Hélio Flanders (Vanguart). Após encerrar os shows de seu disco de estréia, ela entrou em estúdio para gravar seu próximo álbum, novamente sob produção de Plinio Profeta.Enquanto o sucessor de Sweet Jardim (2009) é aguardado para o início de 2011, Tiê apresenta sua versão de Mapa Múndi, de Thiago Pethit:

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Foals -Tears For Fears Cover: Everybody Wants To Rule The World

O Foals, que conquistou a segunda posição na nossa lista de melhores albuns de 2010, gravou uma sessão ao vivo para o programa do Channel Four inglês On Track With SEAT. A idéia é levar as bandas para um estúdio em Londres e gravar a sessão direto para o vinil, criando um item de colecionador para os fãs. O Foals tocou Blue Blood e Spanish Sahara, além de uma cover do Tears For Fears. O vinil de 12 polegadas, entitulado Metropolis Sessions pode ser adquirido no site oficial da banda. Confere aí a versão de Everybody Wants To Rule The World:



Como bônus do post, uma sessão da Radio 6 da BBC com uma rendição de Spanish Sahara - a música do ano; pelo menos pra nós :

domingo, 12 de dezembro de 2010

Trance-Punk World Music : Arrington De Dionyso

foto: Lucinda Roanoke

Um dos discos mais bacanas que eu ouvi esse ano é de 2009. Malaikat dan Singa, projeto de um cara chamado Arrington De Dionyso. Dyoniso canta, compõem e realiza performances que envolvem artes visuais e música. Vocalista da banda fundada em Olympia Old Time Relijun, Arrington embarcou nesse projeto, tentando trazer uma música ao mesmo tempo intoxicante e agressiva, ritualística e transcendental. Cantar no idioma indonésio é só o começo do estranhamento causado nas primeiras audições: ele usa sua voz com modulações diferentes, fazendo dela mais uma ferramenta, um dos componentes utilizados na mistura de percussões, guitarras, instrumentos como clarinete e alguma improvisação.

Contratados pelo clássico selo K Records, de Calvin Johnson, Malaikat dan Singa lançou o primeiro álbum em 2009, de mesmo nome. Chamado de "trance-punk" pela gravadora, o que ouvimos é realmente uma alternativa ao indie rock ou a eletrônica praticada atualmente. Trazendo referências pouco conhecidas, Arrington carrega um ataque certeiro de baterias, cânticos e crueza, resultando num som bastante distinto e original. Somos informados pelo release da gravadora que o conteúdo das letras consiste em "mitologia e fantasia combinados com uma tradução livre dos poemas de William Blake". Só ouvindo pra captar o mundo criado pelo americano.

Conheci o trabalho do Malaikat dan Singa graças ao Dago Donato, dono do Neu Club em São Paulo e do blog Be My Head . Repasso aqui a melhor dica musical que recebi esse ano.



sábado, 11 de dezembro de 2010

O Melhor Vídeo De 2010 Por Uma Banda "De 2011"


O Yuck é uma banda de Londres, altamente recomendada por blogs durante esse ano e também muito falada pela mídia tradicional britânica. A NME e a BBC já os colocam como aposta para 2011. Formada do que restou da finada Cajun Dance Party, com a adição de novos membros - inclusive uma japonesa e um americano - o Yuck revive os anos noventa de maneira deliciosa: soam como os discos antigos de Teenage Fanclub, Pavement, Sonic Youth, alguma coisa de shoegaze...absolutamente trivial, porém com certo frescor e canções muito boas. O disco de estréia deve vir no começo de 2011. O vídeo abaixo é da música Rubber , uma balada lenta recheada de guitarras. E é basicamente sobre uma menina sendo treinada pra trabalhar numa pet shop, mas que está com a cabeça em outros lugares....

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Kanye West: Conexões Pop, Dark And Twisted

Kanye West se transformou numa figura maior do que o rótulo de rapper pode comportar. Seja manifestando seus pensamentos pela sua conta no Twitter, se comportando mal em premiações ou lançando vídeos de trinta minutos (inspirados em Fellini) como teasers, West demonstra sua personalidade excêntrica quase que em cada momento possível. E, claro, seu mais recente álbum My Beautiful Dark Twisted Fantasy - top 10 desse blog - talvez seja a mais evidente tradução musical dessa delirante mente. Disparando rimas que abrangem temas comuns a quem vive uma espécie de realidade paralela povoada por músicos, estrelas pornô, carros esportivos italianos, mesclados a ponderações existencialistas, Kanye foi longe não apenas nos versos, mas também nas referências musicais: citadas ou sampleadas. Vamos dar alguns exemplos abaixo. Listar tudo seria uma tarefa tão grandiosa quanto o coral que Kanye reuniu para a música All Of The Lights: Rihanna, Alicia Keys, Fergie, John Legend, Elly Jackson (La Roux)...

Dark Fantasy sampleia In High Places de Mike Oldfield (experimentador inglês, do álbum Crises, de 1983. Oldfield lançou o renomado Tubular Bells nos anos setenta e operou em diversas paletas do pop, utilizando sua qualidade de multi instrumentista) e cita Sex On Fire do Kings Of Leon:



Power sampleia 21st Century Schizoid Man, do King Crimson (liderada por Robert Fripp, o grupo prog-jazzy experimental inglês Crimson lançou o clássico In The Court Of Crimson em 1969. Schizoid Man é uma das obras desse álbum). A capa do disco também é uma das mais icônicas do rock:


O vídeo simples de Runaway: versão completa aqui


Thanks Bárbara Scarambone pelo tuíte inspirador.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

A Idiossincrasia de Mallu

www.focka.com.br | Foto Eduardo Gabriel

Na última sexta, dia 3, o teatro do Sesc Pompéia recebeu o show de encerramento da turnê do segundo álbum da cantora-compositora Mallu Magalhães. Alguns dias antes, Mallu divulgou via web uma nova música, com vídeo editado e dirigido por ela mesma. Nada mais natural pra quem há poucos anos atrás disponibilizou um punhado de boas músicas em seu Myspace, iniciando uma- até então inédita no Brasil - repercussão baseada exclusivamente pela qualidade das canções. De revelação indie a fenômeno teen a figura pública conhecida: tudo isso em muito pouco tempo.

O público presente era sim predominantemente jovem: muitos adolescentes preocupados com a hora de ir embora, outros acompanhados por mães; mesmo assim, a reação da garotada não era tipicamente de adoração e barulho: Mallu entrou sozinha no palco e tocou duas versões de artistas pouco relacionados ao playlist de Ipods juvenis: Billie's Blues, de Billie Holiday e Don't Think Twice, It's All Right de Bob Dylan. Interessante notar que o clima intimista do teatro e a abordagem delicada de Mallu ás canções não soaram estranhas aos fãs de Tchubaruba. Permanecendo só no palco, Mallu pediu espaço pra demonstrar suas "influências brasileiras": tocou Gal Costa, Vinícius de Moraes (Astronauta) e Peninha (Sozinho). Um dos exemplos da idiossincrasia do trabalho da jovem cantora: pra ela, há alguma conexão entre o folk, o blues e a poesia da música brasileira mais antiga.

Apesar de não disfarçar a já conhecida timidez, Mallu prosseguiu de forma extremamente confiante: introduziu duas músicas novas: a citada Sur Mon Couer, bonita e com toque mais sofisticado e Me Leva, um samba com esperto jogo de palavras. Só depois entra sua banda de apoio e o repertório do segundo álbum predomina, elevando o ânimo para um caminho mais elétrico. Essas pequenas nuances marcam distintamente não apenas uma artista entusiasmada com descobertas musicais, mas capaz de absorvê-las ao seu próprio modo; é uma "bagunça" saudável, não domesticada. Que fique claro que o comentário a seguir não é uma comparação. Mas a maneira como o show se inicia de forma intimista, acústica e quieta pra depois se transformar em um aparato que incluiu até o apoio de metais lembra o lendário bootleg - e depois registro oficial - de Bob Dylan Live At Royal Albert Hall. Não sei se Mallu pensou em algo do gênero ou foi apenas casual. Claro que a citação é apenas estilística - desprezando aqui o impacto do repertório e a ousadia daqueles shows históricos de Dylan e The Band.

Dentro desse universo particular, encontramos uma compositora que passa longe da alegada futilidade juvenil. Quem enxerga Mallu Magalhães apenas pela idolatria de milhares de adolescentes diminui seu trabalho de forma equivocada: não há qualquer relação entre outros sucessos teen e os dois álbuns lançados pela paulistana. Aliás, ano que vem provavelmente teremos mais um disco, o que significará que Mallu, aos dezoito pra dezenove anos terá três álbuns de estúdio lançados e uma bagagem musical rica. Mais impressionante que isso, só o fato de que ela conhece e é mais entusiasmada com a música pop do que boa parte daqueles que escrevem sobre isso. Abaixo, a música nova e a versão para I'm Evil, famosa com o Elvis Presley:



domingo, 5 de dezembro de 2010

Melhores Álbuns De 2010 - Top 25 Brasil

Talvez tenha faltado maior quantidade de lançamentos no mercado nacional - fora do eixo mainstream, barra universitário - mas isso indica que o cenário independente brasileiro ainda luta por espaços. Poucos dos artistas mencionados conseguem fazer uma turnê pelo país que se pague. O que é uma pena, mas cada vez mais a internet permite que ouvintes atentos possam acompanhar, de qualquer ponto do país, os lançamentos independentes. Não faltou qualidade: a escolha dos cinco melhores foi extremamente difícil, decidida com muito critério. Se a concentração de bandas/compositores paulistas nessa lista pode indicar alguma coisa, é apenas a constatação do bom momento da cena paulistana. Não se constitui em miopia bairrista. De novo, qualquer lista está sempre no limite da omissão: não ouso dizer que ouvi tudo que foi lançado em 2010, mas ouvi um bocado de coisas, o suficiente para montar a lista abaixo. Se algo espetacular passou despercebido, que bom! Espero gastar algumas linhas em 2011 corrigindo esse erro. A lista inclui álbums e EPs. No mais, isso é o que o Music For The People apreciou:

25 - Labirinto - Anatema

24 - Cibelle - Las Vênus Resort Palace Hotel

23 - Guizado - Calavera

22 - Mombojó - Amigo Do Tempo

21 - M. Takara - Sobre Todas E Qualquer Coisa - resenha

20 - Nina Becker - Vermelho

19 - Stop Play Moon - Stop Play Moon - resenha

18 - Jennifer Lo-Fi - Summer Session EP

17 - Miranda Kassin e André Frateschi - Hits Do Underground - resenha

16 - Cérebro Eletrônico - Deus E O Diabo No Liquidificador - resenha

15 - Do Amor - Do Amor

14 - Lucy And The Popsonics - Fred Astaire

13 - Karina Buhr - Eu Menti Pra Você

12 - Nina Becker - Azul

11 - Luisa Maita - Lero-Lero - resenha

10 - Inverness - Somewhere I Can Hear My Heart Beating - resenha

9 - Emicida - Emicídio mixtape

8 - Thiago Pethit - Berlim , Texas - resenha

7 - Rosie And Me - Bird And Whale EP - resenha entrevista

6 - Tulipa Ruiz - Efêmera - resenha

5 - Bárbara Eugênia - Journal De BAD - resenha

4 - Marcelo Jeneci - Feito Pra Acabar - resenha

3 - Holger - Sunga - resenha

"Sunga" não apenas mostrou uma banda mais madura e confiante: apontou a assimilação de influências diversas no som do grupo. Os shows do Holger estão sempre no limite: não se sabe se haverá invasão de palco, garotas semi-nuas, integrantes se jogando na platéia ou tudo isso junto. O entusiasmo deles é contagiante, e "Sunga" representa muito bem essa hiperatividade.

2 - Garotas Suecas - Escaldante Banda - resenha entrevista

Uma máquina super acertada para fazer suar: "Escaldante Banda" entrega o que promete, e a banda paulistana mostra uma confiança monstruosa em seu álbum de estréia. Com elogiados shows nos EUA - e aqui - o Garotas Suecas pode vislumbrar um futuro brilhante. E mais discos quentes.

1 - Andreia Dias - Vol.2 - resenha

"Vol.2" foi um dos primeiros discos nacionais que ouvi esse ano. O fato de permanecer soando vivo, pulsante, mesmo após várias audições pesou a favor de Andréia. E também o fato de que, entre outras cantoras-compositoras de talento, é possível distinguir Andreia Dias facilmente: sua música é forte, entregue sem filtros; talvez isso a faça menos "fofinha" ou "apadrinhável". E essa característica é o que pode mover verdadeiramente um cenário musical: não a busca pelo conforto da homenagem, da bênção; mas a ousadia de um trabalho autoral. Disco do ano com méritos.


sábado, 4 de dezembro de 2010

Melhores Álbuns De 2010 - Top 20

Listas são sempre um desafio: selecionar os melhores álbuns nem sempre é uma tarefa tão simples. É preciso levar em conta o "tempo de maturação" dos discos, o efeito que um disco recém lançado terá, e obviamente as qualidades: criatividade, ousadia, inovação, contexto....Colocar 100 álbums em ordem de preferência é uma ação não apenas difícil, mas diria, bastante passível de falhas. Alguém apontará alguma ausência (sorry LCD Soundsystem, Janelle Monaé, Kings Of Leon, etc), mas também o autor dessas linhas poderia realocar algumas posições, dependendo de seu humor / estado de espírito. Fato mesmo é que foi um ano rico, e esperamos que os 100 artistas aqui citados possam verdadeiramente representar um cenário pop cada vez mais fragmentado, inventivo e desafiador.

20 - Manic Street Preachers - Postcards From A Young Man

19 - Flying Lotus - Cosmogramma



18 - The Drums - The Drums

17 - Swans - My Father Will Guide Me Up a Rope To The Sky

16 - Frightened Rabbit - The Winter Of Mixed Drinks

15 - M.I.A. - /\/\Y/\

14 - Best Coast - Crazy For You

13 - Caribou - Swin

12 - Marina And The Diamonds - The Family Jewels

11 - Crystal Castles - Crystal Castles

10 - Gorillaz - Plastic Beach



9 - The National - High Violet

8 - Beach House - Teen Dream

7 - Kanye West - My Beautiful Dark Twisted Fantasy

6 - Salem - King Night > resenha

5 - These New Puritans - Hidden > resenha

4 - Laura Marling - I Speak Because I Can > resenha

3 - The Knife - Tomorrow, In A Year > resenha

2 - Foals - Total Life Forever > resenha

1 - Arcade Fire - The Suburbs > resenha






sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Melhores Álbuns De 2010 - 40 - 21







40 - Walkmen - Lisbon

39 - Women - Public Strain

38 - Perfume Genius - Learning

37 - I Am Kloot - Sky At Night

36 - The Fall - Your Future Our Clutter



35 - Lonelady - Nerve Up

34 - Cee Lo Green - The Lady Killer

33 - Los Campesinos! - Romance Is Boring

32 - Villagers - Becoming A Jackal

31 - Sufjan Stevens - The Age Of Adz

30 - Male Bonding - Nothing Hurts

29 - Klaxons - Surfing The Void

28 - Sleigh Bells - Treats



27 - Ben Folds And Nick Hornby - Lonely Avenue

26 - Maximum Balloon - Maximum Balloon

25 - Avi Buffalo - Avi Buffalo

24 - Blood Red Shoes - Fire Like This

23 - Everything Everything - Man Alive

22 - Kate Nash - My Best Friend Is You

21 - Killing Joke - Absolute Dissent

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

British Sea Power - Living Is So Easy Video

O British Sea Power é uma das bandas que mais divide opiniões no cenário pop/indie mundial. Sempre no "quase" pra estourar comercialmente no Reino Unido e praticamente desconhecidos nos EUA, o pessoal de Brighton prepara seu quinto disco, entitulado Valhalla Dancehall para Janeiro. O vídeo abaixo é de Living Is So Easy, primeiro single extraído do novo álbum:

Melhores Álbuns De 2010 - 60 - 41

Acelerando um pouco as coisas, vamos de 20 em 20 a partir de agora:





60 - Ellie Goulding - Lights

59 - Jónsi - Go

58 - Paul Weller - Wake Up The Nation

57 - JJ - JJ n.3

56 - Johnny Flynn - Been Listening

55 - Superchunk - Majesty Shredding

54 - El Guincho - Pop Negro

53 - Girl Talk - All Day

52 - Two Door Cinema Club - Tourist History



51 - Weezer - Hurley

50 - Teenage Fanclub - Shadows

49 - PS I Love You - Meet Me At The Muster Station

48 - The Charlatans - Who We Touch

47 - Tame Impala - Innerspeaker

46 - Skream - Outside The Box



45 - Warpaint - The Fool

44 - Edwyn Collins - Losing Sleep

43 - Deerhunter - Halcyon Digest

42 - Liars - Sisterworld

41 - Neil Young - Le Noise

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Entrevista: Garotas Suecas


Não há dúvida que 2010 tem sido um ano muito especial para o pessoal da banda paulistana Garotas Suecas: Escaldante Banda, o primeiro disco deles, foi lançado há pouco, acompanhado de elogiados shows nos EUA e aqui no Brasil. A "homecoming gig" deles no Sesc Pompéia, em Novembro, foi algo memorável;(dia 3, sexta, tem show em Sao Paulo, no Estúdio Emme) Olhando agora, o futuro parece brilhante. E é nesse momento "quente" que Tomaz Paoliello, guitarrista e compositor da banda, gentilmente falou com o Music For The People a respeito da carreira, internet, cena independente e sobre "delicadeza e brutalidade" :

Escaldante Banda soa como um trabalho bem definido e seguro. Quão importantes foram os anos que precederam esse lançamento para a sonoridade do disco?

Obrigado pelo elogio. Os anos foram fundamentais. Chegamos numa sonoridade que foi amadurecida com o passar do tempo. Acho que dá pra perceber uma evolução desde nossos primeiros EPs, passando pelo "Dinossauros", até esse disco. O formato também faz diferença, um disco com 1o músicas é muito diferente de um com 5, muito mais amplo.

Com a distribuição mais rápida e acessível das músicas pela internet, há uma percepção de um "work-in-progress" das bandas novas. Elas vão amadurecendo de forma mais exposta. Vocês já chegaram a sentir alguma insegurança quanto a isso?

Não, e não temos medo de abir mão da cara que a banda tinha há alguns anos. É bem legal poder ver isso nas bandas. Acho que essa percepção de work in progress não é exclusividade dos dias de hoje. As maiores bandas do mundo tiveram isso. É só ver a carreira dos Beatles ou dos Stones pra perceber a diferença entre os primeiros discos e os discos mais "perto dos 30 anos"...

A banda é sempre muito bem avaliada pela imprensa gringa, vocês voltaram há pouco dos EUA...Algum plano específico para o mercado de fora?

Não temos nada específico. Agora estamos focados em lançar o disco aqui no Brasil. Sabemos só que nosso próximo trabalho vai ter que ser feito pensando tanto no mercado lá fora quanto no brasileiro... (nota do blog: Escaldante Banda foi lançado nos EUA pelo selo californiano American Dust)

A mídia tradicional e os blogs são categorias excludentes ou complementares para o jornalismo musical? Quem pauta quem hoje em dia, do ponto de vista de quem produz música?

São complementares, e espero que os blogs cresçam cada vez mais no Brasil. É ótimo para as bandas novas, e são um meio muito dinâmico. Quem pauta é a banda, que precisa produzir material bom e virar notícia. Os blogs geralmente chegam antes, porque são muito mais "enxutos", mas a notícia não tem um sentido linear...

Os shows da banda são sempre muito animados, com um caráter quase celebratório; Mas há nas letras um certo romantismo latente...parece uma coisa meio catártica, de botar pra fora os sentimentos. Isso é o lado "soul" ou o lado "rock" dos Garotas?

Acho que é um lado comum desses dois tipos de música e também da música brasileira. O show tem que rolar assim. Acho que o roque, o soul, a música brasileira, a música popular de uma maneira geral, principalmente ao vivo, têm um aspecto ritualístico que é uma das melhores partes. Precisa ter um caráter sexual, uma dose de sacanagem. Tem que ter, ao mesmo tempo, delicadeza e brutalidade, se é que isso faz sentido.

Por fim, muito se fala sobre o cenário independente em São Paulo. Dá pra se sentir parte de algum tipo de momento especial rolando na cidade?

Não sei. A cidade sempre tem muitas bandas circulando, e o pessoal se conhece, divide palcos, frequenta os shows uns dos outros. Não sinto que agora seja diferente de alguns anos atrás, mas acho que o estilo geral da cena se deslocou do roque para uma coisa mais aberta, o que eu acho positivo. Acho também que o independente é um aprendizado conjunto do público, das bandas e do pessoal que trabalha com isso. Quando vamos para os EUA ficamos impressionados com a cena independente lá, e acho que o Brasil tem amadurecido também. Pelo menos nós amadurecemos.


Melhores Álbuns De 2010 - 70 - 61

100-91



70 - Broken Social Scene - Forgiveness Rock Record

69 - She And Him - Volume 2

68 - Holy Fuck - Latin



67 - Wolf Parade - Expo 86

66 - ceo - White Magic

65 - Belle And Sebastian - Belle & Sebastian Write About Love

64 - Crocodiles - Sleep Forever



63 - Field Music - Field Music (Measure)

62 - Hurts - Hurts

61 - The Besnard Lakes - The Besnard Lakes Are The Roaring Night

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Melhores Álbuns De 2010 - 80 - 71

100 - 91 90 - 81

80 - Mystery Jets - Serotonin

79 - Gonjasufi - A Sufi And A Killer


78 - Health - Disco 2

77 - MGMT - Congratulations

76 - Gil Scott-Heron - I'm New Here

75 - Of Montreal - False Priest

74 - N.E.R.D - Nothing

73 - The Tallest Man On Earth - The Wild Hunt


72 - The Black Keys - Brothers

71 - Badly Drawn Boy - I'm What I'm Thinking Pt.1 - Photographing Snowflakes

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Melhores Álbuns De 2010 - 90 - 81

100 -91

90 - Goldfrapp - Head First



89 - Four Tet - There Is Love In You

88 - Big Boi - Sir Lucious Left Foot: The Son Of Chico Dusty

87 - Gold Panda - Lucky Shiner


86 - Ou Est Le Swimming Pool - The Golden Year

85 - Hot Chip - One Life Stand

84 - Toro Y Moi - Causers Of This

83 - Midlake - The Courage Of Others

82 - Jack Sparrow - Circadian

81 - The Divine Comedy - Bang Goes The Knighthood

Marcelo Jeneci - Feito Pra Acabar


Flutuar, verbo transitivo no sentido figurado: "As músicas de Feito Pra Acabar, debut de Marcelo Jeneci, possuem uma leveza mágica, como se flutuassem enquanto tocadas." Fiquei com isso na cabeça durante os dias em que convivi com o álbum. Então, achei que seria a melhor maneira de iniciar o texto. Explicarei melhor a idéia do "flutuar":

Marcelo Jeneci começa sua jornada como se estivesse lançando uma carreira "solo". Isso porque suas composições e suas habilidades como multi instrumentista já foram utilizadas em discos aqui e acolá. De maneira que até chegar a Feito Pra Acabar, Marcelo construiu uma reputação de músico talentoso. A expectativa pela qualidade do álbum excedia, portanto, as convenções de "disco de estréia".

Felicidade dá o tom: composição sólida, linda participação vocal de Laura Lavieri, melodia que flui como uma pequena valsa, arranjos simples e sofisticados...você estará sorrindo antes que a música acabe. As cores mais quentes de Jardim Do Éden mostram que as variações rítmicas não interferem na fluidez quase onírica aqui encontrada: o equilíbrio é a base da produção azeitada de Kassin. Copo D'água é um rock cru, os versos de Jeneci jogando com o ritmo de maneira contundente. Quarto De Dormir mostra a faceta do romantismo descarado, que Roberto Carlos já produziu um dia e gente como Fernando Catatau resgatou. Pra Sonhar possui uma singeleza que consegue reverter a idéia de que cantar sobre "um navio a navegar" é uma forma asséptica de praticar um brasileirismo lírico.

E tudo só melhora a cada faixa: Por Que Nós é mais um dueto lindíssimo, com um refrão que é praticamente um apelo universal, dentro de uma forma delicada de dizer "que fomos serenos num mundo veloz / nunca entendemos então por que nós". As letras formam um mosaico de reflexões, sensações e apelos: nunca faltam palavras e ganchos para Jeneci, que dialoga e surpreende o ouvinte com bastante frequência. Show De Estrelas soa como uma celebração da capacidade humana de criar, compartilhar alguma forma de felicidade. A psicodelia tropical de Pense Duas Vezes Antes De Esquecer e a canção título - um exercício sinuoso de poesia e construção melódica - encerram de forma perfeita a jornada.

Flutuamos portanto em um universo rico e belo em treze faixas, trabalhadas com esmero ímpar. Um dia teremos contexto histórico mais apropriado, mas Feito Pra Acabar praticamente grita "clássico". E é mais um retrato do momento efervescente de uma nova geração de compositores. 9/10

sábado, 27 de novembro de 2010

Melhores Álbuns De 2010 - 100-91

Tudo bem, Dezembro faz parte de 2010. Mas vamos antecipar um pouco o fim do ano e iniciar a nossa contagem de melhores álbuns desse começo de década. A lista não é uma afirmação pretensiosa: é bastante provável que algo bom tenha passado sem chamar a atenção, sim. Mas de certa forma representa aquilo que podemos chamar de bom investimento de tempo, e talvez dinheiro. Vamos separar a lista em 10 postagens. Atenção: a lista brasileira será divulgada á parte. Aqui, apenas os gringos:

100 - Darker My Love - Alive As You Are

99 - Roky Erickson And Okkervil River - True Love Cast All Evil

98 - Shearwater - The Golden Archipelago


97 - Benga - Phase One

96 - Wavves - King Of The Beach

95 - The Hundred In The Hands - The Hundred In The Hands

94 - Jenny And Johnny - I'm Having Fun Now

93 - Peter Gabriel - Scratch My Back


92 - Jamie Lidell - Compass

91 - The Dead Weather - Sea Of Cowards

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

The Streets, Twitter, Guardian e a Nova Forma de Compor Músicas


Essa semana Mike Skinner, o cara por trás do projeto inglês The Streets, postou um novo vídeo no Youtube. Até aí, nada de novo: ele já anunciou que o novo álbum sai no começo de 2011, e será o último trabalho sob essa alcunha. Bem sucedido no Reino Unido, Mike é um cronista/rapper branco que ilustrou tão bem os hábitos da juventude britânica do começo desse século quanto o Arctic Monkeys ou o Libertines. Seus dois primeiros discos, Original Pirate Material (2002) e A Grand Don't Come For Free (2004) são clássicos daquela década.

Acontece que Skinner, através de sua conta no twitter e no seu site oficial, vem não apenas comentando o andamento das gravações do novo álbum, mas pedindo sugestões de assunto e/ou complementos para rimas ao seus seguidores. O fato é que ele não somente vem incorporando essas sugestões como mantendo seus fãs atualizados através de pequenos vídeos postados no site.

O jornal britânico Guardian, através de seu articulista James McMahon, postou toda essa história no dia 22 em seu blog sobre música. McMahon elogiou a postura de Skinner em utilizar a internet de forma colaborativa. Daí que a resposta aos elogios veio em forma de vídeo e música, em que Mike pega o gancho de um dos comentários do jornalista (sobre tuítar a respeito de ressacas) além de, lógico, agradecer as palavras elogiosas. A música se chama The Day After The Day Off On One. Não sabemos se Computer And Blues, o disco a ser lançado, será tão bom quanto seus trabalhos iniciais, porém Mike Skinner está usando a internet não apenas como um canal de comunicação alternativo, mas como sua aliada na tarefa de encontrar inspiração. Seja por um tuíte, ou por uma crítica jornalística, o novo disco do The Streets será um trabalho verdadeiramente contemporâneo na origem.

Deixo o vídeo da "música-resposta" ao Guardian e também a genial Dry Your Eyes, de A Grand Don't Come For Free:


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Barbara Eugenia - Journal de BAD


Talvez faltem palavras e até mesmo formação para que eu disserte sobre a relação entre os que recebem a arte e aqueles que a produzem; para compreender as emoções sentidas pelo autor da obra e a forma como este a concebeu; e ainda, como um ouvinte filtra essas sensações ao escutar um disco, por exemplo. A questão se aprofunda quando se pretende transformar em texto, analítico, algo que se aprecia quase como um acompanhamento inseparável, de influência indelével. Isso é uma tarefa racional, mas também envolve todas essas questões acima. Por falta de espaço, e repito, de gabarito pra isso, finalizarei aqui essas divagações. Até porque isso é uma resenha.

Tenho escutado Journal de BAD, primeiro disco da Bárbara Eugenia, há alguns dias. E não encontrei melhor forma de iniciar esse texto a não ser propondo essa reflexão entre nossa memória emocional e a crítica de música - ou de qualquer outra forma de arte - após finalmente absorver o que a Barbara oferece nesse álbum. Antes, é preciso dizer que o disco foi belamente produzido, e os músicos que a acompanham na empreitada são talentosos. Concebido no mesmo molde colaborativo em voga na atual cena paulistana, o embrulho garante á cantora que suas composições apenas ganhem alma e consistência. Mas o brilho aqui é todo da carioca que adotou São Paulo há alguns anos.

A voz de Barbara possui uma característica de contenção que contrasta com os fortes versos disparados. Uma contenção que não impede os instintos e nuances, apenas realça a impressionante confiança da entrega. É um disco de alma rocker, mas a exemplo de outros álbuns relacionados a toda a "Baixo Augusta scene"existe em Journal de BAD uma saudável amostra de absorção de influências globais e contemporâneas, de sabor brasileiro não reverencial. De um tropicalismo a uma chanson, de um noir Waits a uma áspera PJ Harvey, de uma celebração carnavalesca a uma melancolia Radioheadiana são feitas as conexões espirituais desse intoxicante álbum.

Certamente devemos evitar clichês relativos a gêneros sempre que possível, mas não é possível evitar a constatação: isso é uma obra de coração e alma femininos, e toda a implicação que essa afirmação carrega: sim, é delicado, romântico. E também apaixonado, visceral, de declarações abertas e de coisas não ditas mas apenas sugeridas, de mistérios e fragilidades. Um mundo complexo, e instigante.

A Chave, levada por um piano pontual vai abrindo o leque de feridas e confissões: " Só porque eu quis casar / você quis fugir / machucou meu coração ", a quebra melódica emociona: " Depois de um tempo me recuperei/ levantei minha auto-estima/ resolvi sair por cima/sem pensar que também errei". Pausa pra respirar. Por Aí é a Barbara que " vai ficar te esperando/ fumando mil cigarros/ tomando Coca-Cola/ na saída da escola " , languidamente em seu vestido florido e botinhas. Embrace My Heart And Stay é derramada " I could melt down / Don't know why all is this empty/ all is this blue/ without you by my side" . "Intenso" é a palavra.

Alguém aqui conhece um coração ferido: Drop The Bombs entrega a visceralidade citada: "Be careful not to choke....I'm not dead...Dont you fool me now, just drop the bombs over my head" Ui. Conforme o álbum avança, a atmosfera mais densa vai se esvaecendo, como se Barbara fizesse a transição entre a catarse e a reflexão, e as melodias seguem esse curso paralelemente, mantendo a coesão. A inclusão de O Tempo , de Fernando Catatau, com toda a pureza sentimental á la Roberto Carlos se encaixa perfeitamente nesse contexto.

Essa impressão de disco de coração partido é apenas parcialmente verdadeira. Acho até que é reducionista. É uma obra pungente, mas é sobre seguir em frente tanto quanto sofrer por alguma desilusão. É sobre viver, e entre as lascas afiadas das fricções humanas surge a beleza. Pelo menos é o que filtrei disso tudo, e é dessa forma que gosto da minha música pop: forte, não contemplativa. Barbara Eugenia é fina e rascante como a garoa fria de São Paulo , com um coração quente como o sol carioca. 8/10

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Life In Film - Sorry Video

Quarteto de Londres: Sorry é o primeiro - e único, por enquanto - single lançado. A página dos caras no Myspace só possui uma outra canção em streaming de áudio ( a boa Get Closer ). Se eles não caíram na armadilha do hype, talvez tenhamos um belo álbum a caminho: pra quem gosta do seu indie-pop ao estilo clássico: melancólico, curto e direto, com uma melodia matadora e referências bacanas. A investigar:

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Arcade Fire - Dissecando The Suburbs - O Video

E Spike Jonze (who else?) dirigiu o novo clipe do Arcade Fire. Depois da experiência interativa de We Used To Wait, The Suburbs é um clipe "normal". Ou quase. Sobre o quê exatamente o clipe está contando? Respostas podem ser encontradas nas letras de Win Butler...que manterei no idioma original para um efeito mais adequado:

Logo no começo, vemos a garotada num tradicional subúrbio americano. Mas há algo acontecendo. O bairro parece isolado por forças especiais. Aqui temos a noção nostálgica da vida de um Win adolescente:

" Kids wanna be so hard / But in my dreams we're still screamin' and runnin' through the yard"

Há também a visão de tempos conturbados ( o nosso tempo? o futuro que se aproxima? ):

" You always seemed so sure / that one day we'd be fighting a suburban war / your part of town against mine / I saw you standing in the opposite shore"

A noção de perda da inocência e da inexorável força do tempo é citada:

" And all of the walls that they built in the seventies finally fall / And all of the houses that they built in the seventies finally fall / Meant nothin' at all / It meant nothing"

Uma urgente sensação de pertencimento, de sentido para tudo surge como uma prece:

" So can you understand? / Why i want a daughter while i'm still young / I wanna hold her hand / And show her some beauty / Before this damage is done"

Por fim, um atordoado Win admite finalmente:

" Sometimes i can't believe it / i'm moving past the feeling "

Parece que a noção da passagem do tempo, da perda da inocência, dos tumultos emocionais da juventude e da visão de tempos conturbados - e a dificuldade de lidarmos com as constantes mudanças - permeiam a letra da música. E o vídeo é uma interpretação não literal desses tópicos. Belo trabalho do Jonze. E do Arcade Fire, óbvio.

"In my dreams we're still screaming"

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Beautiful AND Unplugged - Manics E Laura Marling

Quando Laura Beatrice nasceu, ele já era vocalista de uma banda galesa há quatro anos. No entanto, mesmo distantes em relação á idade, Laura Marling - nascida em 1990 - e James Dean Bradfield - vocalista e guitarrista do Manic Street Preachers - aparecem aqui fazendo o que fazem melhor: transformando suas incríveis vozes em canais de articulação emocional. As músicas são: Manics - Some Kind Of Nothingness, do álbum Postcards From A Young Man e Rambling Man, do álbum I Speak Because I Can, segundo da Laura:


Salem - King Night


A equação cena musical = bandas com estilo parecido + mesma localização geográfica morreu. Se o Salem, que estréia com King Night, é a ponta mais famosa da chamada Witch House, os seus colegas de rótulo estão espalhados pelo mundo. O rótulo citado é apenas uma nomeação pouco clara, já que o que define as bandas é a manipulação eletrônica e a aproximação com o gótico e o clima de fim dos tempos . Dessa forma, muita coisa estaria sob o guarda-chuva, desde Crystal Castles até o veterano Portishead.

Afunilando um pouco mais, o que o Salem faz é uma música recheada de interferências, repetições, vocais distorcidos, seja com um rapper ou uma vocalista, aliados a uma condução gélida de teclados. Pode ser apenas uma forma de expressão pós milênio, retrato de uma geração abalada por crises econômicas e mudanças rápidas e pouco assimiladas. Isso tudo deságua em um som criado obviamente dentro de quartos plugados em softwares de manipulação, com a mente nas noites caóticas ou, simplesmente, o "lado escuro".

Interessante perceber que o Trip-Hop já foi a música da tensão pré-milenar: envolvia batidas desaceleradas, influência do hip-hop, da cena eletrônica inglesa, e soava moderno e assustador. Só que os tempos eram outros, a cena estava concentrada em Bristol. Até que ganhasse o mundo, e por consequência virasse um sub-gênero "oficial", foram anos. Quando chegou ao Brasil, foi durante muito tempo o "toque moderno" da produção de inúmeros artistas medíocres.

Voltando á 2010: o Salem é cria da comunicação atual: esse álbum de estréia já era esperado ansiosamente por blogs, público e outras bandas que se alinharam nessa visão sem filtro do mundo. Seus primeiros EPs foram disseminando pelo globo o som dark e gélido do trio. Eles citam como influência desde o dubstep até o hip-hop moderno. King Night foi avaliado como disco "difícil" por muita gente. Talvez, dentro de uma dinâmica pop ou até mesmo de bandas indie, as músicas apresentem formas diferentes. Mas isso não faz do disco algo de difícil degustação, e também não faz com que seja um marco do nascimento de um novo gênero.

O que importa: a música. Terabytes de arquivos digitais povoam a mente desse povo e o DNA do Salem: Suicide, Atari Teenage Riot, Ministry, Joy Division, Front 242, Benga, Massive Attack, minimal techno, My Bloody Valentine, Burial, Depeche Mode, Gravediggaz...O maior mérito do trio é condensar todo esse caos em uma só fonte. A canção título cria camadas operando em frequências diferentes: as batidas não são uniformes, há vocais distorcidos e fantasmagóricos e a linha condutora é uma melodia gélida. Asia alimenta ainda mais essas camadas, com uma batida mais marcante e pesada. A atmosfera é estranha, mas hipnótica. Frost é a primeira canção com um vocal discernível. Muitos apontam o Salem como uma máquina de criar sombras e imagens desagradáveis, mas esse é um dos exemplos de que, em muitos momentos aqui, há beleza escondida. Uma versão desfocada, perturbadora, mas definitivamente bonita do pop eletrônico. Sick aposta num rap em super-slow, loops insistentes por toda a canção.

Esse quarteto inicial introduz o ouvinte ao mundo do Salem: até o final de King Night, ouvimos variações dessas fórmulas - diga-se, sem repetições: apenas as fórmulas são as mesmas - com efeito intoxicante. Não é a visão do futuro da música pop: soa apenas como 2010. Precisa mais? 9/10