quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Melhores discos de 2012 - Top 50 Gringos


Para alguns, o fato de a música pop em 2012 não trazer um caminho discernível pode parecer motivo de crítica. É como se perdesse a identidade, o zeitgeist, o momento. Na verdade, é um caminho sem volta, uma vez que a multiplicidade de canais faz com que uma geração inteira crie música sem compromisso com movimentos específicos. Ou, na pior das hipóteses, ao tentar emular algum tipo de passado, o resultado final pode soar torto, filtrado por cérebros bombardeados com MP3s piratas. O melhor mesmo é apreciar a diversidade e a disparidade de formas e estilos abaixo selecionados. A escolha foi feita por Eduardo Yukio Araujo e Leticia:

  1. Frank Ocean – channel Orange
  2. Fiona Apple - The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do
  3. Sharon Van Etten - Tramp
  4. Tame Impala – Lonerism   resenha
  5. Grimes – Visions
  6. Swans – The Seer
  7. Daphni – Jiaolong
  8. Ariel Pink’s Haunted Graffiti – Mature Themes  
  9. Julia Holter – Ekstasis    resenha +Soma
  10. Grizzly Bear – Shields
  11. Dirty Projectors – Swing Lo Magellan
  12. Kendric Lamar – good kid, m.A.A.d city
  13. Leonard Cohen - Old Ideas     resenha +Soma
  14. Godspeed You! Black Emperor – Allelujah! Don’t Bend! Ascend!
  15. Sleigh Bells -  Reign Of Terror    resenha +Soma
  16. Purity Ring – Shrines
  17. John Talabot – fin
  18. Animal Collective – Centipede Hz
  19. Burial – Kindred EP
  20. The xx – Coexist
  21. Dan Deacon - America
  22. Cloud Nothings – Attack On Memory
  23. Sigur Ros - Valtari 
  24. The Shins – Port of Morrow
  25. TNGHT – TNGHT EP
  26. First Aid Kit - The Lion's Roar
  27. Jack White - Blunderbuss
  28. Tim Hecker and Daniel Lopatin - Instrumental Tourist
  29. Nite Jewel - One Second of Love   resenha   entrevista
  30. Spiritualized – Sweet Heart Sweet Light
  31. Mac DeMarco - Mac DeMarco 2
  32. Mala - Mala In Cuba
  33. The Tallest Man on Earth - There's No Leaving Now
  34. How To Dress Well – Total Loss
  35. Death Grips – Money Store
  36. Flying Lotus – Until The Quiet Comes
  37. Cat Power - Sun
  38. The Cribs - In The Belly Of The Brazen Bull
  39. Angel Olsen - Half Way Home
  40. De La Soul - Plug 1 & Plug 2 Present...First Serve
  41. La Sera - Sees The Lihjt
  42. Plan B - Ill Manors
  43. Father John Misty - Fear Fun
  44. Of Monster And Men - My Head Is An Animal
  45. Maria Minerva - Will Happiness Find Me?
  46. Beach House – Bloom
  47. King Tuff - King Tuff
  48. Clams Casino - Instrumental Mixtape 2
  49. Four Tet - Pink
  50. Scuba - Personality

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Tulipa Ruiz - Tudo Tanto


Disco #3 na nossa lista de melhores de 2012:

 Por Leticia 

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sábado, 8 de dezembro de 2012

Melhores de 2012 - Top 45 discos brasileiros



Um resumo do ano...e a eleição dos 45 melhores discos do Brasil em 2012. Leia mais

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Entrevista: Nite Jewel


Ramona Gonzales, aka Nite Jewel lançou agora em 2012 seu segundo álbum, One Second of Love. Sua estreia em 2009 com Good Evening chamou a atenção do público para a artista californiana associada ao experimentalismo local de Ariel Pink e Julia Holter. Formada em Filosofia, Ramona já realizou exibições para instalações audiovisuais. Batemos um papo com ela sobre o novo disco, meios de produção e geração Napster:  Leia mais:


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Tame Impala - Lonerism

A nossa lista de melhores de 2012 logo será publicada. Começamos aqui a apresentar resenhas de discos que estarão na lista: Leia mais

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Perfil: Mike Skinner



Matéria originalmente escrita para o Garage Project e publicada em 2011, revisada agora:

Mike Skinner é um produtor, rapper e artista multimídia inglês. Seu projeto The Streets rendeu cinco álbuns e uma mixtape desde 2002 até agora. Mas Skinner não é apenas um cara fazendo música: desde que estreou em 2002, se tornou uma espécie de artista com o conceito de faça você mesmo no sangue, controlando e realizando estratégias de carreira. Além disso, produziu todos os discos sozinho. Original Pirate Material, seu debut, mostrava novos caminhos para o garage/hip hop britânicos, incluindo principalmente as letras de Skinner contextualizando toda a cultura de clubes noturnos e a relação dos jovens no início daquela década.
O lance é que o disco Computer And Blues, lançado em 2011 foi o último de sua carreira. The Streets chega ao fim. Mas é emblemático de como um sujeito talentoso usa novas ferramentas de forma criativa: durante o processo de composição, Mike ia postando em sua conta no twitter alguns versos, dúvidas ou links para seu canal no Youtube. Para os fãs, foi como participar ativamente desse processo não apenas como observador, mas sendo capaz de dialogar com o artista. Os vídeos postados na web incluíam pequenos filmes, pedaços de músicas, e até mesmo uma resposta a um elogio de um jornalista. Mike escreveu, produziu, mixou, foi engenheiro de som e masterizou sozinho o disco.
O próximo passo para Skinner é um filme, que ele está escrevendo. Numa entrevista para a BBC, questionado se o filme era só um projeto ou realmente aconteceria, Mike argumentou que sua carreira musical foi toda realizada de forma independente, somente suas ideias colocadas em prática por ele mesmo. “Talvez  demore dois anos, e a gente filme enquanto a roteiro vai sendo escrito, reescreva e faça vários takes, porque é assim que eu sempre criei música.”  Outra fonte de criação futura é seu canal de vídeos do Youtube, embora não esteja claro o que poderá pintar por lá. Agora em 2012, saiu o primeiro álbum do The D.O.T., banda de Mike com Rob Harvey, ex The Music. Além disso, o livro de memórias "The Story of The Streets" foi lançado e causou ótima impressão pela forma com que o autor conseguiu fazer a transposição de sua verve mostrada em versos para a literatura formal. 
Uma frase bastante importante do Mike Skinner, sobre o jeito faça você mesmo: ” Se eu fosse utilizar um estúdio profissional para gravar esse álbum (Computer And Blues), custaria milhões, porque eu estava literalmente no estúdio todos os dias, por anos”. Importante: o cara realmente montou um estúdio próprio, com mesa de mixagem e tudo o mais. O que começou, em 2002, com um disco produzido apenas com um computador (um Mac equipado com o software Logic), o levou aos poucos para a necessidade de outros equipamentos: ele explica que a diferença entre produzir em casa com poucos recursos e possuir um estúdio é que a produção caseira é mais trabalhosa. Agora, Mike começa o processo de criação utilizando um Mac com o Ableton Live. Também utiliza o Wavelab e a mesa de mixagem SSL Duality.
A figura do produtor: “ O produtor é aquele cara que administra criativamente o processo. Mas eu venho do mundo da dance e do hip-hop, onde o produtor é também o cara que escreve as músicas… então o produtor é meio que o faz-tudo.”
Abaixo, o vídeo com a entrevista do Mike sobre técnicas de produção (em inglês): 

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Holger - Ilhabela


Depois de estabelecerem uma espécie de pegada festeira e tropical dentro do anglófilo indie rock brasileiro, o quinteto paulistano Holger chega ao segundo álbum ainda mais inspirado: Ilhabela é uma coleção de canções recheadas de sentimento. Não o tipo de sentimento de tristeza por não viver em uma cinzenta, fria e sombria Londres como um deprimido recalcado, mas um sentimento de orgulho por poder desfrutar de turnês pelo Brasil (e também no exterior) e aglutinar tantas referências em seu som sem desmanchá-lo em pedaços inaudíveis. É um retrato fiel de uma banda "despojada", mas não a ponto de negligenciar detalhes técnicos das canções ou de recusar a influência de sons latinos, africanos, puramente brasileiros ou da eletrônica gringa. 

Entre Tonificando e sua batucada e as guitarras quebradas - numa vibe Luiz Caldas via Tom Verlaine - espalhadas pelas doze faixas, Ilhabela amplifica a sensação de uma banda operando em alto nível: é uma viagem de verão movida a brisas diversas encapsulada em forma de música. Uma das coisas interessantes sobre o Holger é a aparente facilidade que encontram para criar cenários sonicamente expansivos, encontrando pequenos espaços que surpereendem o ouvinte: Another One traz bela melodia reflexiva, mas a referência a Roll Another Number (For The Road), do álbum Tonight's the Night, de Neil Young, não poderia ser mais tortuosa. Enquanto o compositor canadense tenta espairecer seus pensamentos pesados ao pegar estrada acendendo um baseado, os caras do Holger estão mais relaxados, sem deixar de refletir. 

Infinita Tamoios (grande nome, afinal a inspiração do álbum é uma viagem para o litoral paulista, acessado pela estrada citada) é uma grande orgia carnavalesca: "Praticar o amor/o amor sensual/polinizar a flor/do amor tropical". A música conta com a participação de Liliana Saumet, dos colombianos do Bomba Estéreo. Me Leva Pra Nadar traz o nível exato da zoação e da beleza de uma curtição de verão em versos como: "Deixa tudo boca livre/no buraco da glória/se o calor te deixa foda/então me leva pra nadar." Indeed. Importante notar que se a guitarrada paraense, a cumbia, o axé e sutis toques eletrônicos surgem aqui e acolá juntamente com o DNA roqueiro do início de carreira, não há diluição preguiçosa ou mesmo a pretensão de ser o perfeito crossover do pop global; quem já presenciou as apresentações do grupo percebe que certo ar anárquico e juvenil permeia o ambiente. Essa leveza contribui para a fluidez de Ilhabela.

O segundo disco do Holger é a prova de que a música "indie" brasileira não precisa andar em círculos quando temos um arsenal de música boa, do mundo inteiro, nos rodeando. Esses caras ouvem essa música com curiosidade empolgante, e transformam isso em uma bonita transa de vibrações positivas. A trilha sonora definitiva do verão, e esse é provavelmente o elogio mais adequado. 8,5/10    

Faça o download aqui.            
  

Baixe a nova mixtape do Flow MC


O melhor MC do Ipiranga, ZS da capital paulista está de volta: a mixtape SensaFLOWnal conta com participações de Shaw, Emicida, Rashid entre outros, e beats de André Laudz, DJ Caíque e mais um grande time de beatmakers. KL Jay marca presença com scratches na música Muleque Problema. Acesse o link para baixar o disco e ser feliz: aqui ou aqui.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A volta do Foals: assista ao vídeo de "Inhaler"


A banda inglesa Foals se prepara para lançar o sucessor de Total Life Forever (2010). O terceiro álbum do pessoal de Oxford se chamará Holy Fire e sairá em fevereiro de 2013. Inhaler, o primeiro single, ganhou um belo vídeo que você assiste abaixo. Diferentemente das canções mais low profile de Total Life Forever, a música nova possui um refrão grandioso. Parece uma dinâmica entre a fluidez de Antidotes (disco de estreia, de 2008) e as intrincadas tramas do disco anterior, sem abandonar a fórmula funk branco/math rock/pop do quinteto. 

Curta uma mixtape de verão


O verão não chegou oficialmente, mas e daí? A sensação já é de fim de ano e o calor já ameaça derreter, então resolvemos armar um mix singelo mas lindíssimo para vossa apreciação. Só clicar...



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Ouça um mix especial feito pelo The D.O.T.


The D.O.T. é o novo grupo de Mike Skinner, após o fim do The Streets. O primeiro álbum, And That, saiu na Inglaterra no dia 22 de outubro. Pra quem acompanha o trabalho do cara, não é novidade: desde o ano passado Skinner vem postando vídeos no Youtube que não são apenas clipes, mas ilustram o processo criativo da banda - da qual ainda faz parte Rob Harvey, vocalista do grupo de rock The Music. Além do D.O.T., o rapper e produtor inglês está escrevendo e produzindo um filme, sem data definida para estrear. Enquanto esperamos por uma passagem dessa galera por terras brasileiras, ouça um mix especial que eles fizeram para o projeto Red Bull Studio, que acompanha artistas e produtores durante o período em que estão criando e gravando, mostrando ao público informações sobre equipamentos, criação, além de mixes e DJ sets especiais:



Tracklist:

XXX - Danny Brown (Fool's Gold)
Beat It  - Michael Jackson (Epic)
U Don't Know - Jay Z (Roc-A-Fella)
10 Crack Commandments - Notorious BIG (Bad Boy)
She's Always A Woman - Billy Joel (Columbia)
Ain't Nobody (Breakage Remix) - Claire Maguire (Polydor)
Getaway - The Music (EMI)
Turn The Page  - The Streets (679)
Triumph - WuTang Clan (RCA)
Yesterday - The Beatles (EMI)
Peace Frog - The Doors (Elektra)
Bittersweet Symphony - the Verve (Virgin)

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Uma viagem sensorial no clipe novo de Don L (NSFW)


O Don L é um preferido da casa, e pra nossa sorte o rapper cearense tem trampado bastante ultimamente: com dois EPs no forno (Caro Vapor e Vida Premium Beta), podemos esperar por mais pedradas como Pra Mandar o Mundo Se Fuder e Cafetina Seu Mundo. A música Sangue é Champanhe conta com a participação de Flora Matos e ganhou um videoclipe bonzaço, dirigido pela fotógrafa estadunidense Autumn Sonnichsen e por Erica Gonsales: uma verdadeira viagem sensorial com lindas garotas em cenários incríveis. Parece simples, mas a grande sacada é que a combinação com o som quente de Don L é quase simbiótica: 


Sangue é Champanhe_Don L. feat. Flora Matos from LuckyBastardsInc on Vimeo.

Mais sons do Don L no Soundcloud

Fotos da Autumn - que acabaram por desaguar na feitura deste vídeo - e o próprio vídeo podem ser vistas na exposição individual "Paraíso na Boca", na galeria AVA, em São Paulo. Até o dia  10 de novembro.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Lívia Cruz: Transformando poemas, espalhando amor e combate


Lívia Cruz, cantora e MC (São Paulo via DF via Rio via Recife) já trabalhou com nomes importantes como Kl Jay e Costa a Costa, além de ter lançado uma elogiada Promo. Em 2012,  Lívia tem trabalhado em seu primeiro álbum (Muito Mais Amor), e já liberou o clipe de Não Foi em Vão, que vem gerando boa repercussão. Uma criação livre sobre o poema Legítima Defesa, de Elizandra Souza, a ótima canção possui produção de DJ Caíque. Demonstrando grande habilidade para tocar em questões agressivas por meio de nuances na voz e no flow, Lívia evita o simples lamento, apostando em uma ação assertiva de justiça na questão da violência contra as mulheres. Há beleza em Não foi em Vão, do tipo que surge mesmo quando o contexto é pesado e triste. Conversamos com ela sobre a canção, o clipe e o papel da imprensa no rap:

* Como surgiu a ideia de transformar o poema da Elizandra em canção?

Assim que eu li o poema pela primeira vez me comoveu muito, até eu escrever a musica se passaram meses, mas o poema me marcou demais e em uma noite de inspiração escrevi “Não foi em Vão”.

* A música adota um tom melancólico no início mas ganha contorno mais combativo no fim. Essa postura de indicar uma realidade sem o clichê da vitimização foi uma escolha consciente?

Otima pergunta! Foi totalmente consciente, tive bastante preocupação também que o conteúdo não ficasse “didático”, pois acho que esse é um dos fatores que afastam as pessoas de encarar essa triste realidade. Sempre que esse assunto é abordado causa vergonha e constrangimento, tanto nos que já viveram uma situação dessa natureza, quanto naqueles que vêem de fora. Minha intenção principal era de que as pessoas se identificassem de qualquer classe, cor ou gênero, mostrar que somos capazes de tomar as rédeas das nossas próprias vidas, não importa o tempo que demore, não importa o quanto nos submetemos a situações humilhantes, sempre é tempo de se transformar para o bem, por fim alfinetar a sociedade, no sentido de mandar uma mensagem radical: Queremos justiça!!

* O videoclipe mostra bem essa transição, da tristeza e decepção ao estado de reação e recuperação da autoestima através de imagens em que você demonstra domínio da linguagem visual. O quanto vc se envolve na produção dos clipes?

No caso de “Não Foi em Vão” o clipe veio pra complementar a música, sem aquelas imagens acredito que a mensagem não teria sido tão bem passada, Isso é mérito da diretora Alice Riff e do seu irmão Fabio Riff que criaram o clima perfeito, levaram uma equipe excelente pra realizar o trabalho. Eu criei o conceito junto com a Alice uma semana antes da filmagem, eu nem tinha gravado a faixa ainda, mas ela é uma pessoa tão apaixonada e focada que eu gravei na mesma semana pra que a gente pudesse gravar o vídeo. Acho que a maioria dos artistas quando compõe uma musica nova já imagina imagens, um clima e até mesmo um roteiro de clipe. “Não Foi em Vão” é o meu segundo vídeo oficial, antes teve “Vem pra perto de mim” do Diretor Rabu Gonzales, e pretendo lançar mais um ainda esse ano, eu gosto de todo esse processo de criação, de produção e espero estar cada vez mais envolvida na produção em todos os aspectos.

* Me parece que a grande mídia descobriu a produção do rap apenas mais recentemente; parte dessa "surpresa" é a presença de mulheres compondo, o que levou a matérias equivocadas, seja na aglutinação simplista de artistas diferentes ou na argumentação de que garotas criam música menos combativa. Concorda com isso? Se sim, como voce vê essa situação?

Eu concordo em parte, acho que a grande mídia sempre se atraiu pelo RAP, mas acho que o RAP só quis lidar com isso mais recentemente, exatamente pelo caráter combativo que o RAP tem (e sempre terá). Antes tínhamos uma postura mais retraída, essas matéria equivocadas são uma das razões da desconfiança do RAP com relação as mídias de massa. Acho que o objetivo puro e simples desses comunicadores é enfraquecer o RAP, torná-lo algo comum e sem valor. Não acho que o caminho seja dizer não a mídia, mas sim sempre lembrar que quem não se posiciona é posicionado.


Elizandra Souza é poeta e jornalista. Atuante no hip-hop, nos direitos da população negra e das mulheres, desde 2004 é poeta da Cooperifa (Cooperativa dos Artistas da Periferia). Editora da Agenda Cultural da Periferia, Elizandra lançará seu livro Águas da Cabaça no próximo dia 26 de outubro, com direito a pocket-show da Lívia Cruz. Mais detalhes abaixo:

Lançamento do livro de poemas de Elizandra Souza
Dia: 26 de outubro
Horário: 19h às 22h
Local: Espaço Periferia no Centro - Rua General Jardim, 660 - Vila Buarque
Quanto $: só colar





sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Thiago Pethit - Estrela Decadente


Dois momentos importantes que antecederam o lançamento de Estrela Decadente, segundo disco do compositor e cantor Thiago Pethit, ajudam a explicar o molde e o resultado obtidos com o recente trabalho: Thiago realizou uma apresentação interpetando Lou Reed para um projeto do Sesc São Paulo em janeiro de 2011: o desafio não era pequeno: com uma obra não apenas "intocável", Reed é dono de repertório amplo e diverso, além de possuir aspereza que, a princípio, não poderia se sustentar tão facilmente. Ok, era apenas uma apresentação. Mas a maneira como Pethit escolheu o repertório e demonstrou postura forte parecia indicar que o artista passava por uma condição de exploração de seus limites como frontman, algo que se refletiria também em suas composições. O segundo momento foi outro show, no início deste ano, em que músicas de Estrela Decadente estavam sendo ajustadas e testadas. Mais uma vez, a comparação com o cantor das primeiras apresentações de Berlim,Texas (seu primeiro disco) se tornava inevitável: muito mais confiante no palco, apresentando composições instrumentalmente mais incisivas e de imposição vocal mais à feição de sua origem teatral. Como essa evolução iria chegar ao disco pronto?

A boa notícia é que Estrela Decadente captura a energia dos shows recentes e confirma as composições mais expansivas. Entre as influências que já se mostravam no trabalho anterior - mas aqui amplificadas - estão o glam rock, o folk, o pop e o vaudevilesco. A primeira amostra desse Pethit de consciência pop bem firme aparece logo na introdução com Pas de Deux: em uma levada ao piano e backing singers evocando o cabaré, há um interlúdio disco, alusão aos versos que brincam com a aproximação entre duas pessoas. A sequência com Moon, um espécie de faixa perdida no tempo do pop, entre a escuridão oitentista e a decadência setentista, evoca uma trinca de Bowie, Reed e Iggy Pop. Tal alusão não fere a qualidade e a sensação de frescor que a música traz. Dandy Darling é um monstrinho glam, de refrão obviamente explosivo: "Amigo/escute o que eu digo/só venha comigo/se quer se perder por aí." 

A porção mais intimista do compositor se apresenta com Perto do Fim, um dueto com Mallu Magalhães. De tom melancólico e levada simples e melódica, serve como uma desacelerada após três músicas mais "espinhosas", e remete muito mais ao primeiro álbum. So Long, New Love, conhecida por ter sido trilha de uma campanha publicitária, surge como uma canção muito mais desenvolvida, de tempo desacelerado, apagando a impressão de indie-pop mais ordinário da versão anterior. Estrela Decadente dá nome ao disco e segue como um rock vigoroso com pé na sarjeta; aqui já concluímos que Pethit não se acomodou com os elogios recebidos em sua estreia e decidiu seguir seus instintos criativos. É claramente alguém mais despido e confiante, com todas as implicações de uma opção como essa. A leveza de Haunted Love, quase uma canção de ninar repleta de ooooohs - aaaaaahs dos vocais de apoio carrega uma aura verdadeiramente lúdica.

Mas o compositor que se aventurou por todo o álbum por emoções mais cruas, situações mais explícitas e músicas mais complexas retoma e encerra o processo com Devil in Me e Surabaya Johnny: a primeira, de título bastante significativo, poderia apenas reproduzir um clichê, mas soa realmente como uma autoanálise do autor diante de demônios internos - vide "Eu vendi minha alma pra saber que o diabo sou eu", cantada ao fim da música. Cida Moreira, muito admirada por Pethit participa da vaudevilesca Surabaya Johnny (versão do original de Bertolt Brecht e Kurt Weill), o momento mais abertamente teatral do trabalho. 

Estrela Decadente pode surpreender quem não pôde observar os momentos citados no primeiro parágrafo, mas não deixa dúvida para quem ouve: é uma evolução das ideias de Berlim, Texas e também uma expansão da entrega verificada ali. Entre uma atmosfera que evoca momentos de criação em meio a crises de decadência geracional, Pethit talvez tenha retratado, de forma indireta, as mazelas de São Paulo em 2012, um ambiente repressivo em que seus moradores tentam se desgarrar através de atividades artísticas como a música. Um disco de boas canções que nos leva a relacionar suas referências, o momento atual de seu criador e de suas inspirações é um salto relevante. 8/10   

Baixe o disco : http://www.thiagopethit.com/     

             

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O rap redefine a "aristocracia do trabalho"




O Brasil vive uma transformação inegável : a autoestima das periferias e favelas melhorou com os programas de acesso a educação e assistência social, somados aos reais derramados e ao alcance de cidadãos que nunca haviam passado da porta giratória dos bancos a não ser para pagar conta de patrões. Mas os anos de amadurecimento desse processo trouxeram antigas e desagradáveis percepções, e os excluídos passaram a frequentar picos de classe média e adquirir pequenos símbolos de ascensão como smartphones e carros. Bastou para toda uma classe - e não apenas econômica, mas socialmente participativa - passar a bradar antigos preconceitos, de forma agressiva e sistemática. A cidade de São Paulo, com seu higienismo e suas imensas periferias é um grande exemplo dessa tensão que se acumula diariamente. Proibições, abusos policiais, violência e arbitrariedade caminham mecanicamente com uma visão de progresso bizarra, constituída sob preceitos capitalistas que findam inevitavelmente em benefícios de classe e desrespeito à ideia de comunidade. 

Dentro desse ambiente potencialmente desastroso e já saturado, a manifestação artística mais acessível e urgente acena com o engajamento natural do rap. Se a diversidade - inclusive de gênero - do estilo começa a tomar forma, não há negação em relação ao respeito e influência do Racionais: de Emicida a Lurdez da Luz, de Don L a Síntese ou mesmo Flow MC e Rincón Sapiência, Ogi e Projota, o pique e a localização geográfica podem ser diferentes mas há essência de combate e reação em todos eles. O relevante é que nomes como esses descobriram maneiras esteticamente diferentes de construir mensagem semelhante: respirar o ar da cidade e expor suas mazelas, de dentro pra fora. Algo que talvez o samba, o funk e outros subgêneros regionais também reflitam, mas de forma menos centrada. Se um boy fica indignado quando algum "encardido" aparece com a patyzinha, essa também é a reação dos interlocutores da mídia quando são obrigados a falar de alguma manifestação musical periférica que se posicione politicamente. É tão claramente incômodo que não há esforço algum para ao menos compreender a linguagem e o propósito da linguagem pop. Uma ressalva deve ser feita para os poucos que de fato exercem sua função, e ao mesmo tempo, de apontar para nomes dentro do hip-hop que, por ignorância ou deslumbre, alavancam material produzido por quem não respeita de verdade o trabalho produzido.


O historiador inglês Eric Hobsbawn definiu, em seu livro Os Trabalhadores, alguns aspectos do operariado britânico na era do fortalecimento do capitalismo. Havia uma "aristocracia do trabalho"; termo usado para descrever "certa camada superior distinta da classe trabalhadora, mais bem paga, mais bem tratada e geralmente considerada como 'mais respeitável' e politicamente mais moderada do que a massa do proletariado." Na década de 1890, um extrato de classe surgiu, denominada como "classe média inferior". Nas palavras de Hobsbawn " marceneiros, assistentes de marceneiros, descendo até os carvoeiros." Se os neo-mpbistas formam um tipo de "aristocracia do trabalho" no meio independente, o rap pode ter subido para algo como "classe média inferior" na visão dos cadernos culturais. Esses são valores do século dezenove, na Inglaterra industrial. O Brasil que cresce em meio a opressões capitalistas e moralismos de milico em contraste com a ascensão moral de parte dos pobres vive um dualismo perigoso, um passo pra cá e estamos sob cacetetes e bombas. Mas quem escreve a trilha sonora desse país nos anos 2010 não é aristocrata. 

segunda-feira, 16 de julho de 2012

A lan house, o guri e o rap


Escrevo de uma lan house da região central de São Paulo. Entre outros guris ruidosos e excitados por games,  um magrelo sentado ao meu lado só quer saber de cantar. Ou melhor, rimar: o som dos fones não vaza, mas reconheço clássicos de Sabotage, Racionais, RZO e DMN. Mas ele se entusiasma também com Emicida e Projota. Ele passa meia hora no flow, depois larga o fone felizão. Se junta aos camaradinhas no arcade, diz que volta amanhã pra mais uma rodada de sons.

Antes de sair, questiono o moleque: "E aí, não escreve som próprio não?". Ele responde que "rabisca", e treina o flow com seus ídolos. Tá juntando grana pra investir em um PC "que não seja podre como o meu" e uma MPC, mas tá osso. O Mateus, aka Grélo, nome e alcunha de nosso personagem tem 15 anos. Aprendeu a curtir rap com os amigos e respeita os "monstrão clássico", mas é grande fã do Emicida. Pergunto sobre outros estilos musicais, mas ele diz que "nem ouve essas coisas".(rock,sertanejo). De vez em quando rola um funk, samba é só o pai que ouve. Grélo se despede porque tá atrasado. Valeu.

Me pergunto quantas publicações no Brasil se preocupam em mapear essas diversas manifestações puramente juvenis de gosto, apreciação e desenvolvimento de ideias. Mais além, como o poder público ignora demandas culturais de jovens como esses. É claro que cito aqui um caso tão exclusivamente urbano, paulistano, e portanto tão pequeno em relação às inúmeras combinações semelhantes pelo país. Porém o rap é um das formas mais relevantes e eficazes de espelhamento de realidades que, de forma ou outra, são reconhecidamente importantes. Não é auto-ajuda, não é apologia, nem tampouco apenas diversão. Para garotos como Mateus, é uma forma de se enxergar, não se sentir sozinho, refletir sobre sua realidade e encaixar algumas emoções contraditórias. Impulsionar tudo isso em forma de batidas e rimas. É enriquecer a alma e a mente. E incendiar uma revolução possível. 

Enquanto isso, o gênero vai se movimentando de forma esguia, na expectativa de impor naturalmente um apelo agregador. Mas essa etapa mais diversificada também coloca muitos obstáculos: para enfrentar despreparo da mídia, bajulações e aproximações oportunistas será preciso inteligência. E a resposta não é linear, é apenas um conjunto de opções que vão se apresentando, caminhos a percorrer. Erros serão cometidos, mas a essência combativa do rap não pode ser sacrificada. E o combate se faz não apenas com palavras de ordem, mas com criação e questionamento.Enquanto blogueiros-celebridades-movimento-cansei continuarem a cometer erros factuais grotescos e análises que desrespeitam a inteligência de seus leitores quando falam sobre rap, garotos como o da lan house do Cambuci continuarão a desprezá-los. Mas eles sabem que a tag mágica "rap nacional" gera cliques. Ou de quem curte, ou de quem prefere nem ouvir.  

Quem produz a arte precisa saber quem são seus detratores e puxa-sacos ocasionais. E seguir criando, usando como combustível esse racismo inegável, essa insistente continuação de relação de classe "nós aqui, vocês lá". A Lurdez da Luz, que já ilustrou um texto de repercussão por aqui, com seu som novo mais eletrônico marca mais um ponto positivo: é combativa, evoluiu ideias e encorpou elementos já presentes: o que ela diz é a real: temos que viver, e não apenas sobreviver. 
   

segunda-feira, 4 de junho de 2012

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Assista ao novo clipe de Jay-Z e Kanye West dirigido por Romain-Gavras


A música é "No Church In The Wild", do disco Watch The Throne (2011) rendendo mais um clipe. Dirigido por Romain-Gavras (MIA, Justice), tenta capturar a efervescência da crise capitalista mundial com  cenas do abuso policial contra manifestantes. Assista:

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Neurociência, manipulação e a música intangível


Muitos amigos e conhecidos que estiveram no festival Sónar descreveram com entusiasmo apresentações como a dos escoceses do Mogwai. Baseado em uma estrutura de camadas de guitarras e barulho muito alto, o som da banda deságua quase sempre em catarses melódicas. Artistas muito diferentes estiveram presentes no festival, quase sempre gerando reações entusiásticas na maneira em que manipulavam seu set/show e capturavam a atenção da plateia. Manipulação e catarse. Palavras que remetem a uma relação da neurociência com a música muitas vezes estudada. Quero recordar aqui um estudo canadense publicado no início de 2011 e que gerou um artigo denominado "The Neuroscience Of Music", de Jonah Lehrer na revista Wired.

É sabido que a música (aquela que nos agrada) provoca diversas reações em nosso corpo: pupilas se dilatam, a pulsação e a pressão sanguínea aumentam, sangue é bombeado para as nossas pernas. Essas reações biológicas ocorrem quando aquele som maneiraço atinge nosso cérebro: nesse momento, há uma liberação de dopamina em duas áreas. Segundo Lehrer, essas áreas são comumente associadas a estimulações de prazer, não importando se "estamos fazendo sexo, cheirando cocaína ou ouvindo Kanye". O mecanismo é o mesmo.

A pesquisa canadense condensou, de um universo original de duzentas e dezessete pessoas que  declararam sentir "arrepios" ao ouvir suas músicas prediletas, apenas dez indivíduos. Esses indivíduos puderam levar suas próprias playlists, enquanto seus cérebros eram examinados por modernos aparelhos de metodologia complementares. O resultado confirmou a ativação de substâncias no cérebro, mas uma variante da pesquisa trouxe a verdadeira surpresa; uma análise dos segundos que precedem a reação emocional demonstrou uma maior atividade dessas áreas, o que pode ser chamada de "fase de expectativa", uma forma que o nosso organismo encontra para nos prevenir do clímax que sabidamente apreciamos. Mas por que, segundos antes da "catarse", nosso cérebro libera ainda maior quantidade de dopamina? O estudo indica uma reação primitiva, uma expectativa por uma resolução ou satisfação, como a velha relação entre o sinal sonoro que precede a saciedade da fome de um cão, por exemplo. O fato é que o ser humano realiza sua condição de prazer na música não apenas em sua parte favorita, mas também nas que a antecedem (embora os canais de distribuição não sejam os mesmos, mas aqui não entraremos em detalhes técnicos).

Importante ressaltar que os pesquisados ouviram músicas instrumentais, de gêneros "virtualmente variados, de techno a tango". Mas não houve maior especificação: é claro que os ouvintes conheciam as canções, mas elas remetiam à passagens importantes de suas vidas pessoais? Formas de música menos circulares como o free-jazz foram contempladas? Qual a faixa etária dos indivíduos? Teriam idade suficiente para desenvolver um senso nostálgico em relação às músicas? O artigo de Lehrer não responde, mas a pesquisa está disponível aqui - ao preço de 32 dólares. Como eu não paguei, não posso responder se os pesquisadores incluíram todos os detalhes. Acredito que sim. Uma das explicações para a reação de nosso cérebro seria uma natural tendência de tentar "solucionar" uma sequência de notas, ansiando pelo retorno do acorde familiar.

Voltando ao primeiro parágrafo, fica evidente que músicos também utilizam essa manipulação para criar reações em seus ouvintes. Talvez de forma empírica, são sabedores de como dosar uma sequência de notas que conduzirão a algum tipo de conclusão, levando o ouvinte em uma jornada que pode ser prazerosa. Do Mogwai ao Squarepusher, em diversos níveis, bandas trabalham em busca de criar estímulos. A recompensa pode vir através de um intrincado jogo de acordes e harmonias ou em um vulgar solo do U2. 

A neurociência ajuda a destrinchar importantes reações de nosso corpo - portanto, resistentes a diferenças culturais - quando estamos expostos à música. Ainda assim, somente a combinação de pesquisas complementares poderia aproximar as reações emocionais humanas de algum veredito científico. Evidente que uma pesquisa como essa traz dados tangíveis de valia importante para os acadêmicos, e no mínimo curiosos para os leigos.Assim como as reações do entrelaçamento de substâncias químicas inseridas em um contexto mais amplo, tão comuns em pesquisas da metade do século passado.   Mas como mensurar uma experiência realizada fora de um ambiente hermético, com variáveis indefinidas (companhia, ambiente, estado de humor, performance - nos casos de shows)? 

Uma leitura rápida de posts no Facebook traz relatos emocionados, nesses últimos dias, com músicas de fontes díspares: o show "faringítico"da Gal Costa em São Paulo, Criolo levando dez mil em Brasília, os experimentalistas Roger Turner e Urs Leimgruber entortando ouvidos ou o indie-rock do Franz Ferdinand em um parque abarrotado. Sem esquecer de todos aqueles que sozinhos em seus tocadores digitais e fones de ouvido vão tecendo seu caminho, rumo ao trabalho ou qualquer outro evento. Como compreender, para além das dopaminas da vida, o choro que aquela música, naquele exato momento nos traz? É essa intangibilidade da música, sob a perspectiva de quem ouve, que fascina e nos mantém não apenas felizes, mas aliviados pela existência de novos e velhos criadores.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Rodrigo Campos - Bahia Fantástica


A representação artística de um lugar imaginado ou uma experiência vivida traz inúmeras combinações, das mais óbvias às mais inusitadas.O compositor paulista Rodrigo Campos traz para seu segundo disco uma dessas combinações; no caso, de pouca obviedade e criação livre, executada com igual sintonia pelo time de músicos que o acompanham. Se o disco de estreia (São Mateus não é um lugar assim tão longe, 2009) era um compêndio de pequenos contos da metrópole desenhados pela singular leitura do samba, Bahia Fantástica abre uma janela para uma verdadeira imersão na diáspora africana, mais profunda e sinuosa. A assinatura de Rodrigo ainda está presente: fraseados curtos rabiscados, versos que aproximam o imagético do descritivo em rápidas passagens. Mas a riqueza e a densidade das doze canções do álbum surpreendem pela condensação de meticulosa execução e dinâmica ágil, de cores quentes. 

O time de músicos - Kiko Dinucci, Marcelo Cabral, M. Takara, Thiago França e Maurício Fleury - possui um entrosamento e instinto fundamentais; mais do que espalhar timbres e uma parede sonora poderosa rodeando as composições de Campos, ajudou a construir de forma orgânica a concepção fundamental do disco. A viagem de Rodrigo à Bahia resultou em um insight em que disparidades geográficas (há espaço para a citação de elementos paulistanos como Jardim Japão e trens da CPTM dentro das "baianidades" dos temas) não impedem a circularidade da narrativa, centrada menos em descrições e mais voltadas ao campo sensorial, da sensualidade e desejo, do espiritual e da lembrança insistente de um lugar distante. O desenho musical desse cenário é um constante diálogo entre a música africana e suas vertentes nas Américas: da sinfonia funk-soul e do jazz estadunidense ao caráter percussivo dos trópicos, dentro de canções de melodias bem definidas.

Cinco Doces despeja o clima de mistério e sensações do álbum, entre a quietude e o ataque instrumental da banda. É a marcação do compasso e da visão expansiva de Rodrigo para todo o trabalho, mas é também apenas um exemplo do que virá pela frente. Princesa do Mar traz a figura de Andreza, "maluca/ chegou na praia hoje/ pequena iemanjá"; quando a música foi apresentada no show de lançamento do álbum do Passo Torto (projeto de Rodrigo, Kiko Dinucci, Romulo Fróes e Marcelo Cabral) ainda despida de arranjos e percussão aqui apresentados, não possuía o calor emanado no disco. O que torna Bahia Fantástica tão relevante é a fluidez apresentada, em que cada acorde ou intervenção é feita de forma adequada, evitando que a técnica dos instrumentistas traga exageros recorrentes ou alguma repetição de clichês afrobeat . Dessa forma, há espaço para sutilezas perceptíveis apenas em repetidas audições; a delicadeza de Ribeirão, com participação de Criolo nos vocais e a guitarra costurante de Dinucci; a imersão narrativa de Jardim Japão, cantada por Juçara Marçal e o sopro de Thiago França duelando com a percussão de Takara; as camadas e tecidos sonoros de General Geral, em que os teclados de Fleury e arranjos de cordas de Marcelo Cabral formam uma espécie de névoa, em que Rodrigo navega com elegância.

Bahia Fantástica é um disco nascido de imagens e sensações, capturadas com rara inspiração e equilíbrio. Trabalhos meticulosos muitas vezes derrapam em execuções demasiadamente engessadas: o balanço final de um conceito recheado de referências como esse disco, no entanto, é a prova de que é possível realizar com leveza a tarefa de exercitar uma música que dialoga naturalmente com suas influências mais profundas. Um dos mais belos discos brasileiros de 2012 até agora. 8/10  
            

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Curumin - Arrocha


Curumin é um músico calejado: como baterista/percussionista já trabalhou com artistas diferentes como Céu e Arnaldo Antunes e esteve no palco com muitos outros como Criolo e Vanessa da Mata. Também é um compositor curioso e despojado, o que conta muitos pontos a seu favor: desde 2003, com seu primeiro álbum, "Achados e Perdidos", passando pelo elogiado "Japan Pop Show" (2008) até chegarmos a esse recém-lançado "Arrocha", Luciano Nakata  manteve seu próprio ritmo. Sem pressa para colocar novas canções em registro definitivo, Curumin cultivou um saudável frescor em cada um dos seus discos, tornando-os relevantes mesmo sendo lançados em períodos distantes e espaçados. "Arrocha" é o mais enxuto e direto trabalho do paulistano, um pop ritmado e equilibrado nas influências típicas como música jamaicana, hip-hop, rock e brasileirismos setentistas.

Gravado no esquema caseiro, o disco utiliza muitos elementos eletrônicos: para um baterista de formação, o risco de formar uma massa de batidas insistentes desequilibrando as harmonias é maior. Sabendo disso, Curumin não abriu mão de utilizar toda sorte de variações, sendo inventivo nos momentos em que as músicas pediam mais harmonia e quietude. Sobrou para as vinhetas o papel mais simplista, de conexão  despida em relação às canções, em geral de sólida formação melódica. "Afoxoque" traz eletricidade em uma pegada imediata de acento dancehall: um ponto de partida que alimenta a curiosidade do ouvinte, presenteado com uma virada de primeira para a música seguinte, "Selvage"; é o ponto em que a percussão orgânica dá passagem no mix para uma introdução eletrônica, reveladora da habilidade do autor. O dub "Treme Terra" traz mais uma boa novidade: Curumin parece cantar com mais desenvoltura, moldando versos e fortalecendo uma percepção de confiança. Até aqui temos um disco permeado de batidas bem marcadas, melodias claras e uma ligação que não permite silêncios entre uma música e outra. Uma saraivada de batuques que, mesmo empolgantes, poderiam deixar um certo cansaço se persistissem. A sequência com a suave composição original de Russo Passapusso, "Passarinho", é o momento de despressurização: a bela canção é levada com organicidade e é repleta de soluços, caminhos de efeito instantâneo, algo que Roberto Carlos assinaria circa fim dos sessenta, início dos setenta; mesmo assim, sem nenhum ranço de referencial exacerbado, possui um encantamento urgente, um clamor de novos ares românticos. 

"Paris Vila Matide", além das citações relativas à metrópole paulista, é uma balada acústica que faz uma reflexão humanista, de relações entre distâncias, pensamentos e a necessidade de aproximação comunicativa. Contrapontos pungentes em relação ao início frenético do disco, "Passarinho" e "Paris Vila Matilde" não surgem como estranhezas, mas extensões naturais do exercício pop - ainda que de forte apelo instrumental - das composições de abertura. "Vestido de Prata", com participação da Céu, é um convite ao baile: como uma noite junina no interior nordestino colidindo com ares jamaicanos, é um hit pronto que aquece a ambiência de "Arrocha". Uma temperatura que não mais cairá, seguida pelo reggae suado de "Doce",  o hip-hop de "Blim-Blim" e "Sapo Cururu" e os versos falados de "Acorda". Antes da despedida com "Bambora!", uma inserção dispensável, há mais uma canção ao estilo cantor-compositor: Curumin canta com inegável desenvoltura "Pra Nunca Mais", bonita em sua cadência de uma quase valsa.

"Arrocha" é um disco extremamente enxuto, de canções curtas, coesas, porém de recheio delineado. Equilibrando a natural vocação para o ritmo de beats e percussão marcada, há espaço constante para a fluência melódica e consciência voltada para a absorção natural das influências. Ao cantar "Vou andando só por andar/sonhando sem acordar...(sou) uma pluma/ no macio do ar/arrepio do vento a me levar", o compositor acaba, de forma consciente ou não, resumindo suas intenções e abordagem artística: inspiração e intuição caminhando junto com a conveniência do momento, que se faz correto por circunstância. "Arrocha" é o fruto mais bem-acabado de sua carreira até agora. 8/10