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terça-feira, 7 de maio de 2013

Clarice Falcão - Monomania: Entrevista e resenha




O nome "Clarice Falcão" é geralmente precedido por uma série de introduções: acumulando rótulos de multiartista, atriz-cantora-roteirista, comediante-compositora, fenômeno da internet e quetais, a carioca nascida em Pernambuco lança seu primeiro álbum, Monomania, e encara o teste de quem acumulou fãs via YouTube: a mesma receptividade entusiasmada vem acompanhada da já conhecida caixinha de ódio dos comentários e replies. O importante é saber se o disco se sustenta sozinho e acima das nomenclaturas destinadas à sua autora.

O EP introdutório lançado em 2012 trazia canções simples, mas carregadas de uma construção imagética de romantismo e humor, levadas por instrumentação simples e acertada. A boa notícia é que as quatro canções do EP estão presentes em Monomania em versões amplificadas, mas mantendo a base de suas qualidades. As novas composições parecem mostrar uma evolução da confiança de Clarice e do acerto de produção: as narrativas permanecem como grande trunfo, trazendo ao ouvinte uma proximidade com as experiências citadas; o instrumental deixa espaço para a voz de Clarice, mas os arranjos dão dimensão maior às músicas, em uma execução limítrofe do minimalismo na inserção dos instrumentos.    

A dinâmica do álbum é exemplificada em momentos como Um Só, canção que condensa em pouco mais de um minuto e meio uma declaração intimista dentro de uma melodia delicada e lenta. Parte do brilhantismo das letras de Clarice surge como que por espontaneidade: " A cor do seu rosto eu já sei de cor." A sequência com Fred Astaire, mais recheada, com pianos e percussão marcada e uma pegada mais veloz demonstra que, embora monotemático, o disco não se arrasta em repetições e ganchos formulaicos.

Em Qualquer Negócio a cantora se posiciona como um acessório qualquer apenas para estar próxima do amado; a letra se equilibra entre citações bem humoradas, mas o corpo verdadeiro é um apelo singelo e verdadeiro por empatia; e o espírito do trabalho vai tomando forma, canção a canção: Clarice escreve sobre amor, e sua habilidade em jogar com as palavras trazendo momentos de estranhamento e beleza é o equivalente a atravessar períodos escuros com rápidas aparições solares em questão de minutos. O dueto com SILVA é um ponto alto do disco, reunindo dois jovens compositores que dividem a mesma relação de admiração à melodia e estrutura. Eu Me Lembro brinca com um escopo melódico que vai do esquelético ao exuberante enquanto a dupla troca ideias desencontradas sobre um... encontro.     

Monomania é sobre amor. São músicas inapelavelmente melódicas, de arranjos delicados e letras espertas. Caminha na estrada do indie-folk de She And Him, Soko, Feist. Mas a garota que cresceu ouvindo Chico Buarque e Luiz Tatit também admira um cuidado especial na narrativa. E o disco não é apenas um exercício artístico pouco interessado: Clarice Falcão revela aqui seu amor à composição e à música, na maneira em que constrói seu trabalho em variadas formas líricas - embora de estética coerente - explorando um único tema. Mas é um tema que pode se desdobrar em inúmeros fatos e pequenos detalhes da vida, e essa multiplicidade é tratada com habilidade por Clarice. Desprezando o cinismo, Monomania é resultado de um coração grande o suficiente pra abrigar muitos sentimentos. Os detratores irão dizer que não passa de mais uma cantora fofa. Fofurice não falta, realmente. Mas raramente foi tão relevante. 8/10                  
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* O que podemos esperar do seu primeiro álbum, além do que você já adiantou na sua página do Facebook?

Acho que é um álbum do ponto de vista do apaixonado. As músicas todas têm um eu lírico bem parecido e foi muito divertido usar os arranjos pra dar universos diferentes pra cada uma. Por outro lado, eu gosto muito de escrever letra, e minhas músicas são muito narrativas - uma preocupação minha era não engolir as histórias das músicas com arranjos gigantescos. Fui muito feliz na minha parceria com a Olívia Byington, que produziu o disco comigo e trouxe junto com o Ricco Viana uma musicalidade que não fazia tanto parte do meu universo.

* Compor, gravar e lançar um disco hoje em dia requer um retorno financeiro muitas vezes adquirido apenas por turnês. Haverá uma turnê e como equilibrar suas outras atividades com essa tarefa?

Quero muito fazer uma turnê. Acabei de fazer os primeiros shows da minha vida e descobri que é uma das melhores sensações do mundo. Entendi bem melhor gente que pula de paraquedas. Já tenho um show marcado em São Paulo, shows em Belo Horizonte, Curitiba e Recife encaminhados e estou doida pra marcar mais. 

* Sei que é fã do Magnectic Fields. O Stephin Merritt uma vez disse algo curioso sobre o "69 love songs" (mais notório disco da banda estadunidense): " Não é um disco sobre o amor, mas sobre canções de amor, o que não tem nada a ver com amor." Na mente dele, as canções de amor são tão importantes pro pop que mereciam um trabalho como aquele. Ao mesmo tempo, ele se distanciava da experiência puramente pessoal e ao invés disso criava personagens e situações. "Monomania" é um disco de "love songs" ou "sobre 'love songs'"?

As músicas do disco definitivamente são canções de amor. Não são músicas irônicas, não é um comentário, é um CD ingênuo mesmo. Acho que a graça está nessa ingenuidade. Como eu disse, o CD é todo do ponto de vista do apaixonado, e gente apaixonada é muito idiota. Eu, pelo menos, sou.

* Na gringa é muito comum artistas que se envolvem em diversas áreas; de recente dá pra citar a Zooey Deschanel , Scarlett Johansson e a francesa Soko, que atuam e cantam. Aqui no Brasil, nem tanto. Você teme uma cobrança do tipo; "Curto a Clarice atuando mas cantando não."?

Estou cada vez melhor em abstrair as críticas e as cobranças. Descobri que isso é muito importante se você quer ter uma carreira artística - especialmente na internet. É só ler os comentários de qualquer vídeo do Porta dos Fundos, em cima de todo comentário que diz "Pior vídeo" tem um que diz "Melhor vídeo". É impossível agradar a todo mundo. E, por mais difícil que seja, eu tenho tentado dar mais atenção aos que dizem "Melhor vídeo".

* Fale sobre "Eu Não Faço a Menor Ideia do Que eu tô Fazendo Com a Minha Vida", segundo longa do Matheus Souza em que você vive a protagonista.

O Matheus me chamou pra protagonizar o filme a mais ou menos vinte dias das filmagens, as filmagens em si duraram pouco mais que quinze dias, e o filme não tinha dinheiro algum - ou seja, um projeto bem a cara do Matheus. O Apenas o Fim (primeiro longa dele) foi feito em um esquema bem parecido. Eu me diverti muito. O roteiro era muito legal, o Matheus é talentosíssimo e como a equipe era composta basicamente por estudantes de cinema, todo mundo trabalhava com muito gosto. 

* O Porta dos Fundos e O Fantástico Mundo de Gregório, assim como suas músicas, se espalham e fazem sucesso pela internet. Crê que sua geração já trabalhe com as ferramentas digitais do-it-yourself de maneira natural,demonstrando assim uma certa desconexão de um formalismo de profissão?,Digo, é possível que em 2015 Clarice Falcão lance um álbum de hardcore e seja protagonista da novela e escreva um livro, tudo junto?

Faço parte de uma geração em que os rótulos profissionais (atriz, cantora, compositora...) importam muito pouco. E eu acho isso muito bom. Isso abre infinitas possibilidades. Cada veículo é ideal para dizer um certo tipo de coisa. Gosto muito de artistas plurais e quero continuar sendo plural pra sempre. 


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Melhores de 2011: Top 50 discos gringos


Não dá pra dizer que tudo está aqui: tarefa impossível escutar todos os discos possivelmente relevantes. Após o fechamento dessa lista, encontrei sons interessantes que poderiam até tomar o lugar de algum álbum abaixo listado. Mas tomei por critério apenas aquilo que pode representar o mais fielmente o que realmente rolou e teve alta rotação em 2011, contando aí a tal maturação da análise crítica. Ou simplesmente o que soa maneiro mesmo depois de várias audições. Aí vai:

sábado, 20 de agosto de 2011

Laura Marling - A Creature I Don't Know


Em uma entrevista recente, Laura Marling demonstrava sua admiração por Neil Young: a maneira como pessoas que o viram tocando ao vivo dez, vinte anos atrás ou mais, e continuavam a comparecer aos shows do compositor canadense impressionou Laura. A transposição generacional e a carreira longa de Neil parece cada vez menos provável - mesmo relevando a genialidade - para um artista atual. Para a jovem inglesa, que acaba de finalizar o seu terceiro álbum, o futuro parece oferecer caminhos interessantes: sua opção em distanciar seu som de modismos e apostar apenas na sua capacidade de impor letras inteligentes dentro de um policromático folk ancestral acompanhado de uma urgência juvenil a afasta de nichos indie.

A Creature I Don't Know diz respeito muito mais aos momentos febris da vida adulta de Laura do que uma reinvenção de som: as sombras do inconsciente e as emoções cruas são temas pertinentes que Laura trata com versos contorcionistas, mas nunca pernósticos ou carregados de pompa. Ao contrário, a atmosfera densa é criada com passagens afiadas levadas pelas modulações vocais da compositora. A diferença fundamental para os dois primeiros discos é que aqui Laura deixa a inocência de Alas... e o peso I Speak...para encontrar um equilíbrio que deixa o resultado final mais relaxado. A maior variedade instrumental (guitarras ásperas em The Beast, a estrutura jazzística de The Muse com seu baixo e piano presentes, a pegada alt-country de Sophia) não interfere no balanço do trabalho: mais do que canções destacadas individualmente, há sempre um sentimento de sequência que fere a compreensão de uma geração acostumada com o shuffle do Ipod, mas faz sentido para quem cresceu consumindo álbuns como filmes ou livros. Mais um ponto a favor de Marling, uma garota que nasceu nos anos 90.

Seja explorando a melancolia pastoral de Nick Drake, a intrincada e quente interpretação de outra Laura, a Nyro (em particular os trabalhos do final dos anos 70 da compositora americana) ou o anti-folk da Diane Cluck, Marling nunca permite que a facilidade em juntar clichês ou referências atrapalhe o curso de suas composições: aos 21 anos e três álbuns, a inglesinha demonstra personalidade: A Creature...pode não ser o salto para o estrelato que muitos esperam, mas é prova de confiança em seu próprio ritmo e evolução.

" Eu não estou do lado do demônio / eu não sussuro para ele / eu fico nas montanhas / e chamo as pessoas para ouvir...eu te amei, eu desejo me tornar você / e saber o que você sente" - Night After Night 8,5 / 10

terça-feira, 21 de junho de 2011

O disco novo da Laura Marling


E a compositora inglesa anunciou oficialmente que seu terceiro disco será lançado no dia 12 de setembro. Vai se chamar A Creature i Dont Know, e foi produzido novamente por Ethan Johns. A princípio, o sucessor de I Speak Because I Can seria lançado no final de 2010, mas Laura mudou de idéia. Ela já afirmou que será diferente do ultimo album, já que reescreveu a maioria das canções que tinha preparado (cuja sonoridade era parecida com as de I Speak...). Abaixo o vídeo-teaser gravado durante a breve passagem de Laura pela América do Sul: imagens de Avellaneda, na grande Buenos Aires:

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Bonifrate - Um Futuro Inteiro


O Bonifrate desfruta de um respeito bacana no cenário independente brasileiro; talvez seja pelo fato de ele ser integrante do Supercordas, uma das bandas mais consistentes do Brasil em termos de qualidade. Mas os discos solo do cara também são um caso á parte. Não são exercícios preguiçosos de entressafra. Um Futuro Inteiro, o novo disco, é mais uma incursão ao folk lisérgico que se abraça ao pop de teclados antigos, ao country rock e tudo que soa pertinente numa manhã fria. Ou em um entardecer. Ou em qualquer circunstância que envolva climas aconchegantes.

Esse Trem Não Improvisa é exatamente um compêndio do folk rock de guitarras vaporosas e riffs ganchudos, a acústica forrando a melodia irresistível; A farsa do futuro enquanto Agora é esmerilhada em tecladões, arranjos bem colocados e, ouso dizer, Syd Barret meets The Band. Bom desse jeito. Vertigem de uma festa interestelar capricha nos slides e é intoxicante como um Buffalo Springfield perdido na floresta, reverberando pelas frestas dos galhos e folhas. Há espaço para baladas como O vôo da Margarida, que cresce de forma orgânica com seus teclados e guitarras colocados de forma cirúrgica na melodia. Cantiga da fumaça é mais do que o Neil Young em seus momentos mais reflexivos dos anos 70, uma emulação desvantajosa, é Bonifrate mostrando seu apreço por influências diversas e entregando em forma de versos e instrumental redondos.

Um Futuro Inteiro é dos mais inspirados e coerentes discos lançados no Brasil em 2011.Repetidas audições permitem novos olhares e as músicas só ganham qualidade, seja pela composição firme ou pelos truques deixados dentro das canções. O termo "belo" nunca soou tão verdadeiro. 8/10

Dá pra baixar o disco de graça no Bandcamp.

domingo, 27 de março de 2011

Tiê - A Coruja e o Coração


Se Sweet Jardim, debut da cantora e compositora Tiê foi ganhando admiradores de forma orgânica desde 2009, seu segundo album já representa um passo adiante para a geração que nasceu batalhando espaço na cena independente. O estilo minimalista, melódico e delicado daquele disco chamou a atenção para a capacidade de Tiê para compor pequenas peças cativantes. Vamos fazer um faixa a faixa de A Coruja e o Coração: novamente produzido por Plínio Profeta, dessa vez a abrangência sonora é bem maior do que no quase lo-fi Sweet Jardim:

Na Varanda Da Liz

Conduzida pelo piano e pelos arranjos de cello que remetem a um leve aceno ao pop setentista, a canção soa ensolarada e afetuosa, com uma atmosfera mais quente. Uma abertura que serve de exemplo para a sequência do album, entregando novos elementos mas mantendo a leveza característica.

Só Sei Dançar Com Você

Arriscar uma versão de Tulipa Ruiz pode parecer uma insistência na auto-referência da tal cena paulistana, ou coisa de panelinha. Mas Tiê não deve ter tido tais preocupações: seu modus operandi não parece contemplar esse tipo de atitude. O que temos aqui talvez seja a melhor forma de dizer que há diferenças marcantes entre os trabalhos, embora a música seja boa o suficiente para merecer uma releitura: com bateria marcante de James Muller, banjos e violões e a sanfona de Marcelo Jeneci, Tiê se distancia da rotulação preguiçosa que emenda os "novos paulistas" em uma só massa.

Piscar O Olho

Para os adoradores de canções mais folk e quietas, Piscar O Olho se aproxima das músicas mais antigas: entretanto, a atmosfera é menos melancólica. Com refrão marcante, aqui vemos outro truque de Tiê: pode até soar fofinha, mas há espinhos espalhados na letra: " E eu fiquei tão grande/e mastiguei meu coração...as vezes é mais saudável chegar ao fim"

Perto E Distante

O centro gravitacional do album: talvez a melhor composição de Tiê, uma canção que queima lentamente e cresce com trompetes, o Wurlitzer de Jeneci e uma reflexão um pouco mais profunda sobre as relações.

Pra Alegrar O Meu Dia

Como uma maneira de equilibrar o ambiente mais denso de Perto e Distante, um número folk pop recheado de banjos, corinhos e letras mais bem humoradas: "Já que não te tenho por perto/eu vou tomar um sorvete/pra alegrar o meu dia."

Já É Tarde

Mais vaporosa, é uma crônica de desejo e esperança. Discreta mas efetiva, num joguete de expectativa e receio, levada por arranjos leves.

Mapa-Múndi

Música de Thiago Pethit. Mesma análise sobre a versão para a música de Tulipa Ruiz: Tiê admira a belíssima melodia e a recria de forma a demonstrar que há respiros, nuances, que ficam evidenciados na entrega e que distinguem as esferas de trabalho entre eles.

For You And For Me

Quando acompanhada por menos aparatos, Tiê mostra que é capaz de soar efetiva com uma voz delicada. Sem bateria nem percussão aqui - assim como em Sweet Jardim.

Hide And Seek

Clima country-pop para essa canção de título em Inglês e letra em Português. Ao invés de lamentar romances perdidos, a cantora afirma que "vai buscar e procurar" o objeto de seu interesse.

Você Não Vale Nada

Ao regravar o sucesso popular do Calcinha Preta, Tiê demonstra sua audaciosa porém verdadeira atração pela música: alguns dirão que há ironia, outros reclamarão da escolha e ainda haverá ponderação sobre a "forma aprimorada" de se recriar um hit do povo. Quero acreditar que, o que ela enxergou foi apenas uma boa composição. A letra derramada e o violão flamenco dão a esquentada, enquanto a voz suave da cantora faz o contraponto exato para o equilíbrio final.

Te Mereço

Usando acordes similares á Te Valorizo, do disco anterior, o album se encerra de forma mais quieta, levada ao piano e uma letra bem elaborada.

Conclusão: A Coruja e o Coração é um disco ainda melhor do que o elogiado Sweet Jardim: não apenas por ser mais completo e abrangente no acompanhamento instrumental, mas por demonstrar a capacidade de uma compositora em se posicionar de forma segura: Tiê escreveu músicas mais impressionantes para esse disco, de cores mais quentes; Sweet Jardim era intimista, frágil e cativante; mas A Coruja... expande ainda mais a criatividade das letras - agora ainda mais intuitivas, sem desmanchar a leveza que fez fãs nos ultimos anos; incluindo a possibilidade de expandir suas canções para o chamber pop, o flamenco, o rock e o folk setentistas. Discreta, ela sabe que pertencer a grupos ou explicar nuances do processo de composição são dispensáveis: seus pequenos retratos instantâneos das relaçoes humanas dizem tudo que precisamos saber. 8/10

terça-feira, 1 de março de 2011

The Low Anthem - Smart Flesh


Pouca gente presta atenção, mas esse já é o terceiro disco do quarteto americano de Providence. Depois da atenção tardia dada ao segundo album Oh My God, Charlie Darwin, Smart Flesh é mais uma pequena obra prima desses caras. Alguém pode dizer que bandas com raízes profundas no folk e no country são como pragas, já foram chamadas de alt.country, americana e outros termos. Quase sempre fazendo a alegria de jovens que nunca ouviram nenhum disco de Pete Seeger ou Woody Guthrie, e nem fazem idéia do que representa realmente o folclore popular ancestral da Asia, ou mesmo da Europa. Inevitavelmente, essas bandas (e principalmente os trovadores torturados) vão parar em trilhas de filmes medíocres ou séries de tv, ilustrando cenas "melancólicas".

O Low Anthem não é nada disso. Eles não tocam seu violãozinho e reciclam bobagens. São músicos de verdade, tocam diversos instrumentos, trabalham harmonias vocais complexas e constroem paisagens belíssimas, sem apelações. O conhecimento musical deles vai além do trivial: quando voce acha que o disco caminha pra um minimalismo, entra um furacão; quando o vocalista abusa do falsete em uma canção, na próxima parece um Tom Waits do inferno.

Smart Flesh é menos delirante do que ...Charlie Darwin nesse sentido. É mais tranquilo e delicado, mas não menos elaborado. E é exatamente nessa aparente linearidade que se escondem os mais belos pedaços de música: Cada instrumento inserido parece dar cor a um determinado verso, ou mesmo quando há apenas a instrumentação e o silêncio, esse jogo é feito de forma tão magistral que praticamente dizima a "nata" da produção, aham, indie do gênero. Exemplo: Wire, sem vocais e tão efetiva.

Gravado em uma fábrica abandonada, o ambiente hermético e não usual pode ter trazido algum efeito de rádio AM para alguns sons, enquanto Ben Knox Miller canta sobre "levar suas cinzas". Não exatamente seu poeta abandonado comum. No final, Smart Flesh é um disco mais lento que seu antecessor, que ganha mais relevância com algumas audições repetidas, e se isso pode ser colocado como fraqueza, então que seja o ponto crítico do disco. Mas também vai demorar muito mais pra voce enjoar dessa coleção de músicas, que de velhas possuem apenas o formato: foram escritas por pessoas que vagam nesse mundo brutal, digital e rápido. E que transcrevem essas emoções por meio de acordes atemporais. 9/10

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Steve Mason - Boys Outside



Nesses estranhos dias que antecedem o reveillon, ás vezes buscamos conforto ou refúgio na música que deixamos esquecidas em algum ponto perdido no HD. Steve Mason me presenteou com um álbum que fora deixado de lado por meses. Mason foi o líder da banda pós Britpop Beta Band. Coroada por críticos no final dos anos noventa, o grupo teve trajetória errática. Quando do lançamento do seu primeiro disco (precedido pelos lendários 3 Eps), Mason deu uma entrevista detonando o próprio álbum. Esse episódio demonstrou as violentas variações de humor do compositor, característica que acabou por corroer as relações com os outros integrantes. Mesmo diagnosticado com transtorno psíquico, Mason não tratava os sintomas com medicamentos por achar que eles afetariam a sua criatividade.

Após o fim do grupo, Steve se viu diante de uma dívida financeira com sua antiga gravadora, além de problemas pessoais. Apesar de lançar dois projetos nesse período (King Biscuit e Black Affair), o escocês viveu episódios depressivos graves e contemplou suicídio: chegou a ficar duas semanas desaparecido após deixar uma mensagem obscura em sua página no Myspace: "I've had enough". Isso foi em 2006.

No começo desse ano, um renovado Mason tinha composições para lançar sob seu próprio nome. Recuperado graças ao amor pela música e bons medicamentos, Boys Outside soa como um retorno triunfante. Marcado por letras que resumem as feridas emocionais recentes, o álbum brilha com a combinação de composições tradicionais resvalando no folk rock britânico e sutis intervenções eletrônicas.

Apesar de a temática ser a de observar fatos passados sob uma perspectiva mais positiva, como uma espécie de reflexão e até mesmo de redenção, Mason evita os clichês auto-piedosos. Nem os versos nem o acompanhamento musical convergem para a imagem de "poeta torturado". Am I Just A Man é tão contagiante quanto um encontro de Dry The Rain (hit da Beta Band) com Lucky Man (Verve): "Oh, Am i just a man in love?/ Or am i just a boy out of touch? /Because i tried to go/I tried to last the difference/But God did not have the mentalness assistants". The Letter possui o refrão mais efetivo do rock inglês nos últimos anos, um tipo de fluidez entre a melodia grandiosa e a introspecção das letras incomum para as bandas mais novas.

Lost And Found é representativa do momento criativo de Mason, brilhando com uma confiança incrível: um conto sobre ser encontrado na beira de um rio, praticamente um ritual suicida contado sem meias palavras, a música fluindo como algo cheio de alma e coração, lindamente. A segunda metade do disco aprofunda ainda mais as emoções despejadas no início: I Let Her In é quieta e assombrada pelo passado: "i'll never fall in love again". All Come Down é talvez a balada mais redonda do disco, e nenhum tipo de crítica está embutida nesse comentário: melódica, reflexiva e ainda assim dolorosa e abrasiva, num mundo ideal isso seria um hino. A faixa título é uma espécie de auto afirmação, algo como deixar a zica de lado, de seguir em frente diante da escuridão inevitável.

Boys Outside se apresenta assim, como nesses estranhos dias finais do ano, repletos de emoções conflitantes, e esperançosos e ás vezes tristes e nostálgicos pensamentos. Soa lindo, com ou sem medicação. 9/10

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Beautiful AND Unplugged - Manics E Laura Marling

Quando Laura Beatrice nasceu, ele já era vocalista de uma banda galesa há quatro anos. No entanto, mesmo distantes em relação á idade, Laura Marling - nascida em 1990 - e James Dean Bradfield - vocalista e guitarrista do Manic Street Preachers - aparecem aqui fazendo o que fazem melhor: transformando suas incríveis vozes em canais de articulação emocional. As músicas são: Manics - Some Kind Of Nothingness, do álbum Postcards From A Young Man e Rambling Man, do álbum I Speak Because I Can, segundo da Laura:


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Johnny Flynn - Been Listening


O melhor retrato da diversidade de estilos no mundo pop atual talvez seja o folk praticado em terras britânicas. Gênero ancestral, o folk está sendo tocado por gente jovem, e ouvido por um público que só o conhecia por aproximação - o twee pop sempre teve um pézinho nas harmonias tradicionais do gênero, ok. Mas essa nova geração de músicos aprofunda o interesse para além de uma simples opção estética; eles bebem em fontes mais ricas, tanto do lado americano como da música das terras altas britânicas; são Dylan, Cash mas também Morrisson e Pentangle, Neil Young e Nick Drake. Gente como Laura Marling, Mumford And Sons, Stornoway são a ponta mais bem sucedida do pop inglês em terras americanas nesse ano.

Nessa linhagem também está inserido o ator-compositor Johnny Flynn. Been Listening é o segundo ábum dele e sua banda, The Sussex Wit. Alavancado pelo sucesso alcançado por seus colegas, Johnny não decepciona: para além de banjos e floreios superficiais, há um compositor de talento. Flynn une sua poesia com o trabalho sofisticado de sua banda. Os arranjos são inventivos e fazem muitas canções se aproximarem do baroque pop. No coração de tudo isso, enxergamos uma preocupação com a coerência: emular velhos clichês de autenticidade não sustentaria o trabalho, apenas lhe daria uma imagem falsa; ao invés disso, Flynn - assim como Laura Marling- assina com sua própria identidade uma música que apenas possui raízes muito profundas. Essas raízes não são desprezadas, apenas recebem uma dimensão adequada: o folk e suas matizes podem ser antigos, mas é possível ser um criador dentro do gênero.

Kentucky Pill abre o disco demonstrando um pouco de tudo o que foi dito acima: é urgente, possui ganchos pop e refrão contagiante. Logo na sequência, Lost And Found cativa pela delicadeza e beleza melódica, mesmo sendo montada em estruturas simples. Been Listening destaca o domínio de Johnny nessa alquimia folk-pop / indie rock, sem ser pedante. The Water, dueto com Laura Marling é uma balada lenta e intoxicante: a voz de Laura inevitavelmente eleva a canção e dimensiona Johnny como um vocalista instintivo, mas de limitações de alcance.

Dono de um disco de respeito, Johnny Flynn pode se orgulhar de não ser mais um nome perdido em meio ao hype do Nu-folk ou qualquer outro rótulo inventado para definir quem carrega o peso da comparação e a leveza de um banjo. 7,5/10

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Laura Marling - Como não amá-la?


Queridinha Laura gravou para o selo Third Man Records um single de 7 ": uma cover de Blues Run The Game, de Jackson C. Frank no lado A e The Needle And The Damage Done, do Neil Young pro lado B. Ambas as faixas produzidas por Jack White: Ouça abaixo:


Laura Marling, 'Blues Run The Game' by Tim Chester NME

Laura Marling, 'The Needle And The Damage Done' by Tim Chester NME

sábado, 25 de setembro de 2010

Badly Drawn Boy - It's What I'm Thinking Pt.1 - Photographing Snowflakes


Damon Gough é mais uma vítima da velocidade em que a cena pop descarta suas apostas; em 2000, esse inglês do norte foi alçado a uma categoria especial por seu primeiro disco, The Hour Of Bewilderbeast, vencedor do Mercury Prize daquele ano. Damon aparecia como um compositor trabalhando em um campo infértil até então na ilha britânica: com sabor indie e lo-fi, soava menos sério e circunspecto do que outros singer-songwriters. Como uma mistura de Beck com Elliot Smith, bebendo também em fontes locais, Badly Drawn Boy, sua alcunha artística, era a bola da vez: seu trabalho subsequente foi prover canções para a versão cinematográfica de About A Boy, romance de Nick Hornby. Parecia o ápice de sua carreira em termos de balanço entre reconhecimento da crítica e espaço no mainstream. No mesmo ano de 2002 foi lançado seu terceiro álbum, Have You Fed The Fish, subestimado pela crítica. Daí em diante, pouca gente se importou com seus outros dois discos, lançados em 2004 e 2006, respectivamente. Damon parecia desaparecer para uma categoria de artistas precocemente laureados, afundando-se em auto importância e falta de inspiração. Quando ele anunciou que trabalhava em uma trilogia, num recente fluxo de criatividade, bocejos surgiram. Entretanto, Photographing Snowflakes se impõe como uma verdadeira ressurreição artística após longo inverno. O frescor das músicas de seu debut reaparecem agora acompanhadas de uma concisão estilística: vinhetas dispensáveis são coisa do passado: aqui voce encontra dez canções trabalhadas com belos arranjos, sim, mas sem desperdício algum. É como o encontro da inocência do primeiro disco com as ambições mais diversas de Have You Fed The Fish. A mão de Gough para esculpir melodias bonitas reaparece adornada por uma recem adquirida confiança; a idéia era capturar um momento, gravar as músicas de forma dinâmica, como ser capaz de enxergar a mente e o coração do compositor em pleno funcionamento, e registrar isso em disco. Um trabalho tão difícil quanto fotografar os flocos de neve do título. É exatamente essa imagem que inspirou Damon a nomear esse álbum. O risco era soar incompleto, incipiente; a vantagem era reaver a simplicidade que o levou a ganhar o Mercury Prize. A inocência foi embora, as emoções agora são revividas de forma menos entusiástica, mais "adulta"; há momentos em que Damon soa mais como um cantor calejado, ainda queimando internamente, gerando uma narcótica beleza melódica entre violões, slide guitars, e letras mais realistas como em A Pure Accident: "The feeling comes from nowhere / and it takes you by surprise.../ from the ashes we will rise". Sonicamente o álbum lembra os momentos mais bucólicos do segundo álbum do Wilco, com acenos ao folk, ao country-rock e o pop. O início com Safe Hands estabele o padrão: desenrolando lentamente seu apelo na letra " I need you to help me", Damon Gough serpenteia entre a desilusão e a esperança, num folk desmontado e fragmentado. Too Many Miracles é o momento mais pop, com violinos e ambiente quase psicodélico desembocando numa gema á la Brian Wilson. Nem sempre a alquimia funciona perfeitamente, o que faz a segunda metade do álbum ser ligeiramente inferior á primeira. Mesmo assim, é um trabalho surpreendente, repleto de momentos belos e inspirados. Não é um retrato perfeito de um floco de neve em movimento, mas a tentativa resultou em outra imagem, imperfeita e humana. 8/10

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Entrevista: Rosie And Me



Não faz muito tempo que registramos aqui nosso apreço pela banda curitibana Rosie And Me. As melodias simples e incrivelmente doces da banda continuam a encantar (a ótima Jamie é prova disso), por isso conversamos com a Rosanne - dona da bela voz e das letras do grupo - sobre o aguardado álbum de estréia, internet e a possível participação no SXSW 2011; sobre o último assunto, vale a explicação: o South By Southwest ocorre anualmente em Austin, e transforma a cidade texana em centro agitadíssimo de shows, palestras, conferências sobre música nova e toda a onda que a acompanha: mídias, tecnologia, negócios, etc. A rádio Levi's levará a banda mais votada para tocar no festival americano em Março. Nota do blog: o SXSW perderá uma ótima atração se não tiver o Rosie And Me em sua escalação. Segue a entrevista:

MFTP: As músicas do Rosie And Me partem de uma base simples, mas percebo que o uso dos espaços, os arranjos e os vocais se harmonizam de um jeito que sugerem um cuidado especial, atento aos detalhes. Como funciona esse processo de composição?

Rosanne: a grande característica da nossa música é justamente essa simplicidade nas melodias e nas letras. Nossa meta é transmitir sensações por diferentes instrumentos: o ukulele e a flauta, em "Bonfires", por exemplo, deixam a faixa mais animada; já os violões de "Come Back" e "Darkest Horse" criam uma atmosfera mais calma e introspectiva, em que é possível se identificar com as experiências descritas nas letras. Nossas músicas falam sobre relacionamentos, decepções e crescimento, como se contassem uma história. Eu escrevo as letras no bloco de notas do Windows, com o violão no colo, e depois os meninos complementam o restante com arranjos.

Voces formaram a banda em 2006 e lançaram o EP anos depois. Esse tempo de "maturação" de uma banda é importante?

Sim. A formação da banda mudou bastante, perdendo e ganhando membros, até que o Rosie And Me atual se consolidasse. A gente cresceu muito desde os primeiros shows e hoje os ensaios são mais focados para apresentações ao vivo. O EP, lançado depois de tanto tempo, levou quase um ano pra ficar pronto, devido, sobretudo, à falta de recursos. Isso considerando todo o trabalho investido, desde a gravação até a produção gráfica, e material do CD físico.

Qual a importância da internet para a banda?

A banda começou a ficar conhecida graças aos ouvintes do site Last.fm e dos blogs estrangeiros, que deram uma chance para a nossa música. Durante esses anos, com a ajuda da internet, conseguimos conquistar um certo espaço no cenário independente.

É possível para uma banda independente no Brasil pensar em uma carreira internacional apenas pela distribuição /divulgação das músicas na web?

Acho difícil. A internet é fundamental para construir uma base sólida de fãs e despertar o interesse da mídia nacional e internacional. Porém, lançar uma carreira fora do país exige mais estrutura e recursos, coisa que a internet, sozinha, não proporciona.

Quando teremos o álbum de estréia do Rosie And Me?

Se tudo der certo, entraremos em estúdio em Outubro, com previsão de lançamento do nosso álbum completo para o começo de 2011.

Qual a expectativa com a possibilidade de tocar no SXSW em 2011?

Estamos bem engajados em conseguir votos para a promoção que a Rádio Levis lançou, que, ao final, vai escolher uma banda para representar o Brasil no SXSW, no ano que vem. É um grande sonho do Rosie And Me tocar lá fora, por isso, como agradecimento pelos votos recebidos, estamos enviando cópias digitais do nosso EP "Bird And Whale".

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Villagers - Becoming A Jackal



Irlandês. Poético. Orquestral. Violões. Ah, tudo pra poupar o seu tempo: se não gostou de alguma(s) característica(s) listadas, não ouça Becoming A Jackal, debut da banda liderada pelo vocalista e compositor Conor O'Brien. Porque o que se ouve aqui é essencialmente o que bandas como os Frames e o Bell X1 desbravaram antes, tornando esse tipo de pop-rock elaborado, bem tocado e escrito uma espécie de gênero irlandês pós U2. As três primeiras músicas dão o tom e abrem o disco de forma surpreendente: I Saw The Dead é quase uma valsa orquestrada, hipnótica, cheia de nuances; a faixa que dá título ao álbum é um número acústico que não estaria fora de foco nessa nova onda folk britânica de Mumford And Sons e Stornoway: vai te envolvendo quase sem esforço; e Ship Of Promises engata uma controlada tensão na levada percussiva e lembra o melhor do Elbow. O nível de qualidade se mantem principalmente pela capacidade de O'Brien de criar imagens através de letras que, mesmo que não primorosas, embalam poeticamente o trabalho de sua banda: trabalho esse que melhora quando se percebe que a preguiça foi deixada de lado: os mais óbvios movimentos parecem estar sempre sendo evitados na linha melódica, ora preenchida por uma levada folk, ora cheia de espaços e silêncios como em Home. A alma de trovador folk + pop-rock aparece em momentos como That Day, que começa devagar e vai crescendo até encontrar um refrão pegajoso. Assim, caminhando entre o rock elaborado, o pop bem arranjado e o folk, o Villagers vai colecionando uma sequência impressionante de boas canções. Parece ás vezes menos espontâneo que o desejável, mas mesmo assim merece atenção: está indicado ao Mercury Prize desse ano. 7,5/10

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Entrevista: The Amazing Broken Man



Você tem uma banda, mas monta um projeto paralelo para exercitar composições diferentes. Como de praxe, coloca suas canções no MySpace. Um produtor musical gosta do que ouve, e resolve usar não apenas uma, mas duas dessas canções para ilustrar cenas de um seriado britânico. O tal seriado é Skins, conhecida plataforma de lançamento de bandas novas e polêmicas pela crueza no trato de temas adolescentes. O tal projeto é The Amazing Broken Man, capitaneado por Odorico Leal, atualmente residindo em São Paulo por conta de um doutorado em Teoria da Literatura, mas com background geográfico passando por Piauí, Ceará e Minas Gerais. Com o EP "Lullabies For Western Babies" recheado de um intimismo folk hipnotizante, praticamente levado pela voz, violão e arranjos esparsos, Leal conquistou espaço num território em que muitas bandas novatas gringas adorariam habitar. Entretanto, isso não é o suficiente para que esse se torne seu principal projeto, como ele conta na entrevista concedida ao Music For The People:

O Amazing Broken Man começou como um projeto paralelo, mas ganhou espaço nos blogs e revistas. Ele se tornará um projeto principal?

Não. Meu projeto principal é com os músicos-compositores Gustavo Vidal e Ciro Figueredo, que temporariamente se chama October Leaves. E assim é, porque, basicamente, essa banda é infinitamente melhor do que qualquer coisa que eu faça sozinho. Basta ouvir a versão solo de "Rainbow Street" e comparar com a versão da October Leaves, que está no myspace da banda. É uma versão instrumental, que fizemos para uma trilha sonora. Mas, mesmo sem o canto, já está em outro nível.

Fale mais sobre a October Leaves: me parece algo bem diferente do projeto paralelo.

Bem, a October Leaves é bem diferente, até porque o principal compositor na banda não sou eu, mas o Gustavo Vidal, que acontece de compor as músicas mais fodas que eu tenho ouvido em anos. Que poderão ser conferidas em alguns meses, quando lançarmos o "Postmodern Bullshit", o disco em que estamos trabalhando. Para além disso, a sonoridade da banda é bem diferente da sonoridade folk-melancólica do The Amazing Broken Man.

Percebo uma preocupação com as letras nas músicas do Amazing Broken Man. Seus estudos acadêmicos influenciam nesse processo criativo?

Influencia, sim. Passando muito tempo na obra de um poeta você aprende muito sobre tudo, inclusive sobre você. E arte tem a ver com auto-conhecimento.

Pra finalizar, você agora vive em São Paulo. Sente influência da cidade no seu trabalho?

Influencia. Não tem praia aqui, então passo o dia no apartamento e a noite no apartamento, e esse estado de fantasma do apartamento de algum modo é inspirador.

MySpace:





Sequência em que "Near Town" é tocada. Bônus de Grizzly Bear no final:


quarta-feira, 21 de julho de 2010

Laura Marling - I Speak Because I Can



Tivemos a lista dos indicados ao Mercury Prize, prêmio inglês normalmente associado a palavras como "respeitável" e "prestigioso". Nomes como Wild Beasts, The XX, Paul Weller e alguns que já foram recomendados aqui mesmo: Foals e I Am Kloot. Aqui começa outra recomendação; esse album, o segundo da jovem Laura saiu no começo do ano e já foi devidamente escrutinado por aí. Esperei um pouco para falar dele, esperando uma certa "maturação" das impressões que tive nas primeiras audições. E a impressão mais clara é que Marling cresceu como compositora de forma espantosa em um espaço de um disco e poucos anos: o twee pop folk do primeiro disco era bastante interessante, e já mostrava que a inglesinha podia estabelecer um caminho longevo. Mas nada poderia nos preparar para "I Speak Because I Can". Modulando seus alcances vocais, criando imagens em primeira pessoa ou como personagens, Laura parece compor sem esforço como uma encarnação moderna de Nick Drake. Não sabemos muito sobre quais atribulações ela passou em sua vida pessoal, exceto pelo fato de que Charlie Fink (do Noah And The Whale) demonstrou o quanto a separação dos dois o afetou: ele escreveu um disco inteiro sobre isso. Nada que Laura não possa expressar de sua própria maneira: ela parece estar vivenciando grandes descobertas, e compoe sobre isso como uma adulta. Parece simples, mas isso envolve algumas habilidades que só compositores especiais possuem: Boa melodista, equilíbrio nos arranjos, letras que envolvem e punch: ouvir isso aqui pode ser como um soco no estômago. Exemplo em "Hope In The Air": Why fear death/ be scared of living/ oh, hearts are small and ever thinning/ there is no hope ever of winning". Não exatamente a eloquência de seu compositor indie-padrão; a substância dessas músicas vai além de cantar sobre clichês de escuridão/devassidão/hedonismo, etc. Claro, precisamos do pop solúvel, fácil e descompromissado. Mas a ausência de grandes letristas no cenário atual faz crescer ainda mais a luz sobre Laura Marling. 8,5/10

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Rosie and Me - Bird And Whale EP



Já uma sensação pelos blogs musicais do planeta, esse pessoal de Curitiba não decepciona: o EP Bird And Whale é uma bela surpresa: quando a gente vê esse pessoal do Mumford And Sons, Stornoway, Laura Marling e outros elogiados artistas encantarem platéias em Londres com seu folk-pop não imagina que existem bandas vivendo o mesmo caminho por aqui. Pode parecer fácil trafegar nesse panteão de violões mas insistir em fazer as coisas com tanta simplicidade é pra quem tem confiança e talento. O risco de soar referente demais ou, bem, um sonífero musical é grande. Rosie And Me evita esses clichês porque o senso pop deles arrebata o ouvinte: faça o teste com seus amigos e espere pela pergunta:"Que som é esse?".Esse é o tipo de música que soa familiar no sentido "chá-quente-em-casa-depois-de-um-dia-difícil-familiar",reconfortante e prazeroso. Aguardemos pelo álbum"'cheio" para confirmarmos a habilidade demonstrada aqui, mas por enquanto definiremos assim: Delicado, melódico e com o frescor que toda banda deveria ter. 8/10 Assista o belo vídeo de "Bonfires" e visite o site deles:

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Midlake - The Courage Of Others



Esses caras são do Texas, mas ouvindo esse terceiro album de estúdio deles parece que passaram a vida num vilarejo perdido na Inglaterra procurando cogumelos e vivendo comunalmente em harmonia com o sol, a terra, a água e o ar. O que faz perfeito sentido, já que os texanos são uns tipos meio bizarros e imprevisíveis. "The Courage Of Others" é aquilo que pode ser chamada de uma obra que ganha valor em repetidas audiçoes. Não pense que o som é "difícil"; na verdade, quem já ouviu grupos dos anos 70 da cena brit-folk como Pentangle e Fairport Convention irá reconhecer as harmonias vocais, violões que conduzem melodias circulares e arranjos que soam como o vento batendo em folhas...mas, de alguma forma, parece meio dispersivo e nauseante de início. Mesmo assim, quando repetimos a sequência de músicas, ouvimos algum detalhe diferente. Com insistência, tudo começa a fazer sentido, já que o que parecia repetitivo se torna coerente, e o que era nauseante vira intoxicante. Bem, vou explicar melhor: embrulhado nessa floresta folk rock existem grandes melodias, que só mostram seu rosto diferenciado quando já estamos repetindo a audição várias vezes: conclui-se que a banda construiu tudo isso como um quebra cabeças, em que as peças se encaixam belamente para uma fotografia final em sépia. Portanto, deixe seu cabelo e barba crescerem, seu druida tomador de chá. 8/10

domingo, 6 de junho de 2010

Jamie T - Emily´s Heart

Jamie T é um belo cronista das coisas mundanas e simples. Esse vídeo é simples e bonito como a própria canção:

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Laura Marling - Rest In The Bed

A ótima cantora inglesa já lançou um álbum muito bom esse ano "I Speak Because I Can", mas essa canção, apresentada em versão ao vivo na rádio americana WNYC, vai estar presente no próximo disco, a ser lançado ainda em 2010: