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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Guitar band? Mnemonic Creatures acerta em seu primeiro EP




O Mnemonic Creatures acaba de lançar seu primeiro EP, mas a história do blog com a banda é antiga. Explico: em 2010, um projeto folk chamado The Amazing Broken Man chegou à trilha sonora da série de tv mais quente da época, a inglesa Skins. Nós conversamos com o compositor Odorico Leal, que explicou que na real era só um projeto mesmo, porque sua banda October Leaves era o foco principal. Então, cinco anos depois e com novo nome, a banda do Odorico chega aqui. O Mnemonic Creatures é formado também por Gustavo Vidal, Ciro Figueiredo e Clara Pieirirowisck.

O que temos é um rock de guitarras onipresentes, melódico e de refrãos arrebatadores. Sempre guiado por tramas guitarrísticas cheias de imaginação, as canções do EP oferecem uma visão de amplitude e dinâmica: músicas com uma sensibilidade para o lirismo, que ora escorregam para a agressividade, ora caminham por tecidos delicados. Nos anos noventa, era comum a rotulação de bandas e tudo parecia pertencer a um mundo particular. Bem diferente do cenário multifacetado e cheio de fissuras e simbioses de hoje. Fosse 1994, o Mnemonic Creatures seria chamado de guitar band. Das boas. Prevemos um grande futuro para os caras.  

Cheque a banda:
Bandcamp


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Mixtape Novembro 2014



Escalação:

Alessandra Leão - Tatuzinho
Criolo - Plano De Voo
Marion Cotillard – 'Snapshot in LA
Fugazi - Waiting Room demo
Tuty - Role de Golzin (Prod. Nave)
André Paste - Cosmos (feat. Holger)
Freddie Gibbs - Scarface
Moita - Campo De Concentração [Part. Síntese]
TESTEMOLDE - At The Refused Drive
 Holger - Boca Suja
 

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Bonifrate - Museu de Arte Moderna (resenha)


Um dos magos que formam o Supercordas, Bonifrate retorna com seu novo disco solo, “Museu de Arte Moderna”. Depois da imersão folk-country-rock-distorção de seu segundo, “Um Futuro Inteiro” (2011), MAM apresenta uma variedade rítmica e leveza maiores, embora tenhamos ainda aquilo que os LPs (ou álbuns, como queiram) devem possuir como elemento agregador: sentido, coerência, inter-relação. Se o disco anterior se relacionava como um filme poético adulto, o novo trabalho remete mais a uma audição de fita cassete de música boa enquanto vivemos uma espécie de turbulência emocional juvenil.

 Talvez seja apenas meu lado nostálgico adolescente falando, mas a audição de MAM me trouxe definitivamente uma espécie de sensação bastante peculiar de quando o rock de guitarras psicodélicas, arranjos bem feitos e melodias bonitas significavam tempestade interior amainada pela música. Para que a análise não se torne apenas um choramingo, é importante ressaltar que as canções são excelentes. Não importa que pra você o título da faixa “Eu não vejo Teenage Fanclub nos teus olhos” não faça tanto sentido: o pop redondo guitarrístico e de construção perfeita é o suficiente. Fica ainda melhor com contexto: o personagem da música não encontra o brilho e a essência amorosa que a turma de Gerard Love, Norman Blake e Raymond McGinley produz no seu interesse afetivo.

A leveza com que as faixas vão se sucedendo é um trunfo permanente: fica claro que o ambiente é de cenários desfocados e leve fritura cerebral, mas o convívio tranquilo de uma party jamaicana em “Horizonte Mudo”, imersão de chá em Revoluções (batera lá em cima, teclados), baladas ao piano como “Soneto Estrambótico”, instrumentais violeiras (Guianá Mainline) e demais modalidades de exercício da música além da consciência mostram que MAM é realmente um disco pra ser absorvido. A combinação de composições muito boas com uma direção bastante clara permitiu a Bonifrate exercer um trabalho mais leve que seu anterior, sem perder em nada da substância e experimentação. 8/10

Baixe o disco aqui.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Bárbara Eugênia - É o Que Temos - Resenha e entrevista


O segundo disco de Bárbara Eugênia, É o Que Temos, já é um dos belos lançamentos brazucas em 2013. Destrinchamos o trabalho da compositora com uma resenha e um bate papo, que você lê abaixo:

Leia mais

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Melhores discos de 2012 - Top 50 Gringos


Para alguns, o fato de a música pop em 2012 não trazer um caminho discernível pode parecer motivo de crítica. É como se perdesse a identidade, o zeitgeist, o momento. Na verdade, é um caminho sem volta, uma vez que a multiplicidade de canais faz com que uma geração inteira crie música sem compromisso com movimentos específicos. Ou, na pior das hipóteses, ao tentar emular algum tipo de passado, o resultado final pode soar torto, filtrado por cérebros bombardeados com MP3s piratas. O melhor mesmo é apreciar a diversidade e a disparidade de formas e estilos abaixo selecionados. A escolha foi feita por Eduardo Yukio Araujo e Leticia:

  1. Frank Ocean – channel Orange
  2. Fiona Apple - The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do
  3. Sharon Van Etten - Tramp
  4. Tame Impala – Lonerism   resenha
  5. Grimes – Visions
  6. Swans – The Seer
  7. Daphni – Jiaolong
  8. Ariel Pink’s Haunted Graffiti – Mature Themes  
  9. Julia Holter – Ekstasis    resenha +Soma
  10. Grizzly Bear – Shields
  11. Dirty Projectors – Swing Lo Magellan
  12. Kendric Lamar – good kid, m.A.A.d city
  13. Leonard Cohen - Old Ideas     resenha +Soma
  14. Godspeed You! Black Emperor – Allelujah! Don’t Bend! Ascend!
  15. Sleigh Bells -  Reign Of Terror    resenha +Soma
  16. Purity Ring – Shrines
  17. John Talabot – fin
  18. Animal Collective – Centipede Hz
  19. Burial – Kindred EP
  20. The xx – Coexist
  21. Dan Deacon - America
  22. Cloud Nothings – Attack On Memory
  23. Sigur Ros - Valtari 
  24. The Shins – Port of Morrow
  25. TNGHT – TNGHT EP
  26. First Aid Kit - The Lion's Roar
  27. Jack White - Blunderbuss
  28. Tim Hecker and Daniel Lopatin - Instrumental Tourist
  29. Nite Jewel - One Second of Love   resenha   entrevista
  30. Spiritualized – Sweet Heart Sweet Light
  31. Mac DeMarco - Mac DeMarco 2
  32. Mala - Mala In Cuba
  33. The Tallest Man on Earth - There's No Leaving Now
  34. How To Dress Well – Total Loss
  35. Death Grips – Money Store
  36. Flying Lotus – Until The Quiet Comes
  37. Cat Power - Sun
  38. The Cribs - In The Belly Of The Brazen Bull
  39. Angel Olsen - Half Way Home
  40. De La Soul - Plug 1 & Plug 2 Present...First Serve
  41. La Sera - Sees The Lihjt
  42. Plan B - Ill Manors
  43. Father John Misty - Fear Fun
  44. Of Monster And Men - My Head Is An Animal
  45. Maria Minerva - Will Happiness Find Me?
  46. Beach House – Bloom
  47. King Tuff - King Tuff
  48. Clams Casino - Instrumental Mixtape 2
  49. Four Tet - Pink
  50. Scuba - Personality

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Tame Impala - Lonerism

A nossa lista de melhores de 2012 logo será publicada. Começamos aqui a apresentar resenhas de discos que estarão na lista: Leia mais

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Thiago Pethit - Estrela Decadente


Dois momentos importantes que antecederam o lançamento de Estrela Decadente, segundo disco do compositor e cantor Thiago Pethit, ajudam a explicar o molde e o resultado obtidos com o recente trabalho: Thiago realizou uma apresentação interpetando Lou Reed para um projeto do Sesc São Paulo em janeiro de 2011: o desafio não era pequeno: com uma obra não apenas "intocável", Reed é dono de repertório amplo e diverso, além de possuir aspereza que, a princípio, não poderia se sustentar tão facilmente. Ok, era apenas uma apresentação. Mas a maneira como Pethit escolheu o repertório e demonstrou postura forte parecia indicar que o artista passava por uma condição de exploração de seus limites como frontman, algo que se refletiria também em suas composições. O segundo momento foi outro show, no início deste ano, em que músicas de Estrela Decadente estavam sendo ajustadas e testadas. Mais uma vez, a comparação com o cantor das primeiras apresentações de Berlim,Texas (seu primeiro disco) se tornava inevitável: muito mais confiante no palco, apresentando composições instrumentalmente mais incisivas e de imposição vocal mais à feição de sua origem teatral. Como essa evolução iria chegar ao disco pronto?

A boa notícia é que Estrela Decadente captura a energia dos shows recentes e confirma as composições mais expansivas. Entre as influências que já se mostravam no trabalho anterior - mas aqui amplificadas - estão o glam rock, o folk, o pop e o vaudevilesco. A primeira amostra desse Pethit de consciência pop bem firme aparece logo na introdução com Pas de Deux: em uma levada ao piano e backing singers evocando o cabaré, há um interlúdio disco, alusão aos versos que brincam com a aproximação entre duas pessoas. A sequência com Moon, um espécie de faixa perdida no tempo do pop, entre a escuridão oitentista e a decadência setentista, evoca uma trinca de Bowie, Reed e Iggy Pop. Tal alusão não fere a qualidade e a sensação de frescor que a música traz. Dandy Darling é um monstrinho glam, de refrão obviamente explosivo: "Amigo/escute o que eu digo/só venha comigo/se quer se perder por aí." 

A porção mais intimista do compositor se apresenta com Perto do Fim, um dueto com Mallu Magalhães. De tom melancólico e levada simples e melódica, serve como uma desacelerada após três músicas mais "espinhosas", e remete muito mais ao primeiro álbum. So Long, New Love, conhecida por ter sido trilha de uma campanha publicitária, surge como uma canção muito mais desenvolvida, de tempo desacelerado, apagando a impressão de indie-pop mais ordinário da versão anterior. Estrela Decadente dá nome ao disco e segue como um rock vigoroso com pé na sarjeta; aqui já concluímos que Pethit não se acomodou com os elogios recebidos em sua estreia e decidiu seguir seus instintos criativos. É claramente alguém mais despido e confiante, com todas as implicações de uma opção como essa. A leveza de Haunted Love, quase uma canção de ninar repleta de ooooohs - aaaaaahs dos vocais de apoio carrega uma aura verdadeiramente lúdica.

Mas o compositor que se aventurou por todo o álbum por emoções mais cruas, situações mais explícitas e músicas mais complexas retoma e encerra o processo com Devil in Me e Surabaya Johnny: a primeira, de título bastante significativo, poderia apenas reproduzir um clichê, mas soa realmente como uma autoanálise do autor diante de demônios internos - vide "Eu vendi minha alma pra saber que o diabo sou eu", cantada ao fim da música. Cida Moreira, muito admirada por Pethit participa da vaudevilesca Surabaya Johnny (versão do original de Bertolt Brecht e Kurt Weill), o momento mais abertamente teatral do trabalho. 

Estrela Decadente pode surpreender quem não pôde observar os momentos citados no primeiro parágrafo, mas não deixa dúvida para quem ouve: é uma evolução das ideias de Berlim, Texas e também uma expansão da entrega verificada ali. Entre uma atmosfera que evoca momentos de criação em meio a crises de decadência geracional, Pethit talvez tenha retratado, de forma indireta, as mazelas de São Paulo em 2012, um ambiente repressivo em que seus moradores tentam se desgarrar através de atividades artísticas como a música. Um disco de boas canções que nos leva a relacionar suas referências, o momento atual de seu criador e de suas inspirações é um salto relevante. 8/10   

Baixe o disco : http://www.thiagopethit.com/     

             

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Playlist: Melhores clipes e sons brasileiros de maio


Fizemos uma playlist com o que rolou de mais bacana no mês de maio no cenário nacional: os melhores clipes e músicas que pintaram na rede estão aqui:
Leia mais:

quarta-feira, 28 de março de 2012

Blood Red Shoes - In Time to Voices


Se uma característica do pop atual é a diversidade e o hibridismo, também é verdadeiro que certas premissas relacionadas ao passado resistem. Entre discussões a respeito do reaproveitamento do passado através de uma visão multiplicada por referências entrelaçadas, há espaço para aqueles que caminham em um espaço mais delimitado. Mais do que escolhas estéticas revivalistas em relação aos métodos antigos de produção, algumas bandas trabalham mais confortavelmente em uma esfera pré-internet, lugar imaginário em que influências de adolescência ainda soam mais fortes e importantes para a composição do que uma cornucópia de sons e informações. A dupla inglesa Blood Red Shoes possui uma ligação clara com o rock estadunidense dos anos noventa: desde a criação da aspereza melódica de grupos como Babes in Toyland e Breeders (que os convidou para uma edição do festival ATP) passando por toda a comoção punk do Fugazi e Sonic Youth e a agitação grunge do Nirvana. Um compêndio de "rock alternativo" de quem era gurizinho e curtia a simbologia quase espiritual da época.  

Essa premissa colocou a banda de Brighton longe das festividades pós-Britpop da ilha, que gravitou inevitavelmente em pequenos agrupamentos de medíocres buscando uma forma de enquadrar o conceito de "indie" encaminhado pelos Strokes em uma nova embalagem de Cool Britannia. Os dois primeiros discos do Blood Red Shoes caminharam longe da badalação habitual, mas não consagraram a banda como alternativa relevante à apatia da cena de rock inglês: ainda em grande débito com fórmulas e respeito demasiado aos seus heróis, Box of Secrets (2008) e Fire Like This (2010) não passaram de trabalhos interessantes, em que a energia estava canalizada na forma e estrutura, mas carente de composições mais eloquentes. In Time to Voices, o novo álbum, não apenas evolui em comparação direta com a abordagem citada, mas se constitui em um ótimo exercício de rock; uma surpreendente evolução.

A música praticada aqui transforma a dinâmica engessada loud-quiet-loud em algo mais sofisticado: como toda boa guitarrista, Laura-Mary Carter utiliza suas customizações de pedais e amplificadores, dessa vez praticando uma contenção mais inteligente e intuitiva, como na abertura com a faixa-título.Perceptível também é a captação da boa voz de Laura, evidente nas apresentações ao vivo mas descalibrada anteriormente. Acompanhando sua companheira, a bateria de Steven Ansell se mostra mais comedida e equilibrada. Essa segurança só se tornou possível porque está envolta em composições mais robustas; Lost Kids flui com a duplicação de acordes de Laura, tecendo um clima envolvente. O single Cold traz um belo pedaço de pop espinhoso, um ataque de impulsos com Carter e Ansell dividindo a cena, nos vocais fortes (Steven é Dave Grohl melhorado e Laura uma riot grrrl afiada) e em seus respectivos instrumentos. 

No recheio do álbum, a prova de que a dupla se livrou do excesso de referências: uma sequência de músicas mais lentas, utilizando recursos de estúdio para um efeito expansivo: vozes que se harmonizam, canções divididas em partes, sobreposições e refrões menos bombásticos - mas não menos efetivos - compõem um cenário mais rico e diverso: O aceno psicodélico de Two Dead Minutes, a quente e bela The Silence and the Drones e a acústica Night Light representam um passo diferente no repertório da banda. As letras que retratam decepções e conflitos pessoais avançaram do estágio grunge-for-dummies para algo verdadeiramente arrebatador, se não exatamente profundo. Há espaço para uma ligação mais emocional com o ouvinte, tanto em aproximações mais delicadas como Stop Kicking e Slip Into Blue como em uma pedrada de um minuto e meio (Je Me Perds). 

O Blood Red Shoes criou um disco que não abandona as virtudes mostradas anteriormente mas amplia consideravelmente seu espectro musical. Equilibrando peso, sujeira e melodia, envoltos em composições mais robustas, os ingleses fazem de In Time to Voices um álbum de rock cascudo anos noventa que soa bem em 2012. Decerto não estamos diante de uma fúria inteligente estilo Piccioto/MacKaye ou de uma química torta dos Pixies, mas de herdeiros de uma era mais pra bagaceira do que indie-propaganda da Apple. Quando se apresentaram em um gelado Parque da Independência, em São Paulo, no ano passado, uma plateia de adolescentes excitados cantava as canções com apego. Eles ignoraram a atração seguinte do festival, Miles Kane, enquanto tentavam pegar os CDs distribuídos pela dupla, que parou pra trocar ideia após o show. Em plena era do Mp3, ou talvez por causa dela , havia ali uma agitação legítima em torno de uma banda pouco conhecida no país. O Blood Red Shoes caminha para não ser deletado tão cedo dos Ipods mundo afora. 7,5/10                 



segunda-feira, 19 de março de 2012

Baixe o novo disco do Fóssil, "Mocumentário"



A banda cearense Fóssil está lançando oficialmente hoje seu mais novo álbum de estúdio, Mocumentário. Não por acaso, 19 de março é dia de São José, padroeiro do Ceará. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Siba - Avante


Não sabemos ao certo os motivos que engrenam o motor criativo de um músico: seja no aspecto pessoal, nas descobertas técnicas ou no interesse mercadológico, há sempre um elemento de discussão, que no fim das contas acaba por tornar nebulosa a análise (eternamente dissecada) sobre as relações externas e o trabalho em si. Entretanto, quando o foco é a arte propriamente dita há possibilidade de encontrarmos   pontos importantes: Quando consumimos música e tentamos fazer um paralelo daqueles acordes com o cenário em que possivelmente habitam os versos e melodias ali presentes, estamos apenas especulando sobre a mente de outra pessoa. Mas é parte fundamental da música pop nos remeter ao mistério, à curiosidade e a busca por empatia. São elementos indissociáveis, porque das sensações é que são construídas grandes canções: Avante, disco do pernambucano Siba, é recheado de momentos sensoriais e instigantes. Embora seja estruturalmente diferente de sua obra até aqui.

Siba comandou a rabeca - e também a guitarra - do Mestre Ambrósio, grupo que alçado ao levante do manguebit no final dos anos noventa trouxe suas diferenças e suas qualidades: raspando o rock apenas para dizer que o forró, a ciranda, o baião e o maracatu soavam mais alto e mais forte. Para um urbanóide com dois pés na tradição e nas suas conexões, após a dissolução da banda Siba trabalhou em projetos que o levaram para longe - geograficamente - em busca de novos respiros: sua Fuloresta, que reuniu músicos de Nazaré da Mata (PE), local em que residiu, rendeu o disco Toda Vez Que Eu Dou Um Passo o Mundo Sai Do Lugar (2007). O músico também lançou um trabalho com o violeiro Roberto Corrêa - Violas de Bronze, em 2009. Saindo de uma cidade de trinta mil habitantes e retornando para as andanças das grandes cidades - até retornar a São Paulo, local que o acolheu anos atrás - Siba repensou não apenas a forma de realinhar suas ideias, mas permitiu que alguns desafios causassem algum tipo de reação: retomando a guitarra, as composições mais personalistas e uma estrutura quase tradicional de banda de rock: com grandes espaços a se preencher, imagino que Siba tenha se deparado com uma grande folha em branco, ao invés de trabalhar sobre um livro já rabiscado e esquematizado.Que tenha optado pela primeira é surpreendente e louvável.

A exposição de se colocar de forma distinta permitiu a Siba uma forma de criação que dinamizou as canções, que são montadas sob riffs costurantes, com bateria e tuba segurando o ritmo e teclados que se inserem de forma pontual. A produção, dividida entre o compositor e Fernando Catatau, é equilibrada ao não sugerir uma mão pesada em direção a um rock "quadrado". Preparando o Salto inicia o álbum com a já citada trama guitarrística, aliada aos versos fluidos e inteligentes; a quebra melódica e a confiança vocal de Siba, um crooner de bar de beira de estrada (no melhor sentido da definição) aquecem a alma: " Não vejo nada que não tenha desabado/Nem mesmo entendo como estou de pé.../Vou passar como um santo mudo/Mirando o alto, rindo/Preparando o salto/Deixando pra trás...tudo." É uma declaração de intenções, de novos horizontes e sobre encarar o medo. A letra reflete a melodia: forte, assertiva sem perder o lirismo e a beleza.

Ariana traz o romantismo que soa exatamente como algo nordestino - embora elementos percussivos tão pertinentes á ciranda e ao maracatu não estejam tão presentes - simplesmente por contar com uma tradição discursiva, de repentistas e da literatura de cordel transportados para uma combinação de letra/melodia mais uma vez efetiva, como um encanto em uma noite quente. A Bagaceira faz a tradução musical das intenções - ou pelo menos do resultado delas - de Siba: dialoga com o rock, com a música popular aka brega e faz o contorno pelo fraseado do Tinariwen. Canoa Furada eleva o volume da guitarra na introdução mas mergulha pelo universo referencial de Siba com um único respiro: não estaria fora de contexto em Amarénenhuma, ótimo disco lançado pela banda Nuda em 2011. Avante traz peso de guitarra na introdução em ritmo psych-rock-xaxado. As duas últimas músicas do disco são reflexões cheias de afeição  e os momentos em que Siba se mostra mais desarmado, frágil e capaz de sintetizar a vontade de mudar em forma de música boa: Qasida é um lamento nostálgico tracejado por um solo de Catatau que injeta maior contorno instrumental (e emocional); Bravura e Brilho é um carinhoso retrato do sentimento paternal e, ao mesmo tempo, da nossa própria consciência da efemeridade das coisas.

Avante abre o ano na música brasileira apontando para um caminho promissor: Reconhecido compositor e músico, Siba se propôs a reconstruir sua trajetória através do caminho mais arriscado: recorrendo ao passado não como fundação de uma nova estrutura, mas como elemento que ajuda a agregar partes da história, indeléveis, que percorrem uma linha imaginária do tempo. Linha intangível, de ligações múltiplas e digressões. Diante do desafio, é preciso coragem pra seguir adiante. Ou Avante, na palavra de Siba. 8/10

domingo, 11 de dezembro de 2011

Melhores de 2011: Top 30 discos brasileiros


Alguns dados relevantes sobre essa lista: dos primeiros dez colocados, 5 são discos de rap; foi impossível cravar a primeira colocação: acabou sendo um "empate técnico", decidido apenas para efeito puramente eletivo. São dois álbuns diferentes, dentro de um mesmo gênero, realizados de forma bastante peculiar: um é mais sujo, direto, sem perder o brilhantismo da subjetividade; outro é belamente executado e sonicamente expansivo. Fato comum: são discos essenciais para 2011 e além, obras incríveis e que merecem a atenção que despertam. A lista ainda inclui ritmos diversos e uma única certeza: é um retrato que permite a observação de uma não-homogeneização do produto final, estilhaçando os limites entre artistas que trabalham de maneira ortodoxa - e com bons resultados - e outros mais aventureiros. Segue:

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Melhores de 2011: Top 50 discos gringos


Não dá pra dizer que tudo está aqui: tarefa impossível escutar todos os discos possivelmente relevantes. Após o fechamento dessa lista, encontrei sons interessantes que poderiam até tomar o lugar de algum álbum abaixo listado. Mas tomei por critério apenas aquilo que pode representar o mais fielmente o que realmente rolou e teve alta rotação em 2011, contando aí a tal maturação da análise crítica. Ou simplesmente o que soa maneiro mesmo depois de várias audições. Aí vai:

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Fóssil disponibiliza aperitivo do novo álbum


Os cearenses do Fóssil preparam o lançamento de Mocumentário, novo álbum do grupo previsto para fevereiro de 2012, da mesma forma arrojada que caracteriza a musicalidade da banda radicada em São Paulo: hoje eles liberaram para download gratuito um aperitivo do novo trabalho; o detalhe é que as canções novas são apresentadas ao vivo,  registro da passagem deles pelo Rio de Janeiro em junho desse ano. Uma maneira diferente de apresentar ao público o que será ouvido por inteiro em alguns meses. Assista ao teaser e baixe as seis faixas gravadas na Audio Rebel aqui (via Hominis Canidae).

domingo, 30 de outubro de 2011

Primeiro Disco #2 : Some Community


Seguindo com nossa nova série de posts, dessa vez é o pessoal do Some Community que conta qual foi o primeiro disco da vida deles. Com a palavra, a vocalista Juliana e o guitarrista Fernando:

Juliana:
"O primeiro disco que eu comprei com um dinheiro que tinha guardado foi um cd do Depeche Mode Songs of Faith and Devotion. Nesta época eu já assistia MTV e tinha ficado fissurada no clipe e na música One Caress e naquela época o único jeito de ter uma música pra ouvir no repeat era comprar o cd... Comprei e fiquei louca com as outras músicas. O disco inteiro é foda. Eu sempre ouvi mais rock do que outras coisas mas naquela época não acredito que tinha um gosto musical muito demarcado. Não sabia quem era o Depeche Mode pra história da música mas adorava aquilo e ouvia sem parar. Aliás eu tenho essa mania de escutar coisas no repeat por um tempo longo...Ah, eu devia ter uns 11/12 anos nessa época."



Oitavo disco da banda inglesa, Songs of Faith and Devotion foi lançado em 1993, em meio ao furacão grunge. Pop eletrônico sombrio com influências e arranjos mais pesados na fórmula. Os fãs do grupo teriam de esperar mais quatro anos para um novo álbum de inéditas, devido ao sério problema de Dave Gahan com a heroína durante a turnê de ...Faith and Devotion.





Fernando:

"O primeiro disco que me marcou foi um que meu pai comprou pra mim.O Loaded do Velvet Underground. Eu lembro que estavamos na galeria do rock e ele me disse que esse disco ia mudar minha vida. Ele tinha toda a razão do mundo (risos)."


Lançado em 1970, Loaded foi o último álbum da banda novaiorquina com Lou Reed à frente. Para muitos, o quarto disco do Velvet Underground é o mais bem realizado de toda a discografia. Clássicos como Sweet Jane, Rock & Roll e I Found a Reason reforçam a ideia. 

domingo, 11 de setembro de 2011

Wilco - The Whole Love


A banda de Jeff Tweedy vai resistindo ao tempo e ao escrutínio daqueles que se encantaram pela fase encapsulada a partir do quarto disco (Yankee Hotel Foxtrot, 2002), quando o Wilco se tornou uma banda mais "séria", capturando alguns experimentalismos com a ajuda do produtor e multi-instrumentista Jim O'Rourke. Até então, os álbuns dos caras de Chicago arranhavam os vestígios do alt.rock, mas mergulhavam sem vergonha em uma busca pela perfeição dos elementos básicos do rock. Melhor exemplo: Being There, de 96. A fase anos 2000 trouxe prêmios e mais elogios da crítica para a dupla Yankee / A Ghost Is Born (2004). O problema de se posicionar como uma banda de rock vanguardista - ou chata, dependendo de quem compara - é exatamente o patrulhamento daqueles que sempre esperam que o próximo disco seja uma espécie de afirmação definiva. Tweedy tratou de evitar tais especulações com Sky Blue Sky (2007) e Wilco (The Album)  (2009), discos "pequenos" e sem a mesma ambição. O único problema desses trabalhos não é a ausência de toques experimentais mas a falta de inspiração de algumas músicas, resultando na irregularidade. Em uma análise mais sensata, Tweedy estava em um período de transição criativa, exercitando seu poder de escrever boas canções com poucas intervenções de estúdio. Funcionou como ensaio para The Whole Love, como veremos a seguir:    

Art Of Almost, com sua eletrônica fria e germânica parece indicar uma volta aos tratados de estúdio, porém a música vai se desdobrando em algo mais orgânico, de forma que há um equilíbrio final elegante e calcado apenas em uma composição firme. I Might encontra o "velho" Wilco desenhando um pop redondo recheado com uma construção - ou reconstrução - de riffs e linhas de baixo soltas, emolduradas apenas pelos teclados.A leve psicodelia de Sunloathe reafirma a impressão de um Jeff Tweedy focado e longe da letargia. Até mesmo a simplicidade de Dawned On Me é entregue com mais energia e entusiasmo, versos, pontes e refrão trabalhando direitinho. Black Moon traz de volta a melancolia em um folk de arranjos densos: há uma química funcionando perfeitamente, a voz de Tweedy conduzindo uma espécie de valsa, com a steel-guitar e os dedilhados de violão. Uma aproximação com a emoção mais simples e a pegada de um par de versos adequados traz o brilho de Open Mind: não é apenas com intrincada combinação que se faz um disco vencedor.Standing O despeja um glam-rock destemido, seguido por Rising Red Lung, o tipo de minimalismo folk que atinge o ouvinte com a mesma eloquência da canção anterior: escalas diferentes, efeitos iguais. One Sunday Morning encerra o álbum com 12 minutos de delicada e insistente beleza: sem apelar para nada além de uma canção circular, o Wilco finalmente se livra de uma incômoda seca de trabalhos inteiramente convincentes. 

The Whole Love se insere na prateleira cada vez menor de discos de rock adulto: longe do superficialismo ou da redoma de ar rarefeito dos círculos indies atuais, longe do cabecismo que o próprio Wilco já flertou. 8,5/10 
     

sábado, 9 de julho de 2011

Nana Rizinni - I Said


Naná Rizzini já havia lançado um EP chamado Bacon Eggs que chamou a atenção pela diversidade e apelo pop das canções. Pegada rocker e boas batidas eram os ingredientes daquele material. Baterista de formação, Naná desenvolveu canções mais robustas para seu álbum de estréia, I Said. Com o auxílio do produtor Plínio Profeta e de gente como Tiê, Pedro Granato e Karina Buhr, I Said possui dez canções bem resolvidas e estilisticamente diversas.

I Don't Care abre o disco mesclando vocais processados e guitarras sujas, com batidas marcadas: um pop dançante e áspero, com cara de hit. A sequência de Vertigem (rock quente de toques psicodélicos) e a balada Triste (climática, dark) começam a mostrar ao ouvinte que Naná maneja com habilidade aspectos musicais diferentes. Better Than Nothing volta ao pop, dessa vez com toques ensolarados. Homenagem, composição em parceria com Tiê, é uma música sinuosa e cheia de fumaça, intoxicante. Estúpida ganhou um clipe caprichado e também capricha nos arranjos. Stop Spending volta ás batidas dançantes e divertidas; Nice Figure, Dangerous Heart é um rock de sotaque indie nas guitarras e gruda como chiclete. As duas últimas canções não poderiam ser mais diferentes: a minimalista Busy In The City é seguida do funk de guitarras processadas de Ciranda do Incentivo (composição de Karina Buhr).

Temos aqui uma coleção de músicas que se insinuam em diferentes vertentes, mas possuem uma amarração que vai além da produção acertada: Naná não atira para todos os lados por falta de personalidade; I Said soa bastante consistente e talvez apenas reflita a personalidade musical da compositora: despojada, de veia rocker mas com dois pés no pop. 8/10

Baixe o disco no site oficial da Naná.

sábado, 21 de maio de 2011

Mona - Mona


Residentes de Nashville, o quarteto Mona se posiciona como uma aposta muito bem vinda ao cenário. Em primeiro lugar, não há resquício daquele sentimento de abraçaremos-todas-as- vertentes-porque somos superinformados. Excesso de informação musical ás vezes atrapalha. E em tempos de indie global, a quantidade de bandas ruins munidas de sequenciadores é assustadoramente alta. Mona, o disco, é potencialmente um dos melhores discos de rock do ano. Eu disse rock, não indie-rock.

Basicamente, os caras acreditam naquela coisa toda de banda como unidade, catarse, suor, melodia e sentimento. Anos 50. Como no início da história de música jovem branca de raiz negra. Com um pé no hard rock setentista, Springsteen e no punk, soam um pouco como o Social Distortion circa 92. Só que mais jovens. Ou um Rocket From The Crypt menos fanfarrão ou mesmo o ótimo Lit. Mas como de boa intenção não se faz um bom disco, o quarteto tratou de moldar canções que se distinguem muito bem umas das outras (raro hoje em dia) e entregá-las de acordo. Um vocalista "heróico" e boas tramas de guitarra sustentam de forma coerente o teor das letras.

Gente perdida, garotas impossíveis e noites insones permeiam o universo rock "de verdade" do Mona. E como isso é bom, não ouvir ladainhas alegres e festivas com tamborezinhos e guitarrinhas de brinquedo. Cloak And Dagger tem a confiança e a arrogância do Manic Street Preachers em Generation Terrorists, aquela inocência e fúria conjuntas; Listen To Your Love é certamente um dos melhores pedaços de rock arrepiante que ouvirá nesse ano: o ataque/condução funcionando como um relógio. E a ponte com o verso "How did it get this way?" é um grande momento. Shooting The Moon é a versão sem vergonha (no bom sentido) de um hard rock legítimo. A balada Pavement em mãos erradas soaria apenas ordinária, mas o Mona transforma em hino.

O nome da banda é uma homenagem a avó de um dos integrantes, que se chamava Mona Brown. Mas vai ser interessante o fluxo de visitantes nos mecanismos de busca com essa palavra chave. Mais essa pra curtir a banda de vez. 8/10

segunda-feira, 9 de maio de 2011

O brilho de Zá


Fui pego no contrapé da desinformação quando percebi que não conhecia o som de Jade Coelho, ou simplesmente Zá. Na realidade, palavras aqui e ali a recomendavam. E a garota não decepciona. Dona de voz agradável, suas canções passeiam pelo rock (a base de seu som) mas são informadas por apelo pop inegável. Há acenos para o soul e climas jazzy. Mas o mais bacana é que Zá não soa pretensiosa: há uma confiança nas letras bem montadas e no jeito quase sinuoso de cantar. Ela tem hits prontos como É Tão Bom Quando Não Há Chance De a Noite Ser Ruim; cria um clima ensolarado em Esse Som, com seus tecladinhos intermitentes; é misteriosa e intensa na quieta/barulhenta Da Diplomacia; deliciosamente pop em Não há Trabalho Mais Importante Que Nós Dois. Nenhuma referência óbvia percorre as canções, apenas uma demonstração de personalidade e criatividade. Tipo a equivalência musical de uma dose extra e instantânea de serotonina.