Single do disco The High Flying Birds, estreia solo de Noel Gallagher, The Death Of You And Me sai oficialmente dia 21 de agosto. O album sai dia 17 de outubro. O vídeo já está por aqui, e parece que o Beady Eye acaba de se tornar totalmente irrelevante mesmo...
Rolou em Toulouse, na França, na última quarta (25), o primeiro show do Pulp depois da reunião. Já agendados para tocar em diversos festivais europeus, a preocupação de Jarvis Cocker de "não assassinar as próprias canções" pareceu infundada. O vídeo abaixo mostra a rendição da clássica Do You Remember The First Time?, e nem parece que os caras estavam parados há tanto tempo. Será que Jarvis e cia. não fariam uma viagem á terras distantes no segundo semestre? Aguardemos...
Impossível não mergulhar nesse admirável novo mundo da velocidade da informação, da ansiedade e da babaquice em geral. Evidente que essa banda já foi tema de um post aqui mesmo nesse blog. E que já foi ventilada como a melhor coisa desde sempre, blablabla. A própria banda, reconhecendo a inpossibilidade de entregar o produto que esperam, nomeou seu disco de forma irônica. Então, vou fingir que nunca ouvi falar de tais rapazes londrinos e acabei de receber meu CD (sou antigo), e deslacrei.
A sensação mais clara é que a produção deixou as nuances de lado e partiu pra apelação das compressões e volumes altos nos instrumentos, principalmente as guitarras. A banda ataca as canções com a energia necessária, e as melodias, simples, bebem na fonte de Ramones, bandas vocais dos anos sessenta (não muito diferente do som dos Raveonettes) e algum cheiro de punk Clash. E obviamente - desde o fato de nomear o disco de forma a revelar suas limitações - os Strokes. A diferença é que o Vaccines não emula o som do quarteto novaiorquino; realmente, alguem precisa avisar aos críticos cuja idade mental é de quinze anos (ou seriam realmente moleques escrevendo? hummm...) que músicas rápidas, roqueiras e grudentas não foram inventadas no Is This It?.
São onze músicas, incluindo as já conhecidas Wreckin'Bar e Post Break-Up Sex. Não dá pra imaginar moleques ouvindo isso e partindo loucamente para uma vida de drogas e rock e destruição. Mas na repetitiva porém verdadeira afirmação de que o pop vai se reciclando, talvez adicionando um folego que vai se perdendo, o album é muito válido. Rock delicioso, sem arestas, rápido e rasteiro. Como já falado, nuances não são a tônica aqui, então há uma certa linearidade que só evita a repetição pelo poder dos refrões e inspiração dos garotos. Dito isso, não ouvi nada tão efetivo na área indie-rock grudento em anos. Me lembra o caso da esquecida banda de Chicago Smoking Popes, que tocava na mesma base coberta pelo Vaccines, exceto pelos vocais de crooner. Eles não mudaram o mundo, mas tiveram uns dois bons discos antes da decadência.
All In White é um indício de que o Vaccines pode trabalhar um pouco fora de seu estilo rapidez/ganchos e incluir climas interessantes na fórmula. Mas aguardemos pelo próximo disco, que fatalmente será destruído pelos pós adolescentes críticos do mundão. Foda-se, ouça esse disco, os caras são bons. 8/10
Valhalla Dancehall é o melhor disco do British Sea Power. A música que abre o disco pergunta "quem está no controle" e é um belo exemplo da pegada do album. Sem politizar nenhuma canção, o vídeo segue a excentricidade das letras e mostra protestos violentos, como os de Londres, mas termina com todo mundo pelado e dançando:
O Frankie And The Heartstrings é uma banda inglesa de Sunderland, e seu disco de estréia Hunger está saindo agora em fevereiro. O álbum fica balançando entre referências oitentistas com alguma pegada mais garageira e sujinha. É como se os caras resolvessem dar vida ao Dexy's Midnight Runners ou o Orange Juice ou mesmo o Felt. Uma versão inglesa de uma banda americana nova que soa inglesa: The Drums. Hunger não funciona o tempo inteiro porque o vocalista ás vezes é histriônico e as referências são tão preguiçosas que resvalam no plágio - o motivo exato de Blister In The Sun, que óbvio, já utilizava elementos e quebras melódicas antigas, estar aqui no texto. A banda Violent Femmes, mais uma dos anos oitenta, de alguma forma criou uma espécie de clássico daquela década, portanto serve como referência. Tender, do Frankie And The Heartstrings chupa quase todos os truques do Gordon Gano. Mas nem tudo é imprestável nesse debut: quando as guitarras e a energia frenética de Frankie se encaixam, o objetivo de soar contemporâneo e divertido é alcançado.
Exemplos de bons momentos abaixo: Fragile é simples e bonita, faria Kevin Rowland orgulhoso. Hunger é agitada como uma música dos conterrâneos Futureheads com um delicioso gosto pop demente. Irregular, como a própria cena de "indie rock" britânica nos últimos anos. 6/10
Eu não sei, esse será o segundo single dessa banda londrina formada no ano passado (sim,2010). O primeiro, Wreckin' Bar (Ra Ra Ra) era uma canção rápida e curta (um minuto e pouco). Punk bubblegum setentista esquema Ramones. O lado B soava mais lento e igualmente melódico ( Blow It Up). A diferença entre o Vaccines e outras bandas novatas é que as músicas realmente possuem um potencial de reciclagem pop mais refinado: soam totalmente familiares, mas são sujinhas e grudentas. O single Post Break-Up Sex será lançado oficialmente nos próximos dias. O álbum nomeado What Did You Expect From The Vaccines? sai em Março. Acontece que o grupo já tocou no prestigiado programa da BBC Later with Jools Holland, e é apontado como a grande sensação de 2011. Estamos em janeiro?
O "eu não sei" do início do texto é a minha opinião sobre eles. Só ouvi essas três músicas. São boas (duas) e ótima (Post Break-Up Sex). Parecem bem seguros e aparentemente possuem outras balas no cartucho - a julgar pela impressão do show de estréia deles em Outubro passado pelo Guardian -, portanto é possível que o disco cheio seja bem divertido. Sejamos coerentes: não é preciso matar o rock pro Vaccines ressuscitar o gênero, nem desprezá-los só porque são a bola da vez. Todo mundo sabe que, se resistirem mais alguns anos, os mesmos que os elogiam hoje provavelmente estarão detonando a banda. Assim funciona o mundinho indie, fechado e pedante. Eu torço pra que o Vaccines siga um rumo determinado, alheio aos alimentadores do hype.
Com previsão de lançamento oficial em 15 de fevereiro no Reino Unido, a estréia da banda londrina Yuck já chegou aos ouvidos de muitos: o álbum vazou há alguns dias. Apontada como possível destaque de 2011 das já tradicionais listas da imprensa inglesa, o quinteto chega credenciado por ótimos singles e pelo menos um belo clipe - já postado aqui.
Fundada por dois membros da finada Cajun Dance Party, o Yuck recrutou uma japonesa e um americano para completar o line -up. E ainda tem uma menina que faz backing vocals. Basear o seu som em uma estética dos anos noventa possui suas armadilhas. A mais óbvia é soar como uma versão deslocada de algo que já foi bom (Beady Eye, hellloo?). Outra é parecer uma versão raquítica de bandas claramente adoradas nesses tempos. De alguma maneira, o Yuck conseguiu evitar esses erros. Como?
As canções são o centro gravitacional de qualquer análise. Se alguém aposta em estruturas e batidas diferentes pode criar algo original, mas se mal construídas a forma e a entrega, não temos canções, o que invalida a possível "boa intenção". Basicamente, o que ouvimos aqui é o inverso dessa teoria. O cenário explorado pelos ingleses é extremamente povoado, e algumas vacas sagradas são invocadas. Guitarras distorcidas, melodia o tempo todo, letras simples e melancólicas: Teenage Fanclub, Ride, Pavement, Dinosaur Jr. Quantas bandas já exploraram esse terreno nos últimos vinte anos?
O que realmente diferencia o Yuck de outras bandas esquecidas ou de mero pastiche são as canções: fortes, enérgicas, com variações dentro do esquema powerpop-noise e personalidade. O início do disco remete ao Teenage Fanclub de Bandwagonesque, um rolo compressor de ganchos areebatadores, guinchos guitarrísticos e dinâmica pop: Get Away e The Wall já conquistam o ouvinte de cara. Os momentos mais introspectivos mesclam um lado mais acústico como uma canção de Lou Barlow: Shook Down e Suicide Policeman. O single Georgia resvala num shoegaze redondo, como um encontro My Bloody Valentine com o Big Star. A segunda metade do álbum guarda momentos realmente sublimes, que apontam para um caminho mais suculento: a balada Suck é uma espécie de equivalente contemporânea de Here, do Pavement: a melodia flui acompanhada por riffs corretos e certeiros. Stutter é praticamente uma continuação desse tipo de canção lenta, com um frescor que os velhos discos do Death Cab For Cutie possuíam. Acredite: todo esse name dropping não serve apenas para ilustrar o som dos caras: é algo que está no DNA dessas músicas, porém elas brilham como composições novas e originais.
O Yuck simplesmente engarrafou o sonho molhado dos fãs do indie-pop guitarreiro dos anos noventa, entregando um disco repleto de momentos de arrepiar. Você estará sorrindo ou realizando manobras de air guitar (Operation); ou observará gotas de chuva pela janela ao som de lamentos singelos (Sunday) ou lisérgicos (Rubber). O ano começou muito bem. 8,5/10
Nesses estranhos dias que antecedem o reveillon, ás vezes buscamos conforto ou refúgio na música que deixamos esquecidas em algum ponto perdido no HD. Steve Mason me presenteou com um álbum que fora deixado de lado por meses. Mason foi o líder da banda pós Britpop Beta Band. Coroada por críticos no final dos anos noventa, o grupo teve trajetória errática. Quando do lançamento do seu primeiro disco (precedido pelos lendários 3 Eps), Mason deu uma entrevista detonando o próprio álbum. Esse episódio demonstrou as violentas variações de humor do compositor, característica que acabou por corroer as relações com os outros integrantes. Mesmo diagnosticado com transtorno psíquico, Mason não tratava os sintomas com medicamentos por achar que eles afetariam a sua criatividade.
Após o fim do grupo, Steve se viu diante de uma dívida financeira com sua antiga gravadora, além de problemas pessoais. Apesar de lançar dois projetos nesse período (King Biscuit e Black Affair), o escocês viveu episódios depressivos graves e contemplou suicídio: chegou a ficar duas semanas desaparecido após deixar uma mensagem obscura em sua página no Myspace: "I've had enough". Isso foi em 2006.
No começo desse ano, um renovado Mason tinha composições para lançar sob seu próprio nome. Recuperado graças ao amor pela música e bons medicamentos, Boys Outside soa como um retorno triunfante. Marcado por letras que resumem as feridas emocionais recentes, o álbum brilha com a combinação de composições tradicionais resvalando no folk rock britânico e sutis intervenções eletrônicas.
Apesar de a temática ser a de observar fatos passados sob uma perspectiva mais positiva, como uma espécie de reflexão e até mesmo de redenção, Mason evita os clichês auto-piedosos. Nem os versos nem o acompanhamento musical convergem para a imagem de "poeta torturado". Am I Just A Man é tão contagiante quanto um encontro de Dry The Rain (hit da Beta Band) com Lucky Man (Verve): "Oh, Am i just a man in love?/ Or am i just a boy out of touch? /Because i tried to go/I tried to last the difference/But God did not have the mentalness assistants". The Letter possui o refrão mais efetivo do rock inglês nos últimos anos, um tipo de fluidez entre a melodia grandiosa e a introspecção das letras incomum para as bandas mais novas.
Lost And Found é representativa do momento criativo de Mason, brilhando com uma confiança incrível: um conto sobre ser encontrado na beira de um rio, praticamente um ritual suicida contado sem meias palavras, a música fluindo como algo cheio de alma e coração, lindamente. A segunda metade do disco aprofunda ainda mais as emoções despejadas no início: I Let Her In é quieta e assombrada pelo passado: "i'll never fall in love again". All Come Down é talvez a balada mais redonda do disco, e nenhum tipo de crítica está embutida nesse comentário: melódica, reflexiva e ainda assim dolorosa e abrasiva, num mundo ideal isso seria um hino. A faixa título é uma espécie de auto afirmação, algo como deixar a zica de lado, de seguir em frente diante da escuridão inevitável.
Boys Outside se apresenta assim, como nesses estranhos dias finais do ano, repletos de emoções conflitantes, e esperançosos e ás vezes tristes e nostálgicos pensamentos. Soa lindo, com ou sem medicação. 9/10
O British Sea Power é uma das bandas que mais divide opiniões no cenário pop/indie mundial. Sempre no "quase" pra estourar comercialmente no Reino Unido e praticamente desconhecidos nos EUA, o pessoal de Brighton prepara seu quinto disco, entitulado Valhalla Dancehall para Janeiro. O vídeo abaixo é de Living Is So Easy, primeiro single extraído do novo álbum:
Quarteto de Londres: Sorry é o primeiro - e único, por enquanto - single lançado. A página dos caras no Myspace só possui uma outra canção em streaming de áudio ( a boa Get Closer ). Se eles não caíram na armadilha do hype, talvez tenhamos um belo álbum a caminho: pra quem gosta do seu indie-pop ao estilo clássico: melancólico, curto e direto, com uma melodia matadora e referências bacanas. A investigar:
Adoramos conexões entre a música pop e o cinema. Ou qualquer conexão que envolva música pop, até mesmo arte de rua. Se for inesperada, melhor ainda. As cenas iniciais de Exit Through The Gift Shop, o super-hiper falado "filme do Banksy", são ilustradas por uma bonita balada, com um certo arranjo grandioso á la Phil Spector. Nada de música eletrônica, hip-hop ou hardcore (usualmente relacionadas com a street-art). Surpreendente, embora ilustre perfeitamente a saga daqueles que tomam as ruas para si ao anoitecer.
Recapitulando: A música é Tonigh The Streets Are Ours, do Richard Hawley. Hawley é de Sheffield, e antes de encarnar o crooner em sua carreira solo, foi guitarrista do Longpigs e do Pulp. A música não é inédita e nem mesmo recente - é do álbum Lady's Bridge, de 2007 - mas joga luz sobre o sólido trabalho de Richard. São cinco álbuns de estúdio e a admiração de gente como Alex Turner (Arctic Monkeys) e Jarvis Cocker. Antes um coadjuvante como hábil guitarrista, quando mostrou sua voz ao mundo em 2001, surpreendeu: suas composições invocavam um passado rebuscado, e seu tom grave fazia todo sentido nessa busca gospel-rock-blues Presleyano.
Banksy é o artista britânico que faz uso do grafitti, pintura, stencil, intervenções urbanas para mostrar seu lado ativista, contestador. Originário de Bristol, sua arte já ganhou as ruas para além de sua cidade natal e rendeu muitos prêmios e polêmicas. Uma das mais interessantes intervenções envolvendo a pop music foi sua "reinvenção" do disco de estréia da Paris Hilton. Banksy utilizou 500 cópias do disco, alterando a capa: uma tinha a Paris de topless (fake), outra tinha a cabeça de um cachorro no lugar do rosto, e outra mostrava Paris saindo de um carrão com imagens inseridas de sem-teto. 48 lojas inglesas receberam essas cópias, e antes que fossem identificadas, consumidores conseguiram adquirir um verdadeiro produto pop: um disco que possuía remixes do Danger Mouse, uma capa do Banksy e músicas com títulos como: Why Am I Famous?, What Have I Done? e por aí.
Então que Exit Through The Gift Shop é o primeiro filme do Banksy. Como ele não mostra o rosto e sua voz só é ouvida de forma distorcida, o mistério faz parte de sua persona artística. Seu filme não é menos misterioso. Alguns o consideram um documentário, outros uma obra de ficção bastante engenhosa.
Conexões feitas, me lembro de trocar e-mails com Mister Hawley no início da década. Ele sempre mostrou grande entusiasmo com a música mais antiga, dizia que não conhecia quase nada novo, nem tinha vontade de conhecer. Dez anos depois, o low-profile Richard e o "guerrilheiro" Banksy se encontraram, para tomar as ruas do mundo.
Parte da elite do Britpop nos anos noventa, o Pulp vai se reunir em 2011, conforme anúncio feito na última segunda-feira (8). Com o Blur e o Oasis, o grupo de Jarvis Cocker se perpetuou como representante legítimo de uma era, ainda que essa era tenha durado alguns poucos anos. Entre 1994 e 1996, o mundo girava em torno da ilha britânica, fervilhando com Trainspotting nos cinemas, o futebol e o despertar de um interesse ancestral do orgulho britânico ( que se reveza eternamente com a não menos ancestral auto-depreciação ). Damon Albarn e os irmãos Gallagher podiam brigar pelos holofotes, mas aquela figura magra e estranha - Jarvis não era um rapazola e o Pulp já era veterano do indie inglês - parecia o contraponto perfeito para a batalha de celebridades: o Pulp ganhou o sucesso de verdade com uma canção sobre uma garota rica se misturando com "gente comum" e Cocker invadiu heroicamente uma apresentação particularmente patética de Michael Jackson no Brit Awards de 96. Durante o próximo verão no hemisfério norte, a formação mais bem sucedida do Pulp estará de volta aos palcos. Certamente serão headliners de algum grande festival inglês. O Primavera Sound, que rola em Barcelona foi o primeiro a anunciar a banda como atração principal. Aqui uma pequena retrospectiva:
O início do reconhecimento popular: do álbum His'n'Hers, de 1994, Babies e Do You Remember The First Time?
O clássico maior de Different Class, álbum de 1995: Common People
Após a ressaca do Britpop e alguns ataques de pânico, saiu o álbum "perturbado" This Is Hardcore, em 1998.
Damon Gough é mais uma vítima da velocidade em que a cena pop descarta suas apostas; em 2000, esse inglês do norte foi alçado a uma categoria especial por seu primeiro disco, The Hour Of Bewilderbeast, vencedor do Mercury Prize daquele ano. Damon aparecia como um compositor trabalhando em um campo infértil até então na ilha britânica: com sabor indie e lo-fi, soava menos sério e circunspecto do que outros singer-songwriters. Como uma mistura de Beck com Elliot Smith, bebendo também em fontes locais, Badly Drawn Boy, sua alcunha artística, era a bola da vez: seu trabalho subsequente foi prover canções para a versão cinematográfica de About A Boy, romance de Nick Hornby. Parecia o ápice de sua carreira em termos de balanço entre reconhecimento da crítica e espaço no mainstream. No mesmo ano de 2002 foi lançado seu terceiro álbum, Have You Fed The Fish, subestimado pela crítica. Daí em diante, pouca gente se importou com seus outros dois discos, lançados em 2004 e 2006, respectivamente. Damon parecia desaparecer para uma categoria de artistas precocemente laureados, afundando-se em auto importância e falta de inspiração. Quando ele anunciou que trabalhava em uma trilogia, num recente fluxo de criatividade, bocejos surgiram. Entretanto, Photographing Snowflakes se impõe como uma verdadeira ressurreição artística após longo inverno. O frescor das músicas de seu debut reaparecem agora acompanhadas de uma concisão estilística: vinhetas dispensáveis são coisa do passado: aqui voce encontra dez canções trabalhadas com belos arranjos, sim, mas sem desperdício algum. É como o encontro da inocência do primeiro disco com as ambições mais diversas de Have You Fed The Fish. A mão de Gough para esculpir melodias bonitas reaparece adornada por uma recem adquirida confiança; a idéia era capturar um momento, gravar as músicas de forma dinâmica, como ser capaz de enxergar a mente e o coração do compositor em pleno funcionamento, e registrar isso em disco. Um trabalho tão difícil quanto fotografar os flocos de neve do título. É exatamente essa imagem que inspirou Damon a nomear esse álbum. O risco era soar incompleto, incipiente; a vantagem era reaver a simplicidade que o levou a ganhar o Mercury Prize. A inocência foi embora, as emoções agora são revividas de forma menos entusiástica, mais "adulta"; há momentos em que Damon soa mais como um cantor calejado, ainda queimando internamente, gerando uma narcótica beleza melódica entre violões, slide guitars, e letras mais realistas como em A Pure Accident: "The feeling comes from nowhere / and it takes you by surprise.../ from the ashes we will rise". Sonicamente o álbum lembra os momentos mais bucólicos do segundo álbum do Wilco, com acenos ao folk, ao country-rock e o pop. O início com Safe Hands estabele o padrão: desenrolando lentamente seu apelo na letra " I need you to help me", Damon Gough serpenteia entre a desilusão e a esperança, num folk desmontado e fragmentado. Too Many Miracles é o momento mais pop, com violinos e ambiente quase psicodélico desembocando numa gema á la Brian Wilson. Nem sempre a alquimia funciona perfeitamente, o que faz a segunda metade do álbum ser ligeiramente inferior á primeira. Mesmo assim, é um trabalho surpreendente, repleto de momentos belos e inspirados. Não é um retrato perfeito de um floco de neve em movimento, mas a tentativa resultou em outra imagem, imperfeita e humana. 8/10
As descrições do som dessa banda são tão variadas que, antes mesmo de ouvir o disco, voce coça a cabeça pensando: "Mais uma banda cheia de informação sem saber o que fazer com isso" ou "pretensiosos" ou, simplesmente "deve ser chato". Confesso que, na primeira audição, as concepções acima pareciam corretas: Harmonias vocais pomposas, batidas eletrônicas, ocasionais apelos ao afro-pop, teclados demais, letras cheias de citações...um art-pop bem produzido e sem alma. Mas esse pessoal do norte da Inglaterra tinha mais a oferecer. Uma nova audição permitiu a revelação de camadas refinadas de um pop mais esperto do que "inteligente". Parte do DNA do Everything Everything reside em outros construtores de canções multifacetadas: XTC e Blur , cada qual operando em seus próprios ambientes, experimentaram a mutação da tradicional linha genealógica da música britânica. O EE nasceu em outro ambiente, em um cenário já pouco definido, fazendo com que os delírios de testar a elasticidade e os extremos do pop soassem diferentes. De fato, difícil alinhar essa banda com outras contemporâneas: Field Music, pelas harmonias vocais e classicismo melódico; Yeasayer, pelo psych-electro-pop; Vampire Weekend pela aproximação com as cores mais oitentistas do world-pop. Exceto que Man Alive não é nada parecido, como álbum mais do que canções separadas, com essas outras bandas. Talvez ser cabeçudo e nerd exija um certo grau de coragem e auto-confiança na música: conhecer tanta coisa e não ter vergonha dessa obsessão pode acabar resultando em uma banda apreciativa e fria. Juntar isso com talento e certa arrogância pode acabar como um caleidoscópio; o Everything Everything é dançante sem ser descarado, pop sem referências muito óbvias, e toca como uma banda de indie rock, com desapego e suor em doses certas. MY KZ YR BF e Schoolin' chacoalham sutilmente, Qwerty Finger é frenética e coloca frente a frente os vocais harmonizados em trio com um começo rock para desaguar num final inesperado; Sufragette Sufragette é um Foals fazendo jam com o Queens Of Stone Age(!?); Leave The Engine Room é bonita e desacelerada; Impressiona que, apesar desses pontos altos se destacarem, as outras músicas não são apenas coadjuvantes menores, há sempre uma emoção diferente reservada para aqueles que suportarem um inicial estranhamento. Nada mal para um debut; á sua própria maneira, Man Alive é um delicioso prato a ser degustado com calma. 8/10
Por volta de 1994-1998 a Inglaterra fervia com o Britpop de Oasis, Pulp, Blur, com o filme Trainspotting, com a moda, os trabalhistas de volta ao poder e os pubs recheados de celebridades desse mundinho, mas também com a ascensão da música eletrônica com o Prodigy e os Chemical Brothers. O lado underground da eletrônica era o jungle/drum 'n bass, gênero em que reinava um certo Goldie. Seu álbum Timeless foi até recebido com certa euforia na época. Em 98, ele lançou um single com o Noel Gallagher - Temper Temper - época em que o Cool Brittania já ia se afundando na tensão pré-milênio do OK Computer. Bem, os dois personagens vivem hoje situações diferentes, assim como a sociedade jovem na Inglaterra: Noel disse adeus ao Oasis, e prepara sua carreira solo: não sabemos se Noel seguirá a cartilha professada pela sua antiga banda e se agarrar ao rock "neanderthal"ou suas preferências mais diversificadas darão as caras - hip-hop com Neil Young? Dubstep com The Jam?. Já o Goldie vive um drama pessoal: a onda de gangues juvenis na Inglaterra atingiu sua família: Jamie Price, seu filho, foi sentenciado á prisão perpétua por assassinar Marlon Morris em agosto de 2008. Jamie esfaqueou Morris quatro vezes. Eles pertenciam a gangues rivais: Pendeford Crew e Heath Town. O juiz relatou ao ler a sentença: "A recusa das gangues em aceitar as leis, aliada ao fato de desejarem impor seu próprios métodos anárquicos, não pode ser tolerada pela sociedade. Num caso como esse, não há vencedores, apenas perdedores. Todos os envolvidos aqui tiveram uma perda, uma perda significante, seja pela sentença de vida (encarcerada) ou de morte". Coisa pesada. Adeus tempos festivos, conheçam a Inglaterra dos conservadores no poder, e as tensões entre imigrantes, economia frágil e jovens perdidos. Ainda acho Temper Temper ótima: tem mais a ver com o clima pós-tudo de hoje.
Sobreviventes: essa é a melhor definição para os Charlatans. Os caras surgiram no vácuo do sucesso do Stone Roses no final dos anos oitenta e estão lançando seu décimo primeiro álbum. Nesse processo, sobreviveram a morte do verão do amor mancuniano, á invasão grunge, ao Britpop nascendo e morrendo, á nu-rave, aos Strokes, ao Libertines e a perda de Rob Collins, tecladista que faleceu em um acidente de carro em 1996. Com uma discografia relativamente sólida, a banda nunca decolou: sempre são considerados sub- alguma coisa. Já foram acusados de imitarem os Roses, o Oasis, o Primal Scream...improvável que Who We Touch, disco que falaremos aqui, reverta essa sina.
Depois de flertarem com o reggae (!?) em Simpatico e lançarem o regular You Cross My Path, o Charlatans parecia caminhar para o fim de carreira. Talvez a total falta de expectativa em relação a um novo lançamento tenha ajudado a refletir o estado de surpresa e perplexidade diante do poder de Who We Touch. O primeiro single, Love Is Ending possui uma introdução cacofônica, uma levada Sex Pistols nos riffs, clima Joy Division e refrão Britpop. Mais do que um apanhado de clichês, no entanto, a música mostra uma banda com toda a expertise de anos tocando, mas com o vigor adolescente da fúria e entusiasmo. É um cartão de visitas que poderia deixar as demais canções menores em comparação, mas My Foolish Pride segura a onda como um velho Charlatans na levada de teclados e construção melódica bonita desaguando no refrão pop. Outras pérolas estão espalhadas pelo álbum: Your Pure Soul mostra Tim Burgess carregando os versos com uma leveza que muita gente não acreditaria ser possível quando era rotulado de imitador: " I'm tired of myself /tried to control/your pure soul". Uma trinca impecável, abrindo um album que, a princípio, não prometia nada a não ser nostalgia. Smash The System volta a um caminho mais escuro, equilibrando a metralhadora pop inicial. Lenta, climática, com incrível trabalho instrumental da - desculpem o exagero neologístico - cozinha charlataniana - vai intoxicando o ouvinte lentamente. Intimacy também é criada como uma melodia circular, psicodélica, com um clímax repentino, como uma explosão de cores num cenário antes sombrio. A segunda parte do disco retoma o clima rocker do baixo trepidante, enquanto Burgess vai brincando com o vocabulário em Sincerity. Outra característica do grupo, os teclados marcando a melodia, fica evidenciada, caso o ouvinte desavisado acredite estar ouvindo uma banda recém saída da escola. A coesão de Who We Touch nos obriga a praticamente citar todas as suas dez canções, o que é bastante incomum.
Mas o título de melhor fica mesmo para Trust In Desire: a melhor composição do Charlatans desde o álbum Tellin Stories (1997), é aquele hit que eles sempre ficaram devendo para realmente estourar comercialmente fora da ilha. Linda, liricamente ispirada: " And in my dreams/ you kiss my head/ for all my little victories... Trust In desire/ i will follow you / I will inspire you / will you help me too?"Infelizmente, o Britpop morreu há mais de uma década, então esse potencial single será destinado ao esquecimento. Diante dos fatos, não resta dúvida: Who We Trust é um dos melhores discos de 2010 que não aparecerá em nenhuma lista de melhores de 2010. E essa outra característica do Charlatans, a de subestimados provedores de belos discos sem reconhecimento nos leva a designar outro adjetivo a eles, como cantado em Trust In Desire: " A hero, a hero never dies". 9/10
Os irmãos Jarman lançam mais um single one-off, tradição desses ingleses: a música não esteve no álbum Ignore The Ignorant (2009) nem estará no próximo disco. Johnny Marr parece ótimo com esses caras:
Neil Hannon está de volta. O Divine Comedy está de volta. Notícia que nem de longe abala as estruturas da blogolandia indie brasileira, ainda comovida pelo retorno ao vivo dos Strokes ou da possibilidade do Pavement reunido aparecer por aqui. Nomes titânicos como esses geram reaçoes em cadeia de histeria, mesmo que nada novo esteja sendo lançado por essas bandas. O Pixies já é o Rolling Stones indie, dinossauros arrastando seu passado em shows caça-níqueis para pessoas que acham que "Where is My Mind?" foi escrita para o filme "Clube Da Luta". Paciência. Enquanto isso, Hannon, poeta dândi norte irlandês, segue criando belas obras como esse "Bang...". Pouca gente lembra, mas o Divine apareceu timidamente no início dos anos noventa, e chegou a ter popularidade no Reino Unido lá pelo meio daquela década. Com estilo de pop enfeitado por orquestraçoes e letras construídas com humor e sagacidade, ganhou fãs na rebarba do britpop de bandas como o Pulp (com o qual Hannon possui ligação na vibe parecida com a de Jarvis Cocker). Com o fim das vacas gordas para quem não andava de jeans skinny, cortes de cabelo ruins e tênis Converse, o Divine Comedy caiu no ostracismo, apesar de ter lançado três bons álbuns na década de 2000. Esse retorno não parece uma reinvenção mirando fãs do Phoenix, já que soa exatamente como os álbuns anteriores: o já mencionado pop orquestrado, de letras nunca menos que interessantes. A única possibilidade de captura do zeitgeist aqui é a menção ao declínio financeiro gerado pela crise econômica recente em "The Complete Banker". Entretanto, a canção não é cercada pela paranóia digital de MIA ou da ansiedade e fobia do Radiohead: Hannon assume mais uma personagem de visão auto depreciativa de humor torto. O que mantém o conteúdo soando anacrônico, mesmo numa cena tão diversa. Não é má notícia. Já estamos vendo que a "bastardização" de ícones indie recentes tem gerado imitações medíocres: já contou quantas bandas electropop existem por aí? Ou electro-rock? Ou sub-Strokes? Bacana ouvir algo que, por soar fora de moda, já ganha pontos, mas não se sustenta apenas pela teimosia: a qualidade do trabalho de Neil Hannon (o único integrante fixo da banda) merece mais atenção. Procure pela discografia do Divine Comedy, ou ouça esse ótimo álbum. Não há muitos caras por aí escrevendo letras tão boas ou ao menos se importando com isso. "At The Indie Disco" brinca com a própria miséria do gueto "alternativo" de forma nostálgica e romântica: "We go to the indie disco every Thursday night/Dance to our favorite indie hits until the morning light/" depois segue dizendo que se sentam sempre na mesma mesa, aquela que fica embaixo da foto do Morrissey. "Give us some Pixies, some Roses and some Valentines/ Give us some Blur, some Cure, some Wannadies"pede Hannon, e depois encerra pensando na garota na volta pra casa, dentro do ônibus congelando de frio: canta que ela faz seu coração bater no mesmo ritmo que a canção preferida: Blue Monday, "sempre a ultima que eles tocam". Gênio. 7/10
Esse trio de Manchester parece pertencer áquela classe de grupos da segunda divisão do pop britânico: apesar de uma discografia sólida e criticamente elogiados, são poucos seus seguidores. Nunca galgaram postos nas paradas britânicas, tornando-se assim um daqueles segredos cultuados por poucos. "Sky At Night" é o quinto álbum deles, e Guy Harvey (Elbow) co-produziu. Interessante notar que os conterrâneos do Elbow surgiram praticamente na mesma época, mas foram alçados á fama, pelo menos no velho mundo. John Branwell, vocalista e compositor do grupo é uma figura conhecida na cena musical mancuniana, tendo já militado em bandas da fase "Madchester", no final dos anos oitenta. Entretanto, sua linha de composição poética dark, nostálgica, e o acompanhamento melódico construído sob bases acústicas e arranjos que vão da delicadeza a grandiosidade nunca renderam ao I Am Kloot um público muito jovem. A verdade é que o som da banda realmente é mais adulto: Branwell parece um cantor de pub rock, contando estórias de forma embriagada: há uma certa ligação com companheiros do norte como o pessoal do Shack, mas sem a aproximação com as canções típicas do porto de Liverpool (Sea Shanties). Dá pra resumir que "Sky At Night" é o mais coeso dos albuns do grupo, sem abrir mão das suas principais caraterísticas: músicas que dão bastante espaço para os vocais de Branwell contarem pequenos contos, enquanto violões hipnoticamente conduzem o ouvinte, e as melodias vão se mostrando como que em camadas reveladas cirurgicamente. Talvez agora I Am Kloot receba um público maior; pelo menos é o que parece desejar a banda: eles incluíram a canção "Proof", que já estava presente no segundo álbum, como forma de introduzir a um novo fã um possível hit. 7,5/10