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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Entrevista: Nite Jewel


Ramona Gonzales, aka Nite Jewel lançou agora em 2012 seu segundo álbum, One Second of Love. Sua estreia em 2009 com Good Evening chamou a atenção do público para a artista californiana associada ao experimentalismo local de Ariel Pink e Julia Holter. Formada em Filosofia, Ramona já realizou exibições para instalações audiovisuais. Batemos um papo com ela sobre o novo disco, meios de produção e geração Napster:  Leia mais:


quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Tame Impala - Lonerism

A nossa lista de melhores de 2012 logo será publicada. Começamos aqui a apresentar resenhas de discos que estarão na lista: Leia mais

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Holger - Ilhabela


Depois de estabelecerem uma espécie de pegada festeira e tropical dentro do anglófilo indie rock brasileiro, o quinteto paulistano Holger chega ao segundo álbum ainda mais inspirado: Ilhabela é uma coleção de canções recheadas de sentimento. Não o tipo de sentimento de tristeza por não viver em uma cinzenta, fria e sombria Londres como um deprimido recalcado, mas um sentimento de orgulho por poder desfrutar de turnês pelo Brasil (e também no exterior) e aglutinar tantas referências em seu som sem desmanchá-lo em pedaços inaudíveis. É um retrato fiel de uma banda "despojada", mas não a ponto de negligenciar detalhes técnicos das canções ou de recusar a influência de sons latinos, africanos, puramente brasileiros ou da eletrônica gringa. 

Entre Tonificando e sua batucada e as guitarras quebradas - numa vibe Luiz Caldas via Tom Verlaine - espalhadas pelas doze faixas, Ilhabela amplifica a sensação de uma banda operando em alto nível: é uma viagem de verão movida a brisas diversas encapsulada em forma de música. Uma das coisas interessantes sobre o Holger é a aparente facilidade que encontram para criar cenários sonicamente expansivos, encontrando pequenos espaços que surpereendem o ouvinte: Another One traz bela melodia reflexiva, mas a referência a Roll Another Number (For The Road), do álbum Tonight's the Night, de Neil Young, não poderia ser mais tortuosa. Enquanto o compositor canadense tenta espairecer seus pensamentos pesados ao pegar estrada acendendo um baseado, os caras do Holger estão mais relaxados, sem deixar de refletir. 

Infinita Tamoios (grande nome, afinal a inspiração do álbum é uma viagem para o litoral paulista, acessado pela estrada citada) é uma grande orgia carnavalesca: "Praticar o amor/o amor sensual/polinizar a flor/do amor tropical". A música conta com a participação de Liliana Saumet, dos colombianos do Bomba Estéreo. Me Leva Pra Nadar traz o nível exato da zoação e da beleza de uma curtição de verão em versos como: "Deixa tudo boca livre/no buraco da glória/se o calor te deixa foda/então me leva pra nadar." Indeed. Importante notar que se a guitarrada paraense, a cumbia, o axé e sutis toques eletrônicos surgem aqui e acolá juntamente com o DNA roqueiro do início de carreira, não há diluição preguiçosa ou mesmo a pretensão de ser o perfeito crossover do pop global; quem já presenciou as apresentações do grupo percebe que certo ar anárquico e juvenil permeia o ambiente. Essa leveza contribui para a fluidez de Ilhabela.

O segundo disco do Holger é a prova de que a música "indie" brasileira não precisa andar em círculos quando temos um arsenal de música boa, do mundo inteiro, nos rodeando. Esses caras ouvem essa música com curiosidade empolgante, e transformam isso em uma bonita transa de vibrações positivas. A trilha sonora definitiva do verão, e esse é provavelmente o elogio mais adequado. 8,5/10    

Faça o download aqui.            
  

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A volta do Foals: assista ao vídeo de "Inhaler"


A banda inglesa Foals se prepara para lançar o sucessor de Total Life Forever (2010). O terceiro álbum do pessoal de Oxford se chamará Holy Fire e sairá em fevereiro de 2013. Inhaler, o primeiro single, ganhou um belo vídeo que você assiste abaixo. Diferentemente das canções mais low profile de Total Life Forever, a música nova possui um refrão grandioso. Parece uma dinâmica entre a fluidez de Antidotes (disco de estreia, de 2008) e as intrincadas tramas do disco anterior, sem abandonar a fórmula funk branco/math rock/pop do quinteto. 

Curta uma mixtape de verão


O verão não chegou oficialmente, mas e daí? A sensação já é de fim de ano e o calor já ameaça derreter, então resolvemos armar um mix singelo mas lindíssimo para vossa apreciação. Só clicar...



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Uma viagem sensorial no clipe novo de Don L (NSFW)


O Don L é um preferido da casa, e pra nossa sorte o rapper cearense tem trampado bastante ultimamente: com dois EPs no forno (Caro Vapor e Vida Premium Beta), podemos esperar por mais pedradas como Pra Mandar o Mundo Se Fuder e Cafetina Seu Mundo. A música Sangue é Champanhe conta com a participação de Flora Matos e ganhou um videoclipe bonzaço, dirigido pela fotógrafa estadunidense Autumn Sonnichsen e por Erica Gonsales: uma verdadeira viagem sensorial com lindas garotas em cenários incríveis. Parece simples, mas a grande sacada é que a combinação com o som quente de Don L é quase simbiótica: 


Sangue é Champanhe_Don L. feat. Flora Matos from LuckyBastardsInc on Vimeo.

Mais sons do Don L no Soundcloud

Fotos da Autumn - que acabaram por desaguar na feitura deste vídeo - e o próprio vídeo podem ser vistas na exposição individual "Paraíso na Boca", na galeria AVA, em São Paulo. Até o dia  10 de novembro.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Lívia Cruz: Transformando poemas, espalhando amor e combate


Lívia Cruz, cantora e MC (São Paulo via DF via Rio via Recife) já trabalhou com nomes importantes como Kl Jay e Costa a Costa, além de ter lançado uma elogiada Promo. Em 2012,  Lívia tem trabalhado em seu primeiro álbum (Muito Mais Amor), e já liberou o clipe de Não Foi em Vão, que vem gerando boa repercussão. Uma criação livre sobre o poema Legítima Defesa, de Elizandra Souza, a ótima canção possui produção de DJ Caíque. Demonstrando grande habilidade para tocar em questões agressivas por meio de nuances na voz e no flow, Lívia evita o simples lamento, apostando em uma ação assertiva de justiça na questão da violência contra as mulheres. Há beleza em Não foi em Vão, do tipo que surge mesmo quando o contexto é pesado e triste. Conversamos com ela sobre a canção, o clipe e o papel da imprensa no rap:

* Como surgiu a ideia de transformar o poema da Elizandra em canção?

Assim que eu li o poema pela primeira vez me comoveu muito, até eu escrever a musica se passaram meses, mas o poema me marcou demais e em uma noite de inspiração escrevi “Não foi em Vão”.

* A música adota um tom melancólico no início mas ganha contorno mais combativo no fim. Essa postura de indicar uma realidade sem o clichê da vitimização foi uma escolha consciente?

Otima pergunta! Foi totalmente consciente, tive bastante preocupação também que o conteúdo não ficasse “didático”, pois acho que esse é um dos fatores que afastam as pessoas de encarar essa triste realidade. Sempre que esse assunto é abordado causa vergonha e constrangimento, tanto nos que já viveram uma situação dessa natureza, quanto naqueles que vêem de fora. Minha intenção principal era de que as pessoas se identificassem de qualquer classe, cor ou gênero, mostrar que somos capazes de tomar as rédeas das nossas próprias vidas, não importa o tempo que demore, não importa o quanto nos submetemos a situações humilhantes, sempre é tempo de se transformar para o bem, por fim alfinetar a sociedade, no sentido de mandar uma mensagem radical: Queremos justiça!!

* O videoclipe mostra bem essa transição, da tristeza e decepção ao estado de reação e recuperação da autoestima através de imagens em que você demonstra domínio da linguagem visual. O quanto vc se envolve na produção dos clipes?

No caso de “Não Foi em Vão” o clipe veio pra complementar a música, sem aquelas imagens acredito que a mensagem não teria sido tão bem passada, Isso é mérito da diretora Alice Riff e do seu irmão Fabio Riff que criaram o clima perfeito, levaram uma equipe excelente pra realizar o trabalho. Eu criei o conceito junto com a Alice uma semana antes da filmagem, eu nem tinha gravado a faixa ainda, mas ela é uma pessoa tão apaixonada e focada que eu gravei na mesma semana pra que a gente pudesse gravar o vídeo. Acho que a maioria dos artistas quando compõe uma musica nova já imagina imagens, um clima e até mesmo um roteiro de clipe. “Não Foi em Vão” é o meu segundo vídeo oficial, antes teve “Vem pra perto de mim” do Diretor Rabu Gonzales, e pretendo lançar mais um ainda esse ano, eu gosto de todo esse processo de criação, de produção e espero estar cada vez mais envolvida na produção em todos os aspectos.

* Me parece que a grande mídia descobriu a produção do rap apenas mais recentemente; parte dessa "surpresa" é a presença de mulheres compondo, o que levou a matérias equivocadas, seja na aglutinação simplista de artistas diferentes ou na argumentação de que garotas criam música menos combativa. Concorda com isso? Se sim, como voce vê essa situação?

Eu concordo em parte, acho que a grande mídia sempre se atraiu pelo RAP, mas acho que o RAP só quis lidar com isso mais recentemente, exatamente pelo caráter combativo que o RAP tem (e sempre terá). Antes tínhamos uma postura mais retraída, essas matéria equivocadas são uma das razões da desconfiança do RAP com relação as mídias de massa. Acho que o objetivo puro e simples desses comunicadores é enfraquecer o RAP, torná-lo algo comum e sem valor. Não acho que o caminho seja dizer não a mídia, mas sim sempre lembrar que quem não se posiciona é posicionado.


Elizandra Souza é poeta e jornalista. Atuante no hip-hop, nos direitos da população negra e das mulheres, desde 2004 é poeta da Cooperifa (Cooperativa dos Artistas da Periferia). Editora da Agenda Cultural da Periferia, Elizandra lançará seu livro Águas da Cabaça no próximo dia 26 de outubro, com direito a pocket-show da Lívia Cruz. Mais detalhes abaixo:

Lançamento do livro de poemas de Elizandra Souza
Dia: 26 de outubro
Horário: 19h às 22h
Local: Espaço Periferia no Centro - Rua General Jardim, 660 - Vila Buarque
Quanto $: só colar





sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Thiago Pethit - Estrela Decadente


Dois momentos importantes que antecederam o lançamento de Estrela Decadente, segundo disco do compositor e cantor Thiago Pethit, ajudam a explicar o molde e o resultado obtidos com o recente trabalho: Thiago realizou uma apresentação interpetando Lou Reed para um projeto do Sesc São Paulo em janeiro de 2011: o desafio não era pequeno: com uma obra não apenas "intocável", Reed é dono de repertório amplo e diverso, além de possuir aspereza que, a princípio, não poderia se sustentar tão facilmente. Ok, era apenas uma apresentação. Mas a maneira como Pethit escolheu o repertório e demonstrou postura forte parecia indicar que o artista passava por uma condição de exploração de seus limites como frontman, algo que se refletiria também em suas composições. O segundo momento foi outro show, no início deste ano, em que músicas de Estrela Decadente estavam sendo ajustadas e testadas. Mais uma vez, a comparação com o cantor das primeiras apresentações de Berlim,Texas (seu primeiro disco) se tornava inevitável: muito mais confiante no palco, apresentando composições instrumentalmente mais incisivas e de imposição vocal mais à feição de sua origem teatral. Como essa evolução iria chegar ao disco pronto?

A boa notícia é que Estrela Decadente captura a energia dos shows recentes e confirma as composições mais expansivas. Entre as influências que já se mostravam no trabalho anterior - mas aqui amplificadas - estão o glam rock, o folk, o pop e o vaudevilesco. A primeira amostra desse Pethit de consciência pop bem firme aparece logo na introdução com Pas de Deux: em uma levada ao piano e backing singers evocando o cabaré, há um interlúdio disco, alusão aos versos que brincam com a aproximação entre duas pessoas. A sequência com Moon, um espécie de faixa perdida no tempo do pop, entre a escuridão oitentista e a decadência setentista, evoca uma trinca de Bowie, Reed e Iggy Pop. Tal alusão não fere a qualidade e a sensação de frescor que a música traz. Dandy Darling é um monstrinho glam, de refrão obviamente explosivo: "Amigo/escute o que eu digo/só venha comigo/se quer se perder por aí." 

A porção mais intimista do compositor se apresenta com Perto do Fim, um dueto com Mallu Magalhães. De tom melancólico e levada simples e melódica, serve como uma desacelerada após três músicas mais "espinhosas", e remete muito mais ao primeiro álbum. So Long, New Love, conhecida por ter sido trilha de uma campanha publicitária, surge como uma canção muito mais desenvolvida, de tempo desacelerado, apagando a impressão de indie-pop mais ordinário da versão anterior. Estrela Decadente dá nome ao disco e segue como um rock vigoroso com pé na sarjeta; aqui já concluímos que Pethit não se acomodou com os elogios recebidos em sua estreia e decidiu seguir seus instintos criativos. É claramente alguém mais despido e confiante, com todas as implicações de uma opção como essa. A leveza de Haunted Love, quase uma canção de ninar repleta de ooooohs - aaaaaahs dos vocais de apoio carrega uma aura verdadeiramente lúdica.

Mas o compositor que se aventurou por todo o álbum por emoções mais cruas, situações mais explícitas e músicas mais complexas retoma e encerra o processo com Devil in Me e Surabaya Johnny: a primeira, de título bastante significativo, poderia apenas reproduzir um clichê, mas soa realmente como uma autoanálise do autor diante de demônios internos - vide "Eu vendi minha alma pra saber que o diabo sou eu", cantada ao fim da música. Cida Moreira, muito admirada por Pethit participa da vaudevilesca Surabaya Johnny (versão do original de Bertolt Brecht e Kurt Weill), o momento mais abertamente teatral do trabalho. 

Estrela Decadente pode surpreender quem não pôde observar os momentos citados no primeiro parágrafo, mas não deixa dúvida para quem ouve: é uma evolução das ideias de Berlim, Texas e também uma expansão da entrega verificada ali. Entre uma atmosfera que evoca momentos de criação em meio a crises de decadência geracional, Pethit talvez tenha retratado, de forma indireta, as mazelas de São Paulo em 2012, um ambiente repressivo em que seus moradores tentam se desgarrar através de atividades artísticas como a música. Um disco de boas canções que nos leva a relacionar suas referências, o momento atual de seu criador e de suas inspirações é um salto relevante. 8/10   

Baixe o disco : http://www.thiagopethit.com/     

             

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

O rap redefine a "aristocracia do trabalho"




O Brasil vive uma transformação inegável : a autoestima das periferias e favelas melhorou com os programas de acesso a educação e assistência social, somados aos reais derramados e ao alcance de cidadãos que nunca haviam passado da porta giratória dos bancos a não ser para pagar conta de patrões. Mas os anos de amadurecimento desse processo trouxeram antigas e desagradáveis percepções, e os excluídos passaram a frequentar picos de classe média e adquirir pequenos símbolos de ascensão como smartphones e carros. Bastou para toda uma classe - e não apenas econômica, mas socialmente participativa - passar a bradar antigos preconceitos, de forma agressiva e sistemática. A cidade de São Paulo, com seu higienismo e suas imensas periferias é um grande exemplo dessa tensão que se acumula diariamente. Proibições, abusos policiais, violência e arbitrariedade caminham mecanicamente com uma visão de progresso bizarra, constituída sob preceitos capitalistas que findam inevitavelmente em benefícios de classe e desrespeito à ideia de comunidade. 

Dentro desse ambiente potencialmente desastroso e já saturado, a manifestação artística mais acessível e urgente acena com o engajamento natural do rap. Se a diversidade - inclusive de gênero - do estilo começa a tomar forma, não há negação em relação ao respeito e influência do Racionais: de Emicida a Lurdez da Luz, de Don L a Síntese ou mesmo Flow MC e Rincón Sapiência, Ogi e Projota, o pique e a localização geográfica podem ser diferentes mas há essência de combate e reação em todos eles. O relevante é que nomes como esses descobriram maneiras esteticamente diferentes de construir mensagem semelhante: respirar o ar da cidade e expor suas mazelas, de dentro pra fora. Algo que talvez o samba, o funk e outros subgêneros regionais também reflitam, mas de forma menos centrada. Se um boy fica indignado quando algum "encardido" aparece com a patyzinha, essa também é a reação dos interlocutores da mídia quando são obrigados a falar de alguma manifestação musical periférica que se posicione politicamente. É tão claramente incômodo que não há esforço algum para ao menos compreender a linguagem e o propósito da linguagem pop. Uma ressalva deve ser feita para os poucos que de fato exercem sua função, e ao mesmo tempo, de apontar para nomes dentro do hip-hop que, por ignorância ou deslumbre, alavancam material produzido por quem não respeita de verdade o trabalho produzido.


O historiador inglês Eric Hobsbawn definiu, em seu livro Os Trabalhadores, alguns aspectos do operariado britânico na era do fortalecimento do capitalismo. Havia uma "aristocracia do trabalho"; termo usado para descrever "certa camada superior distinta da classe trabalhadora, mais bem paga, mais bem tratada e geralmente considerada como 'mais respeitável' e politicamente mais moderada do que a massa do proletariado." Na década de 1890, um extrato de classe surgiu, denominada como "classe média inferior". Nas palavras de Hobsbawn " marceneiros, assistentes de marceneiros, descendo até os carvoeiros." Se os neo-mpbistas formam um tipo de "aristocracia do trabalho" no meio independente, o rap pode ter subido para algo como "classe média inferior" na visão dos cadernos culturais. Esses são valores do século dezenove, na Inglaterra industrial. O Brasil que cresce em meio a opressões capitalistas e moralismos de milico em contraste com a ascensão moral de parte dos pobres vive um dualismo perigoso, um passo pra cá e estamos sob cacetetes e bombas. Mas quem escreve a trilha sonora desse país nos anos 2010 não é aristocrata. 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Playlist: Melhores clipes e sons brasileiros de maio


Fizemos uma playlist com o que rolou de mais bacana no mês de maio no cenário nacional: os melhores clipes e músicas que pintaram na rede estão aqui:
Leia mais:

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Curumin - Arrocha


Curumin é um músico calejado: como baterista/percussionista já trabalhou com artistas diferentes como Céu e Arnaldo Antunes e esteve no palco com muitos outros como Criolo e Vanessa da Mata. Também é um compositor curioso e despojado, o que conta muitos pontos a seu favor: desde 2003, com seu primeiro álbum, "Achados e Perdidos", passando pelo elogiado "Japan Pop Show" (2008) até chegarmos a esse recém-lançado "Arrocha", Luciano Nakata  manteve seu próprio ritmo. Sem pressa para colocar novas canções em registro definitivo, Curumin cultivou um saudável frescor em cada um dos seus discos, tornando-os relevantes mesmo sendo lançados em períodos distantes e espaçados. "Arrocha" é o mais enxuto e direto trabalho do paulistano, um pop ritmado e equilibrado nas influências típicas como música jamaicana, hip-hop, rock e brasileirismos setentistas.

Gravado no esquema caseiro, o disco utiliza muitos elementos eletrônicos: para um baterista de formação, o risco de formar uma massa de batidas insistentes desequilibrando as harmonias é maior. Sabendo disso, Curumin não abriu mão de utilizar toda sorte de variações, sendo inventivo nos momentos em que as músicas pediam mais harmonia e quietude. Sobrou para as vinhetas o papel mais simplista, de conexão  despida em relação às canções, em geral de sólida formação melódica. "Afoxoque" traz eletricidade em uma pegada imediata de acento dancehall: um ponto de partida que alimenta a curiosidade do ouvinte, presenteado com uma virada de primeira para a música seguinte, "Selvage"; é o ponto em que a percussão orgânica dá passagem no mix para uma introdução eletrônica, reveladora da habilidade do autor. O dub "Treme Terra" traz mais uma boa novidade: Curumin parece cantar com mais desenvoltura, moldando versos e fortalecendo uma percepção de confiança. Até aqui temos um disco permeado de batidas bem marcadas, melodias claras e uma ligação que não permite silêncios entre uma música e outra. Uma saraivada de batuques que, mesmo empolgantes, poderiam deixar um certo cansaço se persistissem. A sequência com a suave composição original de Russo Passapusso, "Passarinho", é o momento de despressurização: a bela canção é levada com organicidade e é repleta de soluços, caminhos de efeito instantâneo, algo que Roberto Carlos assinaria circa fim dos sessenta, início dos setenta; mesmo assim, sem nenhum ranço de referencial exacerbado, possui um encantamento urgente, um clamor de novos ares românticos. 

"Paris Vila Matide", além das citações relativas à metrópole paulista, é uma balada acústica que faz uma reflexão humanista, de relações entre distâncias, pensamentos e a necessidade de aproximação comunicativa. Contrapontos pungentes em relação ao início frenético do disco, "Passarinho" e "Paris Vila Matilde" não surgem como estranhezas, mas extensões naturais do exercício pop - ainda que de forte apelo instrumental - das composições de abertura. "Vestido de Prata", com participação da Céu, é um convite ao baile: como uma noite junina no interior nordestino colidindo com ares jamaicanos, é um hit pronto que aquece a ambiência de "Arrocha". Uma temperatura que não mais cairá, seguida pelo reggae suado de "Doce",  o hip-hop de "Blim-Blim" e "Sapo Cururu" e os versos falados de "Acorda". Antes da despedida com "Bambora!", uma inserção dispensável, há mais uma canção ao estilo cantor-compositor: Curumin canta com inegável desenvoltura "Pra Nunca Mais", bonita em sua cadência de uma quase valsa.

"Arrocha" é um disco extremamente enxuto, de canções curtas, coesas, porém de recheio delineado. Equilibrando a natural vocação para o ritmo de beats e percussão marcada, há espaço constante para a fluência melódica e consciência voltada para a absorção natural das influências. Ao cantar "Vou andando só por andar/sonhando sem acordar...(sou) uma pluma/ no macio do ar/arrepio do vento a me levar", o compositor acaba, de forma consciente ou não, resumindo suas intenções e abordagem artística: inspiração e intuição caminhando junto com a conveniência do momento, que se faz correto por circunstância. "Arrocha" é o fruto mais bem-acabado de sua carreira até agora. 8/10  

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Nite Jewel - One Second of Love


Em algum momento durante She's Always Watching You, uma das faixas do segundo álbum do Nite Jewel, percebemos que a atmosfera é consideravelmente mais ampla do que em Good Evening, estreia de 2009. Ramona Gonzalez, aka Nite Jewel gravou seu primeiro disco em uma velha 8-track, registrando em cassete seu pop eletrônico amarrado em new wave, glam-rock e R&B .Na canção de seu segundo álbum (One Second of Love) citada acima, a produção é cristalina, permitindo que a voz da cantora se torne um referencial até então impensável, considerando a abafada sonoridade lo-fi de seu trabalho anterior. Entre beats marcantes e espaçamento de intervenções, She's always...é um R&B robusto, uma amplificação brutal da massa analógica que rendeu à Ramona elogios em 2009. This Story abre o disco com uma balada saída de algum lugar de 1985, como uma playlist de FM em programação da madrugada: lenta e pouco sutil, sintetizadores construindo caminho para os vocais agora bem destacados da compositora. 

Se Good Evening funcionava como um mosaico de pequenos pedaços de história entrelaçados, sinalizando uma sequência lógica e quase inseparável entre as canções, One Second of Love abraça as influências usuais mas as estilhaça e expõem a capacidade criativa de Ramona em lidar com certa multiplicidade sônica sem afetar sua qualidade. São álbuns diametralmente opostos na abordagem de construção e produção, embora utilizem de matéria-prima similar. Uma das muitas e saudáveis idiossincrasias do pop atual. A canção que nomeia o disco é um kraut-electro-funk que constrói sua potencialidade pop através de um refrão efetivo e versos que criam a tensão. Aliás, as letras muito mais discerníveis são um trunfo aqui: elas fazem um trabalho que talvez a boa inflexão da forte voz da californiana não fosse capaz de realizar sozinha. Seja nos lamentos românticos do electro-pop oitentista In The Dark ou na sensualidade da sinuosa e de inspiração Kate Bushiana Unearthly Delights, há um evidente ganho ao encaixar versos simples porém vigorosos em melodias bem delineadas.

No I Don't ocupa o terreno dos espaços propagados por gente como James Blake com uma aproximação mais clara com a eletrônica atual; em compensação, Autograph é puro R&B noventista, com resultado menos empolgante. Junto com a anêmica Mind and Eyes, formam os momentos mais fracos do álbum. O final se equilibra com Clive, levada quase que apenas por sintetizadores e voz criando um clima de camadas frias e quentes se revezando e Sister, de guitarras vaporosas. A sonoridade mais clara traz qualidades ao disco como o equilíbrio entre canções de levadas distintas, a bela voz de Ramona Gonzalez, a possibilidade de explorar maior variedade; por outro lado, há algumas aproximações com o pop mais estilizado que resvalam no pastiche, algo que Good Evening evitava ao trabalhar em uma sintonia mais curta. De qualquer forma, após alguns EPs que serviram para preparar e amadurecer certas ideias, Nite Jewel não se acomodou e, apesar de longe da perfeição, One Second of Love merece atenção. 7/10   
      

terça-feira, 17 de abril de 2012

Vinte anos em dois: Como a música nos move


Passei os últimos dias pensando se deveria criar um texto pra falar sobre os dois anos do blog no ar. A verdade é que eu não sabia nem mesmo por onde começar, o que dizer e, principalmente, se isso era realmente indispensável. Evidente que, como qualquer outra pessoa que tenha se aventurado a postar conteúdo na internet sabe, é motivo de congratulação a persistência em manter ativo por dois anos completos um blog, sendo uma atividade que não rende lucro de forma direta. Mas, ser importante para o autor não transforma o texto em algo relevante para o leitor aleatório, nem mesmo para os assíduos. O risco de cair em um loop irritante de autoelogio (ou auto-comiseração) é grande. Então percebi que os pensamentos e análises que estiveram presentes nesses dias trouxeram motivos mais importantes para a feitura de um texto: a nossa relação com a música, e de que maneira ela pode impulsionar decisões e instigar movimentos em um cenário muito maior.

Em 2010, por motivos pessoais, me reconectei com o exercício da escrita. O amor pela música nunca se alterou desde que, ainda pivetinho, procurava por informações em revistas gringas, trocava dicas com amigos e redigia um zine datilografado que reunia resenhas (com muita coisa chupinhada dos reviews de fora, por pura limitação) e alguns desenhos horríveis. Passei mais de uma década consumindo e sendo o mesmo nerd, mas sem tempo para escrever. Retomar o que já havia sido um objetivo de vida foi muito difícil, já que as palavras só fluem com facilidade para alguns poucos; para mim, é apenas algo conquistado com esforço e repetição. Um enorme gap geracional tomou forma durante esse período: como observado, eu comprei CDs. Muitos, alguns que se assemelhavam mais a troféus em simbologia pela dificuldade - financeira e logística - em adquirí-los. A informação era concentrada, lenta. Dispensável descrever a realidade atual. Na teoria, seria um sonho ver meus textos de cópia única sendo distribuídos para o mundo inteiro. Isso em 1992. Agora, um blog sobre música é mais um entre centenas de milhares, fadado estatisticamente à irrelevância.

É claro que havia anteriormente um caráter mais explícito de paixão: ser autor de um zine meia-boca que não poderia atingir tantos leitores pode ser definido como um ato quase desesperado de espalhar informação "relevante" em um mundo alienado (ah, a inocência e a petulância juvenil). Hoje ter opinião e registrá-la eletronicamente é rito quase obrigatório, e ao mesmo tempo uma atividade considerada banal pela molecada. Há muito de repetição e abandono de argumentação lógica em blogs comandados por meninos e meninas que possuem um mundo tão mais aberto e acessível. Porém, as exceções são exponencialmente mais equipadas do que os sulfites datilografados de outrora: há quem desbrave o mundo das infinitas informações digitais com a mesma essência da energia adolescente pré-Napster, com uma diferença: conhecem muito mais música do que eu, ou qualquer outro ser ordinário conhecíamos antes da revolução do Mp3. Mas, o que conecta um guri dos anos noventa suando para espalhar suas opiniões e um guri em 2012 utilizando ferramentas voláteis com grande habilidade? A resposta passa pela força cognitiva, sensorial e de estímulos que a música nos traz.

A forma de consumo de cultura até os anos noventa envolvia considerável comprometimento financeiro. Quem não tinha grana se virava com cópias, empréstimos, fitas (VHS e cassete) e até aluguel de CDs. Isso trazia uma relação duradoura, fiel. Como descartar o que era tão difícil de se conquistar? O processo de audição de um disco novo, por exemplo, estava inerentemente ligada à absorção de cada acorde ou arranjo contido ali. De forma diferente, o consumo atual se tornou mais custoso apenas para a experiência de espetáculos ao vivo, que tomou curva ascendente de demanda diante da inexistente tomada de lucro com a venda de dispositivos físicos. De forma geral, o fã de ocasião ou o mais interessado se beneficiaram enormemente com a livre (embora combatida com força recentemente) distribuição de arquivos. Antes ou agora, há quem viva no meio, mas despreze a experiência real da música: os que se preocupam com a presença vip em eventos e o reconhecimento nas ruas, mas tratam com desdém a curiosidade e vivem apenas como agentes reativos, longe de acenderem discussões ou arquitetarem argumentos válidos. Natural para quem na verdade prefere viver de uma nostalgia inútil.

Falo aqui da música popular, não apenas por ignorância em relação à produção erudita, mas também pelo fator sempre geracional do pop, a captação do zeitgeist e o reaproveitamento de elementos do passado. Exatamente como conduzimos nossas vidas criando complementos de experiências, a música nos acompanha como um paralelo afetivo, capaz de realizar a tarefa de aglutinar pontos espaçados, gerando uma espécie de reação química: a combinação pode até ser controlada, mas é sempre complexa e sinuosa; "música para cortar os pulsos" para uns, "linda composição" para outros. Um bom disco pode criar faíscas em áreas díspares, como na curiosidade literária ou na inserção política e social. Pode servir como analgésico e, apesar de ter um caráter altamente pessoal, íntimo, também reúne pessoas. Esse tipo de força não foi afetada pelas mudanças no padrão de consumo: talvez seja mais difícil estabelecer uma conexão entre fãs e artistas em um mundo destituído da tangibilidade de outrora, mas  a essência de como o pop nos toca segue inalterada. E é dessa força que se abstrai o estímulo para as dezenas de tarefas diárias que enfrentamos.

Durante um show recente do Criolo, enquanto percebia um sentimento de cumplicidade em uma plateia heterogênea, tive a lembrança de um garoto estigmatizado como "encardido" na escola. Esse moleque, que sabia se defender das ofensas racistas dos boys locais encontrava uma maneira de botar pilha nos playbas: cantava insistentemente "Fim de Semana no Parque" e professava a genialidade de um certo Mano Brown pra uma galerinha que só ouvia ítalo-dance nos bailinhos da cidade, rock tiozão ou grunge (eu, nessa última opção). Como orbitava um universo dividido, me vi muito interessado em saber mais sobre o ídolo da periferia. Aquilo abriu espaço para compreensão de muitas coisas que pareciam confusas para mim. A emoção que me tomou quase vinte anos depois enquanto Criolo comandava com dedicação seu público exemplifica como a música se mistura indelevelmente com nossas experiências pessoais. 

Só em 2012 até agora, muita coisa já foi capaz de gerar alguma onda de entusiasmo, alegria ou o impulso para escrever a respeito: a densidade de Tramp, de Sharon Van Etten, a jornada poética de Siba em Avante, os caminhos de luzes e sombras de Fin, de John Talabot, a robusta entrega de Jason Pierce e seu Spiritualized em Sweet Heart, Sweet Light e muitos outros, alguns já registrados em postagens por aqui. Se a análise crítica tenta subtrair parte dessa imensa pegada emocional ao tentar equilibrar descrições técnicas com a subjetividade da experiência, opta corretamente em não abraçar o cinismo (que muitas vezes mascara  ignorância e até racismo) em textos que poucam acrescentam. Não sei se o blog estará ativo em 2014. Mas motivos não me faltam para acreditar que sim.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Some Community - underconstruction


Quase dois anos se passaram entre o lançamento de RinoRino, EP de estreia do quinteto paulistano Some Community, e seu sucessor, o novíssimo underconstruction. O tempo parece ter funcionado para a banda agregar novos ingredientes em sua sonoridade sem desfazer a impressão positiva deixada pelo trabalho anterior. Em RinoRino os ganchos melódicos e os ataques de guitarra eram elementos importantes, mas já existia espaço para aproximações com estruturas mais trabalhadas. Não faltavam o ar de empolgação e certo desapego necessários para bandas jovens, mas era possível vislumbrar um futuro ainda mais interessante.

Em underconstruction, as cinco faixas formam uma combinação mais próxima e coesa, como um mini-álbum deve ser: tanto nos climas quanto na sequência escolhida, o disquinho flui mais facilmente.A música de abertura, 73, possui uma introdução puxada para um clima pós-punk oitentista sombrio, mas se transforma em uma espécie de Blondie rejuvenescido, toda costurada entre o dançante e o agressivo. Um cartão de visitas de habilidades aprimoradas e curiosidade intacta. Fine Hour, levada por piano e arranjos delicados, demonstra andamento não-linear e construção que alimenta um nível de aproximação emocional com a narrativa; interessante notar que a relação de racionalidade na execução e produção não atrapalha na dinâmica ou engessa certos movimentos. At Her Light é uma continuação perfeita, moldando o que a banda representa hoje: o entrosamento traz uma bela medida de contenção, em que o efeito pop imediato é descartado por uma profundidade melódica conquistada por uma evidente elevação do nível de habilidade do grupo: a vocalista Juliana canta com energia já conhecida, mas seu controle e intuição são agora um grande trunfo, trazendo mais camadas e maior alcance, da mesma maneira em que o instrumental alterna uma base bem constituída porém recheada de nuances. 

O clima de cabaré decadente de Tango's Derby é mais uma boa surpresa: a canção não percorre caminhos óbvios, desafiando o ouvinte. Ironicamente, é a única em que uma intervenção mais barulhenta de guitarra - mais comum em RinoRino - surge, mesmo assim em um contexto cinemático, de criação imagética e não de simples catarse. Head and Tail encerra o disco encontrando o Some Community do pop poderoso dialogando com uma versão mais complexa e adulta: um hit pronto de andamento lento, que evita clichês: talvez esteja aí o work-in-progress referenciado no título do EP.

Que essa banda esteja caminhando com as próprias pernas em busca de um constante desafio às próprias referências é uma boa notícia: mais fácil seria praticar um simulacro de indie-rock gringo e se contentar com tapinhas nas costas em festas fechadas. Mas essa garotada prefere absorver as influências e se divertir. É exatamente o que se espera do sangue novo no pedaço. 8/10  
                


Baixe o disco no site oficial da banda.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Novo vídeo do Ogi: Eu Me Perdi Na Madrugada


O incansável Ogi está com clipe novo: a faixa escolhida para ganhar imagens foi Eu Me Perdi Na Madrugada. Quem acompanha o blog sabe que o fera é presença constante por aqui, já que seu disco de estreia, Crônicas da Cidade Cinza, foi escolhido disco do ano em 2011. Além disso já lançamos faixa exclusiva com o Stereodubs e também fizemos um texto sobre o entrelaçamento das crônicas do MC com os contos do escritor João Antônio. O clipe ficou bonzaço, com a direção de Del Reginato e artes de João Lelo:

quarta-feira, 28 de março de 2012

Blood Red Shoes - In Time to Voices


Se uma característica do pop atual é a diversidade e o hibridismo, também é verdadeiro que certas premissas relacionadas ao passado resistem. Entre discussões a respeito do reaproveitamento do passado através de uma visão multiplicada por referências entrelaçadas, há espaço para aqueles que caminham em um espaço mais delimitado. Mais do que escolhas estéticas revivalistas em relação aos métodos antigos de produção, algumas bandas trabalham mais confortavelmente em uma esfera pré-internet, lugar imaginário em que influências de adolescência ainda soam mais fortes e importantes para a composição do que uma cornucópia de sons e informações. A dupla inglesa Blood Red Shoes possui uma ligação clara com o rock estadunidense dos anos noventa: desde a criação da aspereza melódica de grupos como Babes in Toyland e Breeders (que os convidou para uma edição do festival ATP) passando por toda a comoção punk do Fugazi e Sonic Youth e a agitação grunge do Nirvana. Um compêndio de "rock alternativo" de quem era gurizinho e curtia a simbologia quase espiritual da época.  

Essa premissa colocou a banda de Brighton longe das festividades pós-Britpop da ilha, que gravitou inevitavelmente em pequenos agrupamentos de medíocres buscando uma forma de enquadrar o conceito de "indie" encaminhado pelos Strokes em uma nova embalagem de Cool Britannia. Os dois primeiros discos do Blood Red Shoes caminharam longe da badalação habitual, mas não consagraram a banda como alternativa relevante à apatia da cena de rock inglês: ainda em grande débito com fórmulas e respeito demasiado aos seus heróis, Box of Secrets (2008) e Fire Like This (2010) não passaram de trabalhos interessantes, em que a energia estava canalizada na forma e estrutura, mas carente de composições mais eloquentes. In Time to Voices, o novo álbum, não apenas evolui em comparação direta com a abordagem citada, mas se constitui em um ótimo exercício de rock; uma surpreendente evolução.

A música praticada aqui transforma a dinâmica engessada loud-quiet-loud em algo mais sofisticado: como toda boa guitarrista, Laura-Mary Carter utiliza suas customizações de pedais e amplificadores, dessa vez praticando uma contenção mais inteligente e intuitiva, como na abertura com a faixa-título.Perceptível também é a captação da boa voz de Laura, evidente nas apresentações ao vivo mas descalibrada anteriormente. Acompanhando sua companheira, a bateria de Steven Ansell se mostra mais comedida e equilibrada. Essa segurança só se tornou possível porque está envolta em composições mais robustas; Lost Kids flui com a duplicação de acordes de Laura, tecendo um clima envolvente. O single Cold traz um belo pedaço de pop espinhoso, um ataque de impulsos com Carter e Ansell dividindo a cena, nos vocais fortes (Steven é Dave Grohl melhorado e Laura uma riot grrrl afiada) e em seus respectivos instrumentos. 

No recheio do álbum, a prova de que a dupla se livrou do excesso de referências: uma sequência de músicas mais lentas, utilizando recursos de estúdio para um efeito expansivo: vozes que se harmonizam, canções divididas em partes, sobreposições e refrões menos bombásticos - mas não menos efetivos - compõem um cenário mais rico e diverso: O aceno psicodélico de Two Dead Minutes, a quente e bela The Silence and the Drones e a acústica Night Light representam um passo diferente no repertório da banda. As letras que retratam decepções e conflitos pessoais avançaram do estágio grunge-for-dummies para algo verdadeiramente arrebatador, se não exatamente profundo. Há espaço para uma ligação mais emocional com o ouvinte, tanto em aproximações mais delicadas como Stop Kicking e Slip Into Blue como em uma pedrada de um minuto e meio (Je Me Perds). 

O Blood Red Shoes criou um disco que não abandona as virtudes mostradas anteriormente mas amplia consideravelmente seu espectro musical. Equilibrando peso, sujeira e melodia, envoltos em composições mais robustas, os ingleses fazem de In Time to Voices um álbum de rock cascudo anos noventa que soa bem em 2012. Decerto não estamos diante de uma fúria inteligente estilo Piccioto/MacKaye ou de uma química torta dos Pixies, mas de herdeiros de uma era mais pra bagaceira do que indie-propaganda da Apple. Quando se apresentaram em um gelado Parque da Independência, em São Paulo, no ano passado, uma plateia de adolescentes excitados cantava as canções com apego. Eles ignoraram a atração seguinte do festival, Miles Kane, enquanto tentavam pegar os CDs distribuídos pela dupla, que parou pra trocar ideia após o show. Em plena era do Mp3, ou talvez por causa dela , havia ali uma agitação legítima em torno de uma banda pouco conhecida no país. O Blood Red Shoes caminha para não ser deletado tão cedo dos Ipods mundo afora. 7,5/10                 



quinta-feira, 22 de março de 2012

The Cribs com novo single: Assista ao vídeo


Os irmãos Jarman voltarão com seu quinto disco, In The Belly of The Brazen Bull, a ser lançado dia 7 de maio no Reino Unido. O primeiro vídeo extraído do novo trabalho é mais um lançamento do canal do Noisey no Youtube (responsáveis por Waasup, do ASAP Rocky e Bad Girls, da MIA). Come On...segue a fórmula punk-pop garageira do Cribs, com a adição de um bem-vindo toque grunge. A breve passagem de Johnny Marr pela banda (única coisa lembrada pela mídia especializada brasileira quando os caras estiveram por aqui ano passado) não deixou saudades. Quando entrevistei o grupo em 2011 eles diziam estar em dúvida se deveriam deixar seu som mais "polido" e produzido com grandiosidade ou apenas manter a postura fita magnética-sujeira-rocker. Pelo jeito venceu a segunda opção. Mas há mais do que apenas poeira indie na sonoridade do trio, que trabalha com produtores diferentes a cada álbum. Assista ao vídeo de Come On, Be A No-One :
    

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Sleigh Bells no SNL


A dupla Sleigh Bells apresentou duas músicas do seu segundo disco, o ótimo Reign Of Terror no Saturday Night Live: Comeback Kid e End Of the Line.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Die Antwoord - TEN$ION


TEN$ION é apenas um inferno de batidas eletrônicas processadas juntamente com as intervenções dos MCs Ninja, Yo-Landi e DJ Hi-Tek: referências como teclados euro house, tecno barangado, hip-hop e dubstep ocupam o mesmo espaço de versos que lançam bravatas sexistas em um momento e visões ufanistas em outro, com uma velocidade desnorteante. Ok, o segundo álbum dos sul-africanos que ganharam atenção global em 2010, na cola da febre Distrito 9/Copa do Mundo expande o universo planejado pela estreia $0$, originalmente lançado em 2008 e distribuído mundialmente em uma reedição de 2010. A ideia de "Zef", uma espécie de cena local que englobaria um perfil rap/rave apocalíptico e a estratégia de viralizar os vídeos, que acabavam linkando para outros que desvendavam a história dos integrantes da banda pode ter decepcionado aqueles que acreditam em contos encantados envolvendo bandas de indie rock se formando em cortiços; o passado de Ninja aponta para um artista que transitou pelo rap local assim como em quadros humorísticos locais. Isso não deveria ser um problema de credibilidade, certo fãs de Drake?

Never Le Nkemise 1 se inicia com um coro de belas vozes para repentinamente se transformar em um monstro de clichês dubstep embora arranhe apenas a manipulação das linhas de baixo e não as batidas com suas hi hats e quebras de tempo. "Sou invencível" é o brado aqui. I Find U Freak conta com os vocais de Yo-Landi e é mais uma pedrada de bastardização eletrônica, um C+C Music Factory travesti e frases simplistas ("Jump, Muthafucka, jump!"). Fatty Boom Boom segue com o amálgama pop periférico à la M.I.A. de Arular, um fogo cruzado de ritmos e palavras de ordem. Aliás, o Die Antwoord realiza aqui uma versão mais enxuta do primeiro disco, embora demonstre de forma mais direta suas influências cruzadas e cronologicamente bizarras.

So What? traz um hip-hop mais "puro", tirando o pé do clima rave/flashback químico. Não surpreende que a sequência de faixas siga com esquetes esdrúxulas como Uncle Jimmy ("Senta no colinho do tio Jimmy"), a farofada Baby's On Fire, que podia estar em alguma coletânea da Mixmag da década passada e U Make a Ninja Wanna Fuck com seus teclados "ácidos" similar a alguma faixa do Prodigy em 1992: Parte do DNA do Die Antwoord é herdado da bagunça desordeira e da trucagem esperta de quem se entope de música e aditivos. O single Fok Julie Naaiers é exemplar: traz a tensão que dá título ao disco, soa contemporânea e agressiva: parece algo desenhado com certo cuidado até o ponto em que os integrantes se perderam entre um tirinho e outro e a deixaram daquele jeito mesmo. 

TEN$ION pode trazer essa versão distorcida da eletrônica e do rap de forma referencial, mas há tempero suficiente para tratar a música aqui como sendo produto de 2012 mesmo: entrelaçados estão os vídeos de Enter The Ninja, que fez a banda entrar no mapa em 2010, o falecido artista e DJ Leon Botha (colaborador do grupo), o contrato com a major Interscope, feito e desfeito, o fato de rimarem usando gírias locais e até dialetos, desaguando em um disco novo em um espaço temporal pequeno.O Die Antwoord  criou sua própria versão da realidade em pouco tempo e não há problema nisso quando a música é tão divertida. 7/10    

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Siba - Avante


Não sabemos ao certo os motivos que engrenam o motor criativo de um músico: seja no aspecto pessoal, nas descobertas técnicas ou no interesse mercadológico, há sempre um elemento de discussão, que no fim das contas acaba por tornar nebulosa a análise (eternamente dissecada) sobre as relações externas e o trabalho em si. Entretanto, quando o foco é a arte propriamente dita há possibilidade de encontrarmos   pontos importantes: Quando consumimos música e tentamos fazer um paralelo daqueles acordes com o cenário em que possivelmente habitam os versos e melodias ali presentes, estamos apenas especulando sobre a mente de outra pessoa. Mas é parte fundamental da música pop nos remeter ao mistério, à curiosidade e a busca por empatia. São elementos indissociáveis, porque das sensações é que são construídas grandes canções: Avante, disco do pernambucano Siba, é recheado de momentos sensoriais e instigantes. Embora seja estruturalmente diferente de sua obra até aqui.

Siba comandou a rabeca - e também a guitarra - do Mestre Ambrósio, grupo que alçado ao levante do manguebit no final dos anos noventa trouxe suas diferenças e suas qualidades: raspando o rock apenas para dizer que o forró, a ciranda, o baião e o maracatu soavam mais alto e mais forte. Para um urbanóide com dois pés na tradição e nas suas conexões, após a dissolução da banda Siba trabalhou em projetos que o levaram para longe - geograficamente - em busca de novos respiros: sua Fuloresta, que reuniu músicos de Nazaré da Mata (PE), local em que residiu, rendeu o disco Toda Vez Que Eu Dou Um Passo o Mundo Sai Do Lugar (2007). O músico também lançou um trabalho com o violeiro Roberto Corrêa - Violas de Bronze, em 2009. Saindo de uma cidade de trinta mil habitantes e retornando para as andanças das grandes cidades - até retornar a São Paulo, local que o acolheu anos atrás - Siba repensou não apenas a forma de realinhar suas ideias, mas permitiu que alguns desafios causassem algum tipo de reação: retomando a guitarra, as composições mais personalistas e uma estrutura quase tradicional de banda de rock: com grandes espaços a se preencher, imagino que Siba tenha se deparado com uma grande folha em branco, ao invés de trabalhar sobre um livro já rabiscado e esquematizado.Que tenha optado pela primeira é surpreendente e louvável.

A exposição de se colocar de forma distinta permitiu a Siba uma forma de criação que dinamizou as canções, que são montadas sob riffs costurantes, com bateria e tuba segurando o ritmo e teclados que se inserem de forma pontual. A produção, dividida entre o compositor e Fernando Catatau, é equilibrada ao não sugerir uma mão pesada em direção a um rock "quadrado". Preparando o Salto inicia o álbum com a já citada trama guitarrística, aliada aos versos fluidos e inteligentes; a quebra melódica e a confiança vocal de Siba, um crooner de bar de beira de estrada (no melhor sentido da definição) aquecem a alma: " Não vejo nada que não tenha desabado/Nem mesmo entendo como estou de pé.../Vou passar como um santo mudo/Mirando o alto, rindo/Preparando o salto/Deixando pra trás...tudo." É uma declaração de intenções, de novos horizontes e sobre encarar o medo. A letra reflete a melodia: forte, assertiva sem perder o lirismo e a beleza.

Ariana traz o romantismo que soa exatamente como algo nordestino - embora elementos percussivos tão pertinentes á ciranda e ao maracatu não estejam tão presentes - simplesmente por contar com uma tradição discursiva, de repentistas e da literatura de cordel transportados para uma combinação de letra/melodia mais uma vez efetiva, como um encanto em uma noite quente. A Bagaceira faz a tradução musical das intenções - ou pelo menos do resultado delas - de Siba: dialoga com o rock, com a música popular aka brega e faz o contorno pelo fraseado do Tinariwen. Canoa Furada eleva o volume da guitarra na introdução mas mergulha pelo universo referencial de Siba com um único respiro: não estaria fora de contexto em Amarénenhuma, ótimo disco lançado pela banda Nuda em 2011. Avante traz peso de guitarra na introdução em ritmo psych-rock-xaxado. As duas últimas músicas do disco são reflexões cheias de afeição  e os momentos em que Siba se mostra mais desarmado, frágil e capaz de sintetizar a vontade de mudar em forma de música boa: Qasida é um lamento nostálgico tracejado por um solo de Catatau que injeta maior contorno instrumental (e emocional); Bravura e Brilho é um carinhoso retrato do sentimento paternal e, ao mesmo tempo, da nossa própria consciência da efemeridade das coisas.

Avante abre o ano na música brasileira apontando para um caminho promissor: Reconhecido compositor e músico, Siba se propôs a reconstruir sua trajetória através do caminho mais arriscado: recorrendo ao passado não como fundação de uma nova estrutura, mas como elemento que ajuda a agregar partes da história, indeléveis, que percorrem uma linha imaginária do tempo. Linha intangível, de ligações múltiplas e digressões. Diante do desafio, é preciso coragem pra seguir adiante. Ou Avante, na palavra de Siba. 8/10