terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Malandragem: um texto sobre João Antônio, Ogi e as ruas


"Fui percebendo que só se pode fazer arte com pele, vísceras, arrebatando o interior. Percebi também que eu tinha um tema - a malandragem [...] o homem precisa ter alguma grandeza, tem de ter um momento de Homem pelo menos. Meu único medo é passar pelas coisas e não vê-las."
Foi assim que João Antônio, escritor e jornalista premiado, definiu a sua motivação para a feitura de contos e reportagens - e também contos-reportagens - durante mais de trinta anos. Dono de inegável talento para a prosa sinuosa, criativa e voraz, João retratou um universo de personagens que habitavam espaços importantes nos grandes centros urbanos (São Paulo e Rio de Janeiro, cidades onde viveu grande parte da vida), mas que normalmente eram apenas caricaturas para outros escritores e jornalistas. Tal retrato era fruto da experiência pessoal de João Antônio, de origem simples, mas principalmente pela vontade e a fome de vivenciar o cotidiano do povo, dos bares e dos puteiros, e das próprias ruas, misturadas e sem filtro. 

Há alguns meses, o primeiro disco de Rodrigo Ogi, o agora reconhecido em diversas listas de melhores (nosso disco do ano) Crônicas da Cidade Cinza chegou aos ouvidos do público. Demonstrando particular destreza para condensar em músicas enxutas e versos diretos um retrato vívido de pessoas que habitam a grande São Paulo - e não apenas seu centro expandido - Ogi estabeleceu um trabalho marcante para o rap nacional. O fluxo constante de ideias, a riqueza de detalhes e o humanismo que desfilam pelas faixas sem apelos emocionais traz um paralelo evidente com a literatura de João Antônio. Assim como a linhagem do rap de Brown a Sabotage, Nelson Cavaquinho, Noel Rosa, Lupicínio, Adoniran, repentistas nordestinos e toda a tradição da música brasileira cantada com o foco da realidade, Crônicas... é forte como um soco, cru e direto, sem concessões normalmente visualizadas em trabalhos de quem prefere imaginar apenas o que vê de dentro dos quartos e do ar condicionado dos home offices.  

Seria necessário mais do que alguns poucos parágrafos para fazer jus á bibliografia de João Antônio: ainda jovem estabeleceu um clássico já no primeiro livro: Malagueta, Perus e Bacanaço (1963). Ao trabalhar com jornalismo, nunca deixou de manter o olhar afiado, acrescentando elementos ao seu já vasto repertório; quando se aproximou de uma vida típica da "classe mérdea", casado, empregado e pai, deu uma guinada com destino ao aprofundamento de suas relações com o ofício da escrita: "...operário da palavra queimando olhos e criando corcunda sobre o papel e a máquina.", desafeto da cordialidade interesseira de editores, críticos e zé-ruelas em geral.

Fã declarado de João, Ogi relaciona Malagueta... e Guardador (1992) como livros favoritos, assim como os contos Meninão do Caixote e Paulinho Perna Torta. A criação imagética de Profissão Perigo, segunda faixa de Crônicas... não difere tanto de certas passagens de Paulinho Perna Torta. É certo que o motoboy da música de Ogi é um trabalhador honesto, enquanto Paulinho é a malandragem moldada no banditismo. Mas há semelhança na construção do motoqueiro que escapa das armadilhas do trânsito rasgando as vias paulistanas - " Na Vinte e Três de Maio o trânsito engarrafou/mas como sou um veterano sei pra onde vou/Caí numa ruazinha bem no metrô Paraíso/O meu bote foi ligeiro, certeiro e preciso."  e o jovem Paulinho e sua bicicleta, funcionário do prostíbulo que diz" Vou pegar a Northmann, subir, desembocar, direto na Barra Funda, ô puxada sentida! [...] Depois, ganho a avenida larga e, numa flechada, alcanço o estádio."  

E a linguagem das ruas, a sujeira dos inferninhos e dos botecos, junto de seus habitantes malandros e escolados é tema recorrente para João Antonio, que retrata esse cenário tanto na figura de um leão de chácara como no de um frequentador; é preciso ser da noite pra não pagar de otário. Ogi narra uma dessas noites agitadas em Eu me Perdi na Madrugada: "Pedi uma breja e um licor de cereja/Duas garotas me abordam e uma delas me beija/É o frenesi, eu ali tive tempo de ouvir/Que uma delas era Dani e outra Sueli". O epílogo traz o narrador percebendo que sua carteira havia sido levada durante o "tchaka na butchaka", mas finaliza com "Mas sempre fui ligeiro e ninguém me marreca/Guardei meu graúdo numa parte secreta."

João Antônio também guardava as suas para a imprensa da qual fez parte: na década de setenta, já diagnosticava (ainda que diante de uma realidade distinta da dos dias de hoje): 
"O que se está notando na grande imprensa é que ela não questiona mais, ela não interroga mais, ela não coloca em xeque as informações que lhe são trazidas. Então, o que é o repórter hoje? Um bom, hábil, esperto e solerte com paletó e gravata. Sempre com paletó e gravata. Hoje o repórter é um paletó e gravata. Parece um executivo. Bonitinho, muito eficiente, muito espertinho, né?, muito lindo em matéria de informação, de informática e comunicação."
João acreditava que a censura vigente na época mascarava uma preguiça, uma falta de força impulsiva e de simples esforço de pesquisa e reportagem, que gerava um declínio de qualidade nos textos e apatia geral de ideias. Estivesse vivo hoje, lamentaria o fato de que uma geração criada no acesso rápido e vasto da internet produza conteúdo mais raquítico quanto o de anos atrás. A influência da obra de João Antônio foi exemplificada aqui apenas como ilustração. Rodrigo Ogi, mais do que um leitor e fã, também se criou pela cidade pulsante, das ruas e de obras de outros autores, e diante desse caldeirão foi capaz de elaborar e produzir música viva e de qualidade.

O ano de 2011 trouxe outros discos altamente recomendáveis, mas também foi um ano de desacertos na escrita e na fala confusa de quem, ao contrário de João e Ogi, não deu rolês em busca das desventuras e da recompensa, mas preferiu ser comentarista de condomínio. E, de novo, esse comportamento produziu peças pobres de jornalismo cultural e seu reflexo mais próximo, a decrepitude da produção musical. E vice-versa. Foi um ano de Ogi, Criolo, Nuda e Test, mas também de ativistas pós-meméticos e Bandas Mais Bonitas da Cidade. Que as boas inspirações se sobreponham á mediocridade em 2012. E que tenhamos mais rua, malandros, mulheres, cachaça, botecos e menos nazis, Kassabs e fanáticos religiosos. Não podemos passar pelas coisas sem vê-las. Feliz ano novo.      




* Trechos de contos e entrevistas extraídos do livro Leão-de-chácara: São Paulo: Cosac Naify, 2002           

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Parks and Recreation reúne humor e política



Por Letícia 

Criada em 2009, Parks é uma série encabeçada por Amy Poehler (mais conhecida por seus papéis no Saturday Night Live), que mostra a rotina de funcionários da prefeitura da fictícia cidade de Pawnee, Indiana. A personagem de Poehler, Leslie Knope, é vice-diretora do Departamento de Parques e Recreação, e possui como principal característica uma personalidade entusiasmada (por vezes até demais) com o seu trabalho.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Melhores de 2011: Top 30 discos brasileiros


Alguns dados relevantes sobre essa lista: dos primeiros dez colocados, 5 são discos de rap; foi impossível cravar a primeira colocação: acabou sendo um "empate técnico", decidido apenas para efeito puramente eletivo. São dois álbuns diferentes, dentro de um mesmo gênero, realizados de forma bastante peculiar: um é mais sujo, direto, sem perder o brilhantismo da subjetividade; outro é belamente executado e sonicamente expansivo. Fato comum: são discos essenciais para 2011 e além, obras incríveis e que merecem a atenção que despertam. A lista ainda inclui ritmos diversos e uma única certeza: é um retrato que permite a observação de uma não-homogeneização do produto final, estilhaçando os limites entre artistas que trabalham de maneira ortodoxa - e com bons resultados - e outros mais aventureiros. Segue:

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Melhores de 2011: Top 50 discos gringos


Não dá pra dizer que tudo está aqui: tarefa impossível escutar todos os discos possivelmente relevantes. Após o fechamento dessa lista, encontrei sons interessantes que poderiam até tomar o lugar de algum álbum abaixo listado. Mas tomei por critério apenas aquilo que pode representar o mais fielmente o que realmente rolou e teve alta rotação em 2011, contando aí a tal maturação da análise crítica. Ou simplesmente o que soa maneiro mesmo depois de várias audições. Aí vai:

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ouça em primeira mão o novo som de Ogi e Stereodubs: Talarico

Foto: Fernando Ferreira Martins

Eis o primeiro single do projeto envolvendo o MC Rodrigo Ogi em parceria com os produtores do Stereodubs (DJ LX e Léo Grijó): a parada vai render mais coisa no ano que vem, com participações confirmadas de Rodrigo Brandão e Rappin Hood. O som que anuncia o projeto é Talarico, uma canção que utiliza a já notória capacidade de Ogi como contador de histórias e mescla os versos bem colocados com uma melodia que deriva do samba e da música popular "de verdade", geralmente rotulada pejorativamente como brega: pense em Luiz Caldas encontrando Clara Nunes. São pequenas cenas do cotidiano da vida real, som de boteco e não de barzinho.A faixa conta com a participação da cantora Srta Paola. Uma música de respeito sobre aquele tipo de sujeito que não respeita ninguém."Foge sujeito safado/vai se esconder/sebo nessas canelas/corre,corre Talarico/se eles pegarem você vão meter o maçarico." Rá! Ouça:



Também dá pra baixar a faixa aqui.

sábado, 19 de novembro de 2011

Slow Club - Paradise


Não deixa de ser surpreendente que uma das melhores bandas inglesas da atualidade seja um duo garoto/garota  praticando um indie-pop aparentemente sem grandes ambições: todo o aparato em torno do grupo formado por Charles Watson e Rebecca Taylor sugere apenas mais uma bandinha twee, fofinha: Charles faz o tipo introspectivo e Rebecca é uma bonequinha loira tímida; dá pra imaginar um comercial da Starbucks estrelado pelos dois. Mas Paradise, segundo álbum desse pessoal de Sheffield prova que eles podem surpreender os mais ácidos críticos. A (perdão) indigência da cena independente da ilha ajuda a explicar, mas não elucida totalmente o motivo de o Slow Club ser um destaque positivo em 2011. 

Com uma base instrumental simples de guitarras, violões, teclados e bateria/percussão, a dupla coloca em prática o bom exercício de se criar melodias mais recheadas de curvas, abandonando a linearidade do propósito meramente banal de soar digerível; a impressão é que realmente há uma força de composição que norteia o andamento do álbum, ao invés de pequenos ganchos que se repetem.

Em Two Cousins já temos um exemplo das qualidades do grupo: Rebecca possui bela voz, entoada com intensidade volátil; as harmonias serpenteiam com facilidade; o ataque instrumental preenche espaços e conduz ao elemento mais abrasivo porque há ritmo: sem tirar as mãos do pop, o Slow Club apresenta uma canção capaz de cativar também pela criatividade. If We're Still Alive não estaria fora de lugar em um disco do Givers, toda trabalhada na percussão insistente e riffs sujos: sem mimimi, só curtição. A balada Never Look Back funciona de um jeito que só boas canções podem funcionar: é um dueto com linhas de baixo roubadas de qualquer soul antigo, estaladas de dedo e refrão manjado: a sensação é de que você já ouviu isso antes, mas mesmo assim é bonita e vibrante. Where I'm Waking mistura a energia da abordagem mais agitada com a reflexão melódica característica da banda, Rebecca entregando um "I can see you're looking at me/ You've got the brains/ I've got the body...Lay me down/please lay me down."

A fórmula encontrada aqui parece simples: sem fugir ou temer suas influências, o Slow Club se concentrou em escrever boas canções: não há reinvenção e experimentação, mas também não há brecha para momentos anêmicos: cada faixa de Paradise traz consigo uma boa dose de emoção. O folk quieto de Hackney Marsh e a exuberância de Beginners possuem a mesma vocação para saltar aos olhos - ou ouvidos - mais espertos graças ao entrosamento entre Watson e Taylor na construção das ambiências sonoras. You, Earth Or Ash é uma madrugada pós-tudo sintonizando uma rádio AM encapsulada em forma de canção: o verso "I'm exhausted" é cantado com tamanha emoção por Rebecca que é um daqueles pequenos momentos que engrandecem um álbum. O folk eletrificado em The Dog, adornado pela bateria dura, monotemática de Rebecca e um refrão de dar soquinhos no ar podem fazer alguém engasgar com o frapuccino.

Trabalhar em um campo já repleto de bandas (o universo "indie" do folk-pop inglês: Mumford And Sons, Noah And The Whale, Stornoway, Johnny Flynn, Laura Marling, Emmy The Great, etc) pode ser uma proposta de tiro curto: se a execução for medíocre, a duração será a mesma do interesse e badalação em torno de qualquer coisa nos dias de interwebs: ontem já faz tempo e não interessa. A duplinha de Sheffield - terra de boas bandas, diga-se - evita os clichês ao se apoiar em uma confiança monstro e uma verdadeira paixão pelo pop perfeito. O que eles fizeram em Paradise já merece muito mais do que habitar o sistema de som de paraísos hipster. Use seus fones de ouvido e aproveite. 8/10

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Fóssil disponibiliza aperitivo do novo álbum


Os cearenses do Fóssil preparam o lançamento de Mocumentário, novo álbum do grupo previsto para fevereiro de 2012, da mesma forma arrojada que caracteriza a musicalidade da banda radicada em São Paulo: hoje eles liberaram para download gratuito um aperitivo do novo trabalho; o detalhe é que as canções novas são apresentadas ao vivo,  registro da passagem deles pelo Rio de Janeiro em junho desse ano. Uma maneira diferente de apresentar ao público o que será ouvido por inteiro em alguns meses. Assista ao teaser e baixe as seis faixas gravadas na Audio Rebel aqui (via Hominis Canidae).

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Shabazz Palaces Ao Vivo na KEXP


O Shabazz Palaces é o projeto de Ishmael Butler (o Butterfly do Digable Planets) com Tendai Marare. Depois de soltarem alguns EPs em seu site oficial em 2009, eles lançaram o álbum Black Up em junho. Fruto da  inventividade de Butler, que não se apoia em bases lineares para construir o esqueleto das faixas, e a habilidade rítmica de Tendai Marare, Black Up reúne canções que se colocam entre a complexidade e a fluidez, trazendo detalhes para o ouvinte mais atento sem abandonar a vocação para a diversão pura. O duo se apresentou no estúdio da rádio KEXP, de Seattle com quatro músicas listadas abaixo; a parada rolou em junho, mas merece ser vista (ou revista) por muito mais gente:   

* Bop Hard
* An Echo From The Hosts That Profess Infinitum
* A Mess, The Booth Soaks In Palacian Musk
* Free Press and Curl



Mais sobre o Shabazz Palaces (mini-doc + apresentação ao vivo) no Noisey.

Primeiro Disco #3: Nana Rizinni


A cantora/instrumentista/compositora Nana Rizinni (que lançou seu primeiro álbum há alguns meses) é a terceira personagem da nossa série de posts sobre a primeira aquisição - ou presente - de discos:

O primeiro disco que comprei (ganhei da minha mãe), disco não, CD, porque eu sou da era das fitas cassetes... Então foi marcante quando ganhei meu primeiro CD, tinha uns 13 anos. Foi o CD do Pearl Jam. Adorava (ainda adoro). Foi o disco TEN. Lembro que naquela época todos os discos que ganhava ou comprava, ouvia um milhão de vezes e decorava todas as letras das músicas. Era realmente uma época mais romântica. sinto falta. Mas tento fazer isso ainda nessa era digital. Não compro muita mais CDs, mas no itunes organizo tudo por discos e curto escutar o disco todo, a obra toda."


Lançado em 1991, Ten se posicionou como um dos mais bem sucedidos álbuns da era grunge: se Eddie Vedder e companhia não possuíam a simpatia de parte da crítica e de músicos contemporâneos, os fãs já se multiplicavam ao redor das melodias grandiosas do debut do PJ. Vinte anos depois, o registro permanece sendo, querendo ou não, bastante emblemático do rock dos anos 90.O respeito veio com o tempo, como ficou provado nas recentes apresentações no Brasil.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Ogi e Stereodubs liberam teaser de novo single


O novo projeto do Ogi - autor do excelente Crônicas da Cidade Cinza - com o Stereodubs está no forno: hoje eles liberaram o teaser do single Talarico, que sairá em breve. Assista aí:

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

St. Vincent - Strange Mercy


Annie Clark comanda sua guitarra recheada de pedais de efeitos  e sua voz oscilante sob a nomenclatura de St. Vincent há três álbuns. O terceiro, Strange Mercy, é o que a musicista norte-americana nos oferece em 2011. Não há dúvida de que sua maneira de construir canções pop começa a tomar forma bastante pessoal: se elementos de dream pop, rock, eletronica e suítes jazzísticas são elementos explorados por inúmeras outras bandas lideradas por vozes femininas, Annie encapsulou sua própria alquimia em Strange Mercy, mais claramente do que em seus outros dois bons discos. Temos aqui um pop de apelo radiofônico, porém cheio de  espaços, arranjos diferenciados, letras espertas; música acessível, sem chateações mas com os dois pés na criação não ortodoxa.

Chloe in the Afernoon é montada sobre camadas de sintetizadores, Annie cantando suavemente e alongando notas enquanto distribui riffs intromissores; é um exemplo de como o som do St. Vincent se distribui entre a calma e a estranheza, sem que essa dissonância se torne tão extravagante a ponto de estragar o resultado. Cruel é uma mutação do chamber-pop com o electropop, o ponto em que as letras de Clarke fazem efeito conjunto, mesmo que os versos revelem apenas a superfície de um mundo particular: "Forgive the kids for they don't know how to live/Run the alleys casually/Cruel, cruel". Tal vivacidade lírica ganha mais peso em Surgeon: guitarras costurando o refrão (que veio de uma frase de Marilyn Monroe): "Best, finest surgeon/Come cut me open"; soa opressivo, desnorteante e verdadeiramente original. Nem só de esquisitices vive Strange Mercy: Northern Lights é um indie rock linear de som processado por efeitos, salvo pela voz sempre limítrofe de Annie. A canção que dá  título ao álbum caminha por uma melodia quase perfeita, de levada metronômica e romantismo melancólico. O controle das opções no processo de entrega do St. Vincent é mais do que apreciável: quando um padrão parece se formar, uma música demonstra outra forma de apresentação.Neutered Fruit traz a visão de uma flor comestível, cores, explosão de flechas, coelhinhos fujões e outras reações cerebrais a estímulos diversos;  Champagne Year é mais um belo exercício de pop alienígena, uma balada minimalista que possui os versos menos herméticos do disco: para a compositora, a transmissão de suas intenções e experiências se dá muitas vezes pelo uso de referências (exemplo da música Surgeon), mas também pela sinuosidade do conjunto de palavras. 

Um dos trabalhos mais bem executados de 2011, Strange Mercy abre uma discussão interessante: É possível trabalhar com elementos díspares e soar orgânico? St. Vincent possui uma sonoridade que sugere um processo bem racional e atencioso na criação, mas o que dá vida às canções realmente é a emoção conflituosa presente em cada verso e acorde do álbum. De alguma forma, a compositora foi capaz de transformar momentos puramente instintivos em música que possui várias facetas. O pop "cabeça" e o de assobio fácil, a frieza de certos tons com o calor da execução. Para Annie Clark, a resposta da pergunta acima é "sim". 8/10

domingo, 30 de outubro de 2011

Primeiro Disco #2 : Some Community


Seguindo com nossa nova série de posts, dessa vez é o pessoal do Some Community que conta qual foi o primeiro disco da vida deles. Com a palavra, a vocalista Juliana e o guitarrista Fernando:

Juliana:
"O primeiro disco que eu comprei com um dinheiro que tinha guardado foi um cd do Depeche Mode Songs of Faith and Devotion. Nesta época eu já assistia MTV e tinha ficado fissurada no clipe e na música One Caress e naquela época o único jeito de ter uma música pra ouvir no repeat era comprar o cd... Comprei e fiquei louca com as outras músicas. O disco inteiro é foda. Eu sempre ouvi mais rock do que outras coisas mas naquela época não acredito que tinha um gosto musical muito demarcado. Não sabia quem era o Depeche Mode pra história da música mas adorava aquilo e ouvia sem parar. Aliás eu tenho essa mania de escutar coisas no repeat por um tempo longo...Ah, eu devia ter uns 11/12 anos nessa época."



Oitavo disco da banda inglesa, Songs of Faith and Devotion foi lançado em 1993, em meio ao furacão grunge. Pop eletrônico sombrio com influências e arranjos mais pesados na fórmula. Os fãs do grupo teriam de esperar mais quatro anos para um novo álbum de inéditas, devido ao sério problema de Dave Gahan com a heroína durante a turnê de ...Faith and Devotion.





Fernando:

"O primeiro disco que me marcou foi um que meu pai comprou pra mim.O Loaded do Velvet Underground. Eu lembro que estavamos na galeria do rock e ele me disse que esse disco ia mudar minha vida. Ele tinha toda a razão do mundo (risos)."


Lançado em 1970, Loaded foi o último álbum da banda novaiorquina com Lou Reed à frente. Para muitos, o quarto disco do Velvet Underground é o mais bem realizado de toda a discografia. Clássicos como Sweet Jane, Rock & Roll e I Found a Reason reforçam a ideia. 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Primeiro Disco #1 : Lê Almeida


Taí uma nova seção do blog: perguntamos pra uma porrada de gente boa qual foi o primeiro disco que eles compraram na vida. Por disco, entenda-se qualquer formato que tenha introduzido nossos ilustres convidados em uma imersão musical sem retorno. Pra começar quente, Lê Almeida, o cara que lançou esse ano o Mono Maçã, ótimo disco de rock garageiro lo-fi e melódico e que comanda a gravadora Transfusão Noise Records diretamente da baixada fluminense, sempre no esquema "muita inspiração com pouco recurso", difundindo o auto proclamado "roque de guitarra" para o mundo.Fala aí, Lê:

"Então, o primeiro disco que comprei  com consciencia mesmo acho que foi o In Utero do Nirvana, eu já conhecia o acústico, Nevermind e o Bleach na época mas o In Utero chapou com a minha cabeça e as minhas viagens. Lembro que ouvia o disco no rádio da minha vó o tempo todo e na minha cabeça sempre passava a ideia ruim de que embora no disco tudo fosse tão real e bonito eu de fato nunca veria ao vivo, fato triste. Nessa época eu andava de skate com uma turma e esse disco foi muito trilha. "

Banda: Nirvana
Álbum: In Utero (1993)
Nota: Último álbum de estúdio da banda, um disco que mostrava um Cobain revelando seus atributos e conflitos: tumultuado liricamente, com músicas que colidiam freneticamente entre as referências melódicas pop e a agressividade punk. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

The Hour, a boa surpresa da TV em 2011


O ator inglês Dominic West, o policial McNulty da antológica série The Wire (exibida pela HBO nos EUA entre 2002 e 2008) certa vez fez um comentário a respeito da grande presença de atores britânicos na tv americana: West via uma grande oportunidade de fugir dos dramas de época da BBC, segundo ele muito bem feitos mas que limitavam sua performance e o alcance junto ao público exatamente por seguirem fórmulas definidas e não contemporâneas; exemplificou demonstrando que sempre era escalado para papéis de aristocrata, enquanto McNulty e The Wire representavam uma realidade atual e um personagem da classe trabalhadora. Dominic está de volta á tv britânica com a série The Hour, algo que se situa em um meio termo entre as escolhas observadas anteriormente: o programa não se situa temporalmente no período pré-guerras, mas também não se passa nos tempos atuais, mas sim em 1956. Hector Madden, seu personagem, possui um perfil  mais ligado ao oportunismo burguês do que a um lorde imperial. 

The Hour segue o interlaçamento de relações entre Hector Madden, Freddie Lyon (Ben Whishaw) e Bel Rowley (Romola Garai): Bel é a produtora jovem e dinâmica do programa jornalístico The Hour, recém aprovado na grade da então ultra conservadora BBC; auxiliada pelo seu amigo íntimo Freddie, um repórter audacioso e temperamental, tentam dar vida a uma certa independência jornalística: Madden, é o âncora escolhido pela direção devido aos seus bons contatos na alta sociedade e que disputará o espaço com Freddie - profissionalmente, e também pelo afeto de Bel. Em meio aos eventos políticos do pós guerra - a crise do canal de Suez, um grande golpe no decadente império britânico - uma trama envolvendo misteriosos assassinatos.

Os ingredientes estão lá: mudanças sociais e políticas (Bel é uma mulher que chefia um grande programa e se envolve com o casado Hector Madden, Freddie ascende profissionalmente apesar de sua origem pobre, imigrantes dos países descolonizados aportam em massa pela Grã- Bretanha encontrando o racismo de um país alienado por devaneios e frivolidades, etc). A série opta por dividir o espaço do drama com o suspense, quando aponta para o envolvimento de agentes secretos e poderes obscuros na morte de uma amiga de infância de Freddie. O perigo de perder o foco vai sendo dissipado ao longo dos episódios - são seis no total - e a direção e roteiro de Abi Morgan equilibram os pratos em parte pela interpretação mais do que adequada do trio principal e de coadjuvantes precisos. A dimensão dos personagens também vai se ampliando ao longo do programa, e nuances começam a fazer sentido de forma harmônica: a tensão sexual entre a esguia Bel e o galã Hector em contraste com o amor platônico do esquelético Freddie por Bel evita clichês dos triângulos amorosos.

A música ouvida na Londres de 1956 era predominantemente ligada á crescente influência da cultura norte-americana, passando pelo jazz e pela pré história do rock, com Bill Haley, mas também começava a incorporar os sons trazidos pelos imigrantes das ex-colônias africanas e caribenhas (esses últimos ainda sem grande penetração entre brancos da classe média).

Dominic West voltou a estrelar um programa da BBC, mas não conseguiu ainda seu sonhado papel de trabalhador comum em uma série com fundo contemporâneo em seu país; pelo menos The Hour é um bom show, muito mais do que um Mad Men genérico.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O novo EP do Trash Talk



O novo EP dos californianos do Trash Talk sai amanhã (11/09) nos EUA pelo selo True Panther Sounds. Contendo cinco faixas, Awake sucede o álbum Eyes & Nines (2010) e o split lançado com a banda Wavves. O disquinho já rendeu dois videoclipes que você confere aí embaixo, no melhor estilo agressivo do hardcore praticado pelo quarteto: tags óbvias: skate or die, fuck tha police...
  



sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Mallu Magalhães - Pitanga


Talvez seja sintoma de uma crítica recheada de vícios que o preâmbulo de uma resenha seja dedicada não ao conteúdo musical em si, mas à percepção que existe em relação ao autor da obra. Simplesmente por força contextual, é importante lembrar que Mallu Magalhães surgiu como prodígio aos 15, foi alçada a uma condição de estrela de uma suposta cena indie-folk paulistana (mentira, nunca existiu), para rapidamente decair no conceito de parte da imprensa especializada, sob acusação de fazer música simples e inofensiva demais, como uma espécie de fenômeno adolescente descartável. Para além disso, argumentos que sustentavam essa percepção esbarravam perigosamente em concepções vazias, e não raro sexistas. Mais uma vez, uma discussão saudável sobre os méritos - ou falta de qualidade - da compositora foram deixados de lado para dar espaço ao conjunto de erros que atrapalham a credibilidade dos textos sobre música no Brasil: falta de opinião e/ou informação incompleta e/ou inconsistência argumentativa.

Ok, agora podemos falar do que interessa: Pitanga é o terceiro álbum da cantora paulistana, uma marca impressionante para seus 19 anos de idade. O disco foi gravado em São Paulo com a produção de Marcelo Camelo, e o ritmo das gravações avançou lentamente (Mallu descreveu o processo em detalhes em seu blog). Uma das primeiras impressões era a de que o esmero em encontrar timbres corretos pudesse tornar o álbum polido demais, pensado em demasia, e que o elemento de dinamismo pudesse se perder. A tal insegurança descrita pela cantora em seu blog nas escolhas feitas, aliada a uma admirável voracidade em conhecer a obra de artistas diversos sinalizava que Pitanga poderia ser carregado demais: em referências, em arranjos, em devaneios. A primeira grande surpresa é que, das doze faixas, apenas quatro ultrapassam a casa dos dois minutos. E apertando o play qualquer suspeita de pretensão mal concebida de desfaz.

Velha e Louca traz um equilíbrio entre a preferência pela melodia, uma letra mais esperta, levada por uma valsa bluesy entremeada por um recheio bem leve e preciso, Mallu soando mais direta nos versos: "Pode falar que eu não ligo/agora, amigo/eu tô em outra/ eu tô ficando velha, eu tô ficando louca."  Cena se aproxima daquela admiração pela música brasileira, e chama a atenção novamente pelos arranjos: Camelo deixou espaços e ambientes dentro das canções sem abandonar a busca pelo tiro certeiro. Daí a explicação para a busca pelos instrumentos específicos e takes adequados que consumiu tanto tempo e trabalho no estúdio. Essa Mallu de Pitanga "tem um coração vulcânico." Sambinha Bom e Olha só, Moreno são baladas abertamente românticas, mas permitem que se encontrem brechas de fragilidade que enriquecem o trabalho da garota como compositora: "E eu me pergunto o que é que eu sou/mas eu não sou mesmo nada...e eu tenho tanto medo." É um grau de construção lírica que a Mallu de discos anteriores costumava evitar, ou apenas não possuía a maturidade para expor. A metade de Pitanga é fechada com Por que voce Faz Assim Comigo: talvez a mais bem entregue canção da carreira da cantora, é adornada por uma instrumentação esparsa na aparência - mas que preenche espaços de forma bela - "Talvez eu deva ser forte/pedir ao mar por mais sorte/e aprender a navegar": Tchubaruba isso não é. 

O "lado B" do trabalho mantém a coerência  e qualidade apresentadas no início. Na verdade, aqui já podemos identificar outra característica do álbum: dentro das pequenas canções, há momentos, detalhes e curvas que se traduzem de maneira sutil, fazendo com que a audição repetida seja um exercício recompensador. Baby I'm Sure e In The Morning são curtíssimas e ricas. Lonely é mais linear, mas com enorme segurança se impõe através de uma das melhores melodias do disco; Highly Sensitive adiciona um bem vindo aceno ao rock rápido e rasteiro. Cais encerra o trabalho com uma delicada transposição de pianos e ruídos.

Pitanga é o melhor disco de Mallu Magalhães: ela nunca soou tão confortável com sua voz (algo perceptível em apresentações recentes): modulando seus alcances e usando mais a intuição, nem as limitações atrapalham o desenvolvimento da harmonia; suas composições agora possuem letras mais diretas, que denotam emoções menos superficiais, ao mesmo tempo em que suas referências tão grandiosas e díspares (Dylan, Vinícius, Billie Holiday, Gainsbourg, Luiz Bonfá, Mutantes, Ella Fizgerald, etc.) são incorporadas em pequenos pedaços, como quem se assume como aprendiz e não inventora. Sem nenhuma condescendência quanto á idade ou resistências baseadas em preconceitos bobos, Pitanga pode ser considerado um álbum de confirmação, embora ainda deixe espaço para a visão de melhorias. Mallu Magalhães vai ficando mais velha (ou menos nova), mas seu trabalho só melhora. 8/10

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Feist - Metals


Leslie Feist possui uma folha corrida no circuito independente do Canadá, já que circulou por bandas diferentes e menos conhecidas desde os anos 90, no cultuado Broken Social Scene, com a Peaches e até mesmo já teve composição reinventada pelo inglês James Blake. Mas a maioria das pessoas vai se referir á moça como "fofinha do indie-pop", porque seu álbum lançado em 2007, The Reminder, alcançou as paradas impulsionado pelo hit 1234, que ilustrou propaganda da Apple e rendeu vídeozinho viral. Parece que o sucesso trouxe algum tipo de reflexão, já que Feist só retornou com novo trabalho agora: Metals, e o que o disco oferece é algo que funciona como um contraponto mais introspectivo e dark, deixando o brilho leve do trabalho anterior para trás.

The Bad In Each Other inicia com andamento marcado por bateria e lamentos carregados até encontrar um refrão adornado por arranjos de cordas, num joguete que serve de parâmetro para o clima do disco: perfil mais quieto, crescendos menos óbvios, arranjos adequados e sem exageros e letras tristes. Sombra, luz, sombra; Leslie Feist sabe adequar seu alcance vocal e sua intuição para esse objetivo. Graveyard é mais homogênea, mas igualmente bem construída e bela. How Come You Never Go There traz a insatisfação com a covardia nas relações humanas e sinaliza para um momento mais animado ritmicamente do álbum: a música seguinte, The Circle Married The Lines, traz violinos tensos, quebra com coral gritando "A Commotion!" e refrão pegajoso. Nenhuma surpresa que a grandiosidade seja deixada de lado em Bittersweet Melodies, uma simples, low key canção levada por poucos e esparsos elementos: esse é um disco de introspecção não forçada. Anti-Pioneer, de trôpega levada waitsiana é um dos destaques da parte final de Metals. Cicadas And Gulls é só folk mesmo, mas não um arremedo Starbucks-style, mais para aquele esquelético instrumental que te carrega pra dentro das letras e do vocal do artista.  A quietude fecha com Comfort Me - Feist despida e crua e Get It Wrong, Get It Right, balada cristalina e efetiva.

A menina fofa do indie está mais pra aquela que se esgueirava no underground de Calgary com sua banda adolescente Placebo (não aquela do Brian Molko) ou a "Bitch Lap Lap" da Peaches. De uma maneira adequada: seu senso de pop bem trabalhado permanece, mas com um coração sujo por dentro. 8/10
   

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Adeus Redson


Foi noticiada a morte de Edson Lopes Pozzi, o Redson, vocalista da banda punk Cólera. Redson faleceu nesta terça-feira, segundo informações do baixista Val Pinheiro na página da banda no Orkut. A página do Cólera no Facebook também divulgou a informação. A banda forma da em São Paulo em 1979 é uma das mais importantes do punk rock nacional. Álbuns como a estreia Tente Mudar o Amanhã (1984) e Pela Paz em Todo o Mundo (1986) são clássicos absolutos do rock brasileiro. O Cólera se mantinha ativo com algumas apresentações esporádicas. O último disco da banda é Deixe a Terra em Paz, de 2004. 

Há algumas semanas atrás, Tente Mudar o Amanhã voltou a ser um dos discos mais ouvidos por mim. A primeira vez que tive contato com o som do Cólera foi através da coletânea Ataque Sonoro (1985). A capa, as fotos dos integrantes das bandas presentes naquele vinil, as letras, a pegada, tudo me impressionou demais - eu era um molequinho acostumado a ouvir "Rock Brasil" nas FMs. Dá pra dizer que, alguns anos mais tarde, a força daquela experiência ajudaria a moldar muito meu comportamento e meu interesse por música. Recentemente pensei em entrar em contato com os caras da banda para conversar sobre formas de produção nos anos 80. Exatamente por isso - não só - estava ouvindo novamente com atenção o primeiro disco da banda. É com grande tristeza que sou obrigado a escrever a respeito do Cólera sob essa perspectiva: a perda de um dos grandes vocalistas e ícone torto que viveu na caótica cidade de São Paulo, e cantou sobre ela e sobre todas as questões que são jogadas com força na nossa cara com raiva, perspicácia e ternura. Adeus, Redson.
   

sábado, 24 de setembro de 2011

Los Campesinos! - By Your Hand video

Aperitivo para o novo álbum do pessoal de Cardiff, Hello Sadness, que será lançado em novembro no Reino Unido.By Your Hand será o primeiro single do disco.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

MarginalS - (disco sem nome)


Quem já teve a sorte de presenciar o encontro desses caras - eles vem tocando juntos desde setembro do ano passado - já teve um gostinho da diversão rica em texturas proporcionada por Marcelo Cabral (baixo acústico), Thiago França (sax, flauta) e Tony Gordin (bateria). Músicos de responsa que fazem ou fizeram parte de trabalhos (como produtores e/ou músicos) de gente como Kiko Dinucci, Instituto, Criolo, D. Inah, Rodrigo Campos, entre outros, montaram o MarginalS para exercer o improviso nas noites paulistanas. Com impressionante sensibilidade, o trio apresenta uma sintonia nos shows com uma combinação sinuosa de jazz, ritmos africanos ancestrais e seus descendentes norte-americanos, passando até pelo rock. Agora temos á disposição um registro dessa saudável simbiose em forma de disco. 

A fluidez do ataque da banda não é fruto de uma meticulosa investida em composições fechadas, mas sim uma verdadeira força do exercício livre: quando há citações de suspeitos usuais como Coltrane e Fela Kuti elas não são inapropriadas, mas o MarginalS vai além com acenos variados dentro de uma gama  variada de improvisações amarradas com muitos truques e habilidades. Sem dissonância, os ritmos se fundem de forma falsamente simplória, não fosse a raiz dessa simplicidade uma grande capacidade compreensiva acerca das subjetividades da música: a beleza está exatamente na maneira como o que, em tese, pode ser intrincado permanece como um coração pulsante em nossos ouvidos. Entortando pra balançar os pés e a cabeça com um mundo de informação e alma por dentro: uma boa síntese desse disco tão rico e instigante. 9/10 


Pra baixar a estreia do MarginalS, clique aqui.


O trio se apresentou no programa multimídia Cultura Livre, da Cultura Brasil: confira abaixo

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Manic Street Preachers + The The

Os galeses do Manic Street Preachers vão parar por um tempo. Antes disso, lançam uma nova coletânea: National Treasures - The Complete Singles trará os 38 compactos, cobrindo toda a errática e longeva carreira do grupo britânico. O novo single é um cover do hit oitentista This is The Day, do The The. O vídeo mostra imagens de arquivo da banda, incluindo os principais momentos da trajetória, sem esquecer do antigo letrista Richey Edwards. O Manics tocará todos os singles ao vivo, em apresentação única no mês de dezembro em Londres.

Projota - Não Há Lugar Melhor No Mundo Que o Nosso Lugar


Quarto trabalho do Projota (entre mixtapes e EPs), Não Há...encontra o MC da zona norte paulistana em grande forma, distribuindo versos contundentes entre as batidas produzidas, em sua maioria, por Laudz e DJ Caíque. A forma e a construção do disco denotam uma opção pela coesão: mais do que uma mixtape "costurada", há um verdadeiro senso de criação de climas e picos, o suficiente para equilibrar a distribuição das canções.

O hit Pode Se Envolver, carro-chefe da divulgação de Não Há...é uma das melhores músicas do ano: contando com a destreza de Projota e dona de belo flow e encaixe rítmico, pega logo na primeira audição; celebratória e contando a trajetória de "uns menino bom/que trabalha e faz um som", traz um retrato simples e sem retoques da periferia que trabalha e se diverte. Nós Somos um Só é bonita no invólucro, mas como um bom rap, carrega nos versos o peso de imagens pouco agradáveis da desigualdade: uma mensagem de persistência diante de obstáculos quase intransponíveis. Recado claro: "Não lute contra mim enquanto existem tantos Kassabs por aí". O tal equilíbrio aparece na sequência, com Mais do Que Pegadas: positivo depoimento de sua trajetória no rap, aliviando um pouco o soco mas sem perder o punch. Resident Evil foge dos clichês no trato com o tema do crack consumido por centenas  nas ruas das imediações do centro de São Paulo (não só): " coração bate/o cérebro lateja/a alma flutua/o corpo rasteja/vidros sobem, a noite cai/ o resident evil tá la fora, não sai". Rap do Ônibus é mais um retrato do trabalhador comum destratado no transporte público: "Dá mais trabalho chegar no trabalho do que trabalhar". Vai Clarear funciona melhor do que livros de auto-ajuda ou vídeos corporativos sobre superação: a realidade contada é mais dolorosa, porém muito mais efetiva. Há beats que se alternam entre o acompanhamento e a quebra, refrões fortes e passagens mais dark, tudo funcionando. A segunda metade do disco segue em alto nível, entre a diversão de Azz Veizz e suas mulheres quase impossíveis, os violões de Carrinho de Feira, a insistente batida da romântica A Cama e a épica Em Volta da Fogueira.

Projota realizou um trabalho bastante sólido, recheado de pancadas e beleza, com uma grande perícia característica dos grandes MCs. Pra quem ainda insiste em enxergar o rap como um alien a ser analisado não por seus méritos musicais mas como um estudo político-social  um pedacinho de contexto:

" E sempre tem alguém pra falar mal/impressionante mesmo é que quem fala raramente tem moral" 8/10  

Clique aqui para baixar a mixtape.  

Arctic Monkeys - Suck It and See It video

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A ambição do Kasabian, a energia do Wild Flag

Dois discos com lançamento dentro dessa semana merecem a atenção, por motivos diferentes: Velociraptor!, quarto disco dos ingleses do Kasabian, e a estreia das americanas do Wild Flag. Propostas e situações com pouca coisa em comum, mas com bons resultados:


Desde o fim do Oasis a Inglaterra parece sentir a falta de uma grande banda de rock, que opere com grande aprovação popular e seja capaz de alinhar a urgência juvenil em escala maior. É bem verdade que a banda dos irmãos Gallagher andava devendo melhores álbuns, mas seus shows ainda eram capazes de mobilizar mais do que saudosos; bandas como o Arctic Monkeys e os novatos do Vaccines muitas vezes se vêem presas aos rótulos da imprensa britânica, e o sucesso de Coldplay e Muse não se distancia muito da roupagem de bandas como o U2. Falta mais sangue, boas canções e desejo de  ser mais do que a sensação indie. O Kasabian parece ter se preparado para ocupar esse espaço. Seus dois últimos álbuns alcançaram o primeiro lugar da parada britânica, mas Velociraptor! parece ser o mais coeso trabalho dos caras. 

Utilizando uma alquimia que reúne Kinks, Who, psicodelia e acenos para o rock dançante-agressivo - não diferente dos trabalhos anteriores - o Kasabian entrega um disco redondo, equilibrado entre rocks-hino   (Days Are Forgotten, Velociraptor!), baladas (Goodbye Kiss) e pequenas peças pop levemente intrincadas (La Fee Verte, Acid Turkish Bath). Sem desperdiçar nenhum momento e enxugando possíveis gorduras, Velociraptor! só pode ser criticado exatamente por seguir uma fórmula e produção que favorecem uma certa uniformidade asséptica, algo que se anula pelo poder das ótimas composições. É improvável que sejam aceitos no mercado norte-americano, mas sua influência e popularidade na ilha devem crescer ainda mais. 8/10  




O primeiro disco do Wild Flag possui um tipo de sonoridade forte que só a experiência anterior de suas integrantes pode explicar: Carrie Brownstein e Jante Weiss tocaram no Sleater- Kinney, Mary Timony era a líder do Helium e Rebecca Cole foi do The Minders. Dá até pra chamar de supergrupo, exceto pelo fato de que, mais do que um projeto de resultado díspare, o Wild Flag se parece mesmo como uma banda, uma unidade funcionando em alta rotação. Com dez músicas e duração parecida com os antigos LPs - direto, cru e adequado - a estréia das garotas de Portland e Washington D.C. surpreende pelo frescor: ao invés de veteranas do underground atirando suas últimas pedras, o Wild Flag é mais um renascimento criativo (embora Mary tenha uma boa carreira solo).

Integrando uma costura de guitarras duelantes, abrasividade e melodia, há muitos ganchos aqui para prender o ouvinte, mesmo após diversas audições. Romance é uma furiosa releitura new wave, Glass Tambourine se aproxima de um garagismo sixties, Endless Talk é rock setentista, Short Version é meio que tudo isso junto mais pós-punk. Sem se apoiar em referências óbvias, o Wild Flag vai flertando com extrema facilidade num universo rocker sujão e pop ao mesmo tempo. O que é objeto de extremo esforço para algumas bandas, é realizado como quem nem se importa pelo Wild Flag. Provavelmente porque elas realmente não tem mais paciência para expectativas e operam com consistência no cenário independente americano .Discão. 8,5/10  

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Rosana Bronks - Frenesi vídeo

Clipe da música nova do Rosana Bronks, aquecendo para o disco novo, sucessor de Jogar Pra Ganhar (2007) que deve sair em 2012. Participação da cantora Drica Rizzo:

domingo, 11 de setembro de 2011

Wilco - The Whole Love


A banda de Jeff Tweedy vai resistindo ao tempo e ao escrutínio daqueles que se encantaram pela fase encapsulada a partir do quarto disco (Yankee Hotel Foxtrot, 2002), quando o Wilco se tornou uma banda mais "séria", capturando alguns experimentalismos com a ajuda do produtor e multi-instrumentista Jim O'Rourke. Até então, os álbuns dos caras de Chicago arranhavam os vestígios do alt.rock, mas mergulhavam sem vergonha em uma busca pela perfeição dos elementos básicos do rock. Melhor exemplo: Being There, de 96. A fase anos 2000 trouxe prêmios e mais elogios da crítica para a dupla Yankee / A Ghost Is Born (2004). O problema de se posicionar como uma banda de rock vanguardista - ou chata, dependendo de quem compara - é exatamente o patrulhamento daqueles que sempre esperam que o próximo disco seja uma espécie de afirmação definiva. Tweedy tratou de evitar tais especulações com Sky Blue Sky (2007) e Wilco (The Album)  (2009), discos "pequenos" e sem a mesma ambição. O único problema desses trabalhos não é a ausência de toques experimentais mas a falta de inspiração de algumas músicas, resultando na irregularidade. Em uma análise mais sensata, Tweedy estava em um período de transição criativa, exercitando seu poder de escrever boas canções com poucas intervenções de estúdio. Funcionou como ensaio para The Whole Love, como veremos a seguir:    

Art Of Almost, com sua eletrônica fria e germânica parece indicar uma volta aos tratados de estúdio, porém a música vai se desdobrando em algo mais orgânico, de forma que há um equilíbrio final elegante e calcado apenas em uma composição firme. I Might encontra o "velho" Wilco desenhando um pop redondo recheado com uma construção - ou reconstrução - de riffs e linhas de baixo soltas, emolduradas apenas pelos teclados.A leve psicodelia de Sunloathe reafirma a impressão de um Jeff Tweedy focado e longe da letargia. Até mesmo a simplicidade de Dawned On Me é entregue com mais energia e entusiasmo, versos, pontes e refrão trabalhando direitinho. Black Moon traz de volta a melancolia em um folk de arranjos densos: há uma química funcionando perfeitamente, a voz de Tweedy conduzindo uma espécie de valsa, com a steel-guitar e os dedilhados de violão. Uma aproximação com a emoção mais simples e a pegada de um par de versos adequados traz o brilho de Open Mind: não é apenas com intrincada combinação que se faz um disco vencedor.Standing O despeja um glam-rock destemido, seguido por Rising Red Lung, o tipo de minimalismo folk que atinge o ouvinte com a mesma eloquência da canção anterior: escalas diferentes, efeitos iguais. One Sunday Morning encerra o álbum com 12 minutos de delicada e insistente beleza: sem apelar para nada além de uma canção circular, o Wilco finalmente se livra de uma incômoda seca de trabalhos inteiramente convincentes. 

The Whole Love se insere na prateleira cada vez menor de discos de rock adulto: longe do superficialismo ou da redoma de ar rarefeito dos círculos indies atuais, longe do cabecismo que o próprio Wilco já flertou. 8,5/10 
     

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Kate Moss ainda é rock'n'roll...


...pelo menos para a empresa de cosméticos inglesa Rimmel, que a convocou para sua nova peça publicitária. Kate invade uma sessão de estúdio dos Vaccines e tenta tocar If You Wanna com os caras. Antes disso ela trolla outras modelos ao som de White Stripes (Little Bird), e no fim pega um helicóptero com Brian Jonestown Massacre (Oh Lord) de trilha. Business as usual.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O rap trabalha, o jornalismo dorme

Projota

A recente ascensão de nomes como Criolo e Emicida, indicados para a premiação anual da MTV e citados constantemente pela grande mídia como revelações trouxe mais do que curiosidade sobre o rap: trouxe também algumas velhas falhas e preconceitos arraigados em boa parte do jornalismo cultural brasileiro, assim como os hábitos de consumo dessa cultura pelo público. A cobertura sobre a inserção do estilo musical em áreas normalmente compartilhadas pela classe média é quase sempre tomada pelo desequilíbrio: há quem considere uma revolução, outros rechaçam veementemente qualquer indício de validade. Um erro comum é a insistência em agrupar nomes diferentes sob um mesmo rótulo - no caso, "novo rap" - seja para glorificar ou diminuir sua importância. Mas essa é apenas a superfície de um problema mais sério: para que um gênero criado e consumido pelas periferias e favelas possa ser ao menos notado, ele deve passar pelo crivo de quem ainda acredita em dirigismo. Essas pessoas refletem a velha dicotomia de que música de qualidade tem que possuir um invólucro de aceitação, sendo a outra parte uma cultura pobre, alimentada por ignorantes "pardos". Música de pobre, no Brasil, é vista como um produto sem apelo comercial (embora milhões vejam vídeos no Youtube de artistas periféricos), sem valor artístico e desprezível. Os mesmos que possuem essa visão acreditam que o blues, de negros pobres e segregados nos EUA, ou o indie-rock branco, ou a velha MPB, representem uma ideia torta de "boa música".

Primeiro problema: a relação entre a cobertura da mídia e o gosto popular. Mais do que em outros lugares, "especialistas" brasileiros rejeitam quase tudo que tenha aceitação do grande público. A opinião raras vezes é baseada em critérios qualitativos, sendo baseada principalmente na visão de que, se a música é compreensível para o grande público, é popularesca e não pop. O mesmo critério não se aplica a artistas internacionais, obviamente. Outra mentira é a concepção de "ideologia indie": há quem acredite que o rock branquinho represente o que de mais inventivo pode existir, com uma vantagem: nem todos gostam, o que permite aquele ar de elitismo intelectual tão apreciado. Independente é quem assiste, compra, participa ativamente e dessa forma ajuda a criar um cenário sustentável. Não existe cena indie rock no Brasil, portanto. Os indies brasileiros não se movimentam (só de forma pontual, isolada). Ironicamente, quem se organizou e criou opções nos últimos anos para sobreviver foi...o rap. Dessa suposta ideologia se desdobra a imagem de "permanecer pequeno": isso explica de certa forma as críticas direcionadas ao rap que ambiciona exposição (algo como "se vender"). A verdade é que tal intolerância a algo badalado (ou "hypado", como eles preferem) não se aplica á MPB indie. Novamente, o preconceito: eles só são bons dentro da favela.

Minha modesta opinião: o rap vive grande momento no Brasil, não vive de nomes isolados. É o resultado da combinação da velocidade de divulgação proporcionada pela internet e acesso a novas tecnologias: o fato é que, ser independente no Brasil é muito difícil. Ser independente na quebrada, muito mais. Com um excesso de músicas rolando na web, muitos MCs e beatmakers perceberam que precisavam de algo mais para sobreviver: organização, profissionalismo, dedicação. Qualidade no trabalho em si e na forma de divulgar e distribuir. O que temos hoje é um cenário em que só os bons se destacam. Esse parâmetro elevado está forçando o surgimento de nomes cada vez mais preparados para o destaque, além de reforçar a própria cena independente em que estão inseridos. É uma situação vencedora, e isso incomoda quem cruzou os braços.

Em resumo, não há mal inerente quando um MC ganha páginas no caderno cultural, está na MTV e nas revistas semanais. É o desdobramento de uma música mais pungente e organizada mostrando seu melhor lado. O tempo dirá se Emicida e Criolo estão cavando espaço definitivo no mundo comercial, para si próprios e para o gênero no Brasil. Ou se nomes como Projota, Don L e Rincon Sapiência farão ainda mais sucesso. A única verdade, por enquanto, é que o rap faz aquilo que falta para parte significativa do nosso jornalismo cultural: trabalha duro.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

sábado, 20 de agosto de 2011

Laura Marling - A Creature I Don't Know


Em uma entrevista recente, Laura Marling demonstrava sua admiração por Neil Young: a maneira como pessoas que o viram tocando ao vivo dez, vinte anos atrás ou mais, e continuavam a comparecer aos shows do compositor canadense impressionou Laura. A transposição generacional e a carreira longa de Neil parece cada vez menos provável - mesmo relevando a genialidade - para um artista atual. Para a jovem inglesa, que acaba de finalizar o seu terceiro álbum, o futuro parece oferecer caminhos interessantes: sua opção em distanciar seu som de modismos e apostar apenas na sua capacidade de impor letras inteligentes dentro de um policromático folk ancestral acompanhado de uma urgência juvenil a afasta de nichos indie.

A Creature I Don't Know diz respeito muito mais aos momentos febris da vida adulta de Laura do que uma reinvenção de som: as sombras do inconsciente e as emoções cruas são temas pertinentes que Laura trata com versos contorcionistas, mas nunca pernósticos ou carregados de pompa. Ao contrário, a atmosfera densa é criada com passagens afiadas levadas pelas modulações vocais da compositora. A diferença fundamental para os dois primeiros discos é que aqui Laura deixa a inocência de Alas... e o peso I Speak...para encontrar um equilíbrio que deixa o resultado final mais relaxado. A maior variedade instrumental (guitarras ásperas em The Beast, a estrutura jazzística de The Muse com seu baixo e piano presentes, a pegada alt-country de Sophia) não interfere no balanço do trabalho: mais do que canções destacadas individualmente, há sempre um sentimento de sequência que fere a compreensão de uma geração acostumada com o shuffle do Ipod, mas faz sentido para quem cresceu consumindo álbuns como filmes ou livros. Mais um ponto a favor de Marling, uma garota que nasceu nos anos 90.

Seja explorando a melancolia pastoral de Nick Drake, a intrincada e quente interpretação de outra Laura, a Nyro (em particular os trabalhos do final dos anos 70 da compositora americana) ou o anti-folk da Diane Cluck, Marling nunca permite que a facilidade em juntar clichês ou referências atrapalhe o curso de suas composições: aos 21 anos e três álbuns, a inglesinha demonstra personalidade: A Creature...pode não ser o salto para o estrelato que muitos esperam, mas é prova de confiança em seu próprio ritmo e evolução.

" Eu não estou do lado do demônio / eu não sussuro para ele / eu fico nas montanhas / e chamo as pessoas para ouvir...eu te amei, eu desejo me tornar você / e saber o que você sente" - Night After Night 8,5 / 10

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Girls - Father, Son, Holy Ghost


Seu mundo pode ser aquele que apresenta crises econômicas, rachaduras sociais e cidades em chamas. A abstração disso na música pop atual pode virar um contraponto hedonista de bandas festeiras ou uma rara reflexão mais madura (e perigosamente próxima da arrogância). Mas também pode refletir um estado maior de sentimento de inadequação ou tristeza. No caso de Father..., segundo álbum dos californianos do Girls, o universo retratado é exatamente o da perdição romântica e a desesperança. Pode parecer pessoal demais, mas acaba tendo apelo maior, em um cenário universal em que sentimentos tão comuns são relevados. Em suma, o som de caras chapados cantando sobre garotas que se vão faz mais sentido do que afirmações unidimensionais sobre conflitos, bolsa de valores e violência. No meu mundo, pelo menos.

O que chama a atenção é que o disco soa mais pesado, com maior cenário, sem perder algumas características que fizeram a fama do primeiro álbum: letras confessionais e auto-piedosas, no limite entre a embriaguez e a beleza, passagens melódicas matadoras e a fragilidade vocal de Chris Owens. Honey Bunny engana de início com certa similaridade com as músicas de Album, mas a quebra melódica no meio cria uma espécie de marca, que acaba por definir muito do que virá pela frente: estruturas mais firmes, nuances antes inexistentes e mais peso instrumental. Die é praticamente um hard rock setentista, Chris encaixando um "We're all gonna die, we're all gonna die!": excelente. My Ma é uma balada country-rock-gospel recheada de guitarras encharcadas de efeitos; Vomit, o primeiro single, pode ser a Hellhole Ratrace do atual momento: servindo de peça central do trabalho, a canção cresce lentamente construindo um clímax que é puramente psicodelia: teclados e guitarras tecendo barulho. A parte final da música novamente chama um coro para emoldurar o apelo de "Come into my heart" de Owens; ecos de Pink Floyd e Spiritualized. Just A Song possui uma certa melancolia narcótica não muito distante de algo de Neil Young circa At The Beach mas termina com uma repetição insistente e arranjos delicados. A leve Magic traz um certo alívio com a típica simplicidade melódica e lírica da banda. Love Like A River é bela embora montada sobre trejeitos soul manjados.

Father, Son, Holy Ghost é uma extensão bem executada das bases apresentadas em Album, já apontando direções em que o Girls poderá seguir daqui pra frente. Uma trilha sonora devastadora para dias tensos. 8,5 / 10

domingo, 14 de agosto de 2011

Entrevista: Tiê


Não faz tanto tempo que Tiê lançava Sweet Jardim, disco que inaugurava sua carreira autoral recheado de canções quietas e melancólicas, gravadas de uma forma bastante simples. No início de 2009, os primeiros shows começavam a atrair pessoas que se sentiam capturadas pelas músicas de apelo pop mas com um toque folk e de letras pessoais. Um grande passo pra quem tinha acabado de achar uma forma de traduzir sua criatividade: "Quando ouvi o disco pronto, confesso que deu uma mini insegurança. Estava bem simples e bem autobiográfico. Fiquei com medo de ser demais. Mas logo passou e foi só felicidade. Sempre todo mundo recebeu o Sweet muito bem."

Agosto de 2011. Quase dois anos e meio depois, com uma carreira ascendente, Tiê viu amigos como Tulipa Ruiz e Thiago Pethit ganharem espaço para além dos espaços independentes, além de outros artistas como Marcelo Jeneci estabelecerem um grau de atenção antigamente destinados apenas a grandes nomes. Um dos problemas de novos parâmetros dentro da música é a dificuldade em aceitar - ou enxergar - diferenças entre músicos contemporâneos. A tentação de reduzí-los a um só rótulo é muito grande. Para o ensolarado e bem sucedido segundo disco (A Coruja e o Coração- resenha aqui), lançado esse ano, Tiê escolheu dois hits de Pethit e Tulipa para gravar. Uma forma de mostrar a diferença entre eles? "Foi exatamente isso! Quis regravar músicas que eu realmente achava incríveis, além de mostrar meu apreço e admiração por esses dois artistas. Somos apenas amigos que estamos criando num mesmo momento. Musicalmente somos bem diferentes, mas a essência independente e o lado autoral é o que temos em comum.

A boa recepção de Sweet Jardim e o nascimento da filha Liz foram eventos que ocorreram após uma caminhada não diferente da maioria dos artistas : o esforço para encontrar uma voz criativa, os percalços da independência contrastando com a vida fora dos palcos e as contas para pagar. De alguma forma as coisas se tornaram positivas o suficiente para que A Coruja e o Coração ganhasse um tom mais colorido e sonoridade mais completa: " Já sabia que seria bem diferente de Sweet Jardim, porque a minha vida já estava completamente mudada. Mas foi um processo natural. As composições pediam mais instrumentos, mais recheio. Para incrementar essa ideia de trabalho menos solitário, parcerias surgiram, com gente como Pedro Granato e Karina Zeviani; teriam sido planejadas ou espontâneas?: "Espontâneas e muito bem vindas! Perto e Distante já tinha nascido quando pedi ajuda pro Pedro e ele deu outra vida e história pra ela, que antes se chamava Quem Garante. A Ka eu conheci bem na época da produção do disco, ficamos amigas e tudo fluiu muito bem!"

Com participação garantida no próximo Rock In Rio e várias datas pelo Brasil e no exterior - tem shows marcados nos EUA junto com Tulipa Ruiz agora em Agosto - Tiê se mostra otimista com o fato de que os shows se tornaram tão importantes para a sobrevivência do artista: " Não é o único, (meio de viver de música) mas por enquanto é o mais garantido, e também divertido! Amo o contato com o público, as diferenças de cada show, a energia dos lugares." Inevitável questioná-la sobre o futuro de sua geração, já que ainda não podemos afirmar com o devido distanciamento a importância e a extensão do sucesso deles. Em dez anos, como estarão? A compositora dona de um despojamento e polidez marcantes também mostra que é otimista e brinca: " Espero que feliz! E rica! (risos). Espero que cheia de energia e criatividade, ideias novas e otimismo!

Ainda que menos sombrio, A Coruja... não deixa de possuir canções baseadas em experiências pessoais. Será que veremos composições de Tiê baseadas em narrativas mais distanciadas? " Por enquanto não, mas talvez um dia consiga. A vida muda sempre tanto que não dá pra saber, né? Hoje eu gosto de compor assim porque percebi que funciono quando sou bem sincera. Mas talvez, num futuro, eu seja sincera também falando de assuntos menos pessoais." Essa capacidade de encarar com serenidade e delicadeza os desafios da carreira - e da vida, que serve de inspiração para seu trabalho - indica que podemos aguardar novos discos e apresentações entregues assim, com dedicação e amor. Vamos torcer para que se traduzam novamente em música de qualidade.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Pélico - Que Isso Fique Entre Nós



A capa do novo álbum do compositor Pélico é uma foto em que duas pessoas aparecem sem que seus rostos estejam aparentes: o próprio cantor, de costas para a câmera, encobre uma figura feminina, que se posiciona de frente para ele. É uma imagem que sugere um sentimento de proximidade física e distensão emocional, comumente conhecido como a melancolia que precede o fim inevitável de um relacionamento. Dessa premissa poderíamos imaginar um disco áspero e incômodo, mas Pélico encontrou maneiras diferentes de tratar o assunto, musical e liricamente.

As diferenças em relação ao seu bom disco de estreia (O Último Dia de Um Homem Sem Juízo, 2008) estão na construção das melodias e na entrega: se antes Pélico soava mais cru, direto e entoava letras mais distantes da comoção, agora as paredes melódicas erguidas são simples e frágeis, e as letras são desavergonhadamente sentimentais. Se as dezesseis músicas são resultado de um lento processo ou um forte e imediato fluxo criativo não importa: Que Isso Fique Entre Nós não possui espaço para pequenos erros, é uma obra de leve e insistente capacidade de surpreender, ao equilibrar arranjos inventivos e melodias de apelo pop inegável sem resvalar na mediocridade do verso simplório ou do exagero da auto-comiseração.

Tarefa difícil compor um album em tempos de iPods no shuffle o tempo todo: a coesão e até mesmo a consistência de dez, doze músicas reunidas é algo que parece cada vez mais improvável. Se me contassem que das dezesseis aqui demonstradas, nenhuma poderia ficar de fora, eu suspeitaria. Mas a audição desse disco que, embora forte no conjunto e simples na essência, oferece tantas facetas ao ouvinte, prova que é possível ser pungente trabalhando em terreno tão escorregadio: o pop bem azeitado, com pés no rock e letras derramadas são normalmente o refúgio de compositores mais bem intencionados do que propriamente talentosos.

Não Éramos Tão Assim possui refrão forte sem abandonar a boa direção onipresente: Pélico não guarda truques para engrandecer momentos, ele cria uma contínua corrente de pequenos retratos; Recado talvez se aproxime do que se poderia chamar de um Pélico 2.0, um upgrade do rock quase descontrolado do disco anterior, dessa vez emoldurado em coerente e forte melodia crescente; À Beira do Ridículo é adornada por belos arranjos e é uma bela peça de chamber pop; O Menino soa reconhecível mas é uma matadora canção encaixada já quase ao fim do album, mostrando o fôlego criativo de Pélico. Nesse ponto o ouvinte ocasional já parou diversas vezes para prestar atenção. E atenção terá o compositor, que não apenas cumpriu os bons indícios demonstrados anteriormente, mas na verdade surpreendeu com um dos melhores trabalhos do ano. 8,5/10
O disco pode ser baixado de graça por aqui.

Pelico Vamo Tenta by Pelico

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Frances Bean Cobain, 18


Enquanto Nevermind completa 20 anos de lançamento, a filha de Kurt e Courtney chega aos 18 (quase 19, na verdade). E o ensaio feito pelo francês Hedi Slimane mostra que Frances herdou os melhores traços dos pais. No site do fotógrafo/designer dá pra ver o ensaio completo.


Lindeza do dia: Barbara Eugênia - Por Aí vídeo

Segundo vídeo extraído de Journal de BAD (número 5 na lista de melhores discos do blog), primeiro disco da cantora lançado em 2010. Depois de O Oposto do Osso, a canção escolhida foi Por Aí. Lindezas reunidas: a música, as imagens e a Bárbara. Enjoy!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Little Dragon - Ritual Union


Em um mundo pop habitado de forma populosa por bandas de origem eletrônica com pés nos aspectos etéreo e cerebral - com resultados enormemente diversos em qualidade - mas contando com a condescendência da crítica, que acredita estar diante de algum tipo de sofisticação e inteligência musical acima do seu usual indie de guitarras, colocando quase tudo no mesmo patamar -, é raro ouvir algo que realmente permite alguma sensação residual. Aqui se enquadra o grupo sueco Little Dragon, que chega ao terceiro album com a mais consistente coleção de canções de sua carreira.

Trabalhando com beats secos e intervenções de teclados com economia, a banda reverte uma tendência de entusiasmo com novas tecnologias que leva produtores e músicos a perder o ponto ao utilizar ferramentas eletrônicas; a música do Little Dragon se baseia em estrutura pop sólida (músicas boas e variadas) e uma vocalista capaz de cativar o ouvinte. O adorno eletrônico é usado com inteligência. Simples e efetivo. A faixa título abre o disco reunindo elementos minimalistas; Shuffle A Dream, um synth-pop mais marcadão ainda assim não abusa dos efeitos e deixa Yukimi Nagano destilar sua habilidade de controle e entrega vocal. Precious é uma vagarosa peça misteriosa, uma canção que mostra o que uma boa química pode fazer por uma banda: o jogo entre as batidas e teclados funciona criando uma dimensão maior do que os esparsos elementos utilizados sugerem.

Ritual Union satisfaz plenamente o fã do electro-pop ao prestar especial atenção aos detalhes e deixar o exagero de lado, focando em composições sólidas. 7,5

Little Dragon 'Ritual Union' (Live on Fallon) from lentetijd on Vimeo.