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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ordinária Hit - Funcionário


O aspecto político na música brasileira sempre vagou pela poesia que floreia mas não escancara, ou em relatos sociais que embutem comentários políticos. O medo de ser incorreto demais ou a vergonha de soar panfletário e infantil talvez expliquem a falta - ou escassez - de críticas ou posições deliberadamente abertas quanto á política. O Ordinária Hit lançou um EP chamado 3, em referência ao aumento do preço da passagem de ônibus em São Paulo. Esse álbum, Funcionário, foi lançado no dia do trabalhador. Não espere a groselha rock brasil 80 nem nas letras nem no som desses caras, no entanto.

Com frases curtas como intervenções, e uma sonoridade repleta de tensão, sujeira e riffs lancinantes, que operam entre o pós- punk e a no wave, Funcionário é um retrato musical da relação de trabalho e perda de humanidade. A ambientação relembra a confusão e a inconsistência dos padrões impostos, os vocais soam como ordens gerenciais; basicamente, é um dia no escritório, no que restou de não-robótico no chão de fábrica ou no carroceiro que é açoitado pelo sol e por motoristas apressados.

São onze faixas trabalhadas de forma extremamente coesa: a banda investe no equilíbrio entre o violino (sim), a guitarra, o baixo e batera, os vocais; algo de sinistro e incômodo percorre as canções, o que permite que se enxergue a grande qualidade do disco: transportando a dureza e a resistência como faces indissociáveis do labor atual, o Ordinária Hit criou a trilha sonora adequada para o endurecimento das almas. 7/10

domingo, 3 de julho de 2011

Iceage - New Brigade


Aparentemente qualquer coisa que venha do mundo nórdico é capaz de impressionar mentes estadunidenses, desde sagas fantasiosas da Idade Média até prostíbulos repletos de loiras malucas. Um trio adolescente como o dinamarquês Iceage também. New Brigade encapsula 12 canções punk com visões distorcidas e certo descontrole (isso é bom), mas possui algumas limitações na construção e, verdadeiramente, soa datado. Uma dose de excitação de blogs e alguns shows pela América farão com que o nome deles ecoe por algum tempo.

A grande vantagem do Iceage é que eles não perdem tempo com ambições do tipo "ópera-punk- pós- wikileaks" e só parecem mesmo guris meio desajeitados e sem articulação. Qualquer relação com a tensão entre imigrantes islâmicos e dinamarqueses e o contexto da situação econômica frágil da União Européia é resumida em riffs abrasivos e versos curtos como palavras jogadas, sem aproximação abertamente política. New Brigade se aproxima muitas vezes da poeira suja do pós-punk, vasculhando a prateleira dos dois lados do Atlântico.

Um caso de badalação exagerada, portanto, mas a coisa toda acaba em menos de meia hora, e traz alguma curiosidade sobre o som produzido na terra da Katja K. 7/10

terça-feira, 26 de abril de 2011

Gang Of Four - Content


Com a nova organização do modelo de consumo de música, bandas velhas estão retornando em busca de uns trocados e enterrando qualquer senso de dignidade ao tocar seu repertório antigo para fãs saudosistas. Mais difícil - e arriscado - é se manter criando músicas novas. O Gang Of Four nunca realmente terminou, mas sua trajetória foi cheia de interrupções. Com um disco de estreia clássico (Entertainment!, 1979) e uma carreira mais prolífica até o meio dos anos oitenta, os anos seguintes viram o grupo perder dois membros originais e apenas dois álbuns de inéditas na década de noventa.

No começo desse ano, Andy Gill e Jon King, os dois remanescentes da formação original retomaram a carreira de verdade. Não apenas excursionando (como vinham fazendo durante a segunda metade dos anos 00), mas gravando um album de inéditas. Bastante apropriado para o momento, já que o pós-punk que fez a fama deles, um do tipo funkeado, afiado e abrasivo serviu de grande influência para sujeitos do cenário recente: das experiências dançantes de bandas como Rapture, !!! e LCD Sounsystem (selo DFA em geral) ao pop britânico do Franz Ferdinand e Bloc Party . Sem falar em bandas clássicas como Fugazi e Nirvana. Ou seja, eles tinham de entregar alguma coisa decente, senão seria uma decepção.

Content não apenas retoma o som clássico do início de carreira, mas também parte da inspiração e força. A pegada instrumental está presente nos riffs de guitarra ora fluidos e dançantes, ora ameaçadores e pesados, enquanto a cozinha trabalha no interplay funkeado. As letras mantém o cinismo e a acidez de outrora, embora eles tenham amadurecido suas mentes tanto quanto o mundo político atual se aproxima das polaridades dos anos setenta. Se o disco sofre em algum momento pela falta de variações, cresce com alguns sons mais redondos como I Can't Forget Your Lonely Face, You'll Never Pay For The Farm e Second Life, todos exemplares da coisa abrasiva/funkeada/quadrada típica da banda.

Assim como o Killing Joke, que lançou um sólido disco no ano passado, o Gang Of Four pode se orgulhar de suas novas canções: elas se integrarão perfeitamente num setlist que contenha Damaged Goods, Natural's Not In It, e At Home He's a Tourist. 7/10

O Gang Of Four faz apresentação gratuita em São Paulo no dia 29 de Maio dentro do Cultura Inglesa Festival, junto com Blood Red Shoes e Miles Kane. Os shows serão no Parque da Independência.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O.Children - O.Children



Essa banda londrina me chamou a atenção. Primeiro pelo nome, que me lembrou a ótima canção do Nick Cave. Depois porque, pelas fotos promocionais, o vocalista parece ser o tipo de cara que facilmente nocautearia algum desavisado. Mas, vamos ao que interessa: impressões sobre esse debut. Primeiro, acredito que esses caras leram "Post-Punk For Dummies" ou "How To Form A Goth Band". Acho que esses livros existem. Anyway, checagem de requisitos: vocalista barítono: Ok; baixo trepidante: Ok; Uso indiscriminado de palavras como "Dead", "Soul", até mesmo "Radio": Ok; Sintetizadores: Ok; Ser blasé e dizer que, na verdade, não ligam muito pro Joy Division: Ok. Pronto, ajeite seu visual com roupas escuras e voila: nova sensação indie!!!! Sejamos justos, a sequência inicial de "Malo", "Dead Disco Dancer" e "Heels" é uma das mais efetivas ouvidas esse ano. Tentando relevar os clichês, há refrões pegajosos e climão dark. Ou, elas são melhores que a música nova do Interpol, por exemplo. Difícil é imaginar Tobias, o tal vocalista grandalhão, como um torturado poeta: mais simples dizer que talvez ele viva como porteiro de boate e tenha uma voz bem grossa, então pensou em escrever sobre seu dia complicado no trabalho usando um pouco (muito) de drama. O pop mainstream está recheado de gente calculando cada passo, produtores ou embalagens sem se preocupar com coisas "do rock" como legitimidade, verossimilhança ou (perdão) atitude. O.Children provavelmente calculou cada olhar sofrido mostrado, pensou em como a crise econômica mundial afetou o futuro dos jovens da Europa Ocidental, e como uma música "angular", melancólica e moldada pelo pop dos anos oitenta soaria hoje tão vendável, e então formaram a banda. Eles se arriscam nesse território volátil, o que pode significar que um segundo álbum nunca venha a acontecer(O Editors foi se tornando cada vez mais irrelevante - e eles já tem três álbuns). Também não dá pra desprezar a chance do O.Children se jogar de vez no dubstep da próxima vez. 6/10

quarta-feira, 26 de maio de 2010

LoneLady - Nerve Up



Agora que o pós-punk oitentista e suas angularidades viraram matéria prima para um sem número de novas bandas, ao ouvir que um novo artista surge reverenciando Wire, The Fall, Joy Division, Josef K, etc um bocejo aparece. Mas Julie Campbell, a mulher por trás do Lonelady, é uma mancuniana com um bocado de talento. Ok, o minimalismo guitarra - vocal - bateria eletrônica, os espaços dentro da canção e até o visual da moça são oitentistas. Mas, assim como o ótimo The XX, Lonelady ganha corações pela firmeza das melodias, e grande domínio dos elementos minimais. Assim como PJ Harvey, Julie controla sua voz e intervenções de guitarra de forma a criar tensão, ambiências. Próxima no sentimento de aventureiros da música eletrônica contemporânea , não por acaso lança esse debut "Nerve Up" pelo selo Warp, casa de gente como Flying Lotus, Broadcast e Aphex Twin (mas também de revivalistas como o Maximo Park). A canção título lembra um Gossip nascido em Manchester; "Marble" tem atmosfera de New Order antigo, e é um hit imaginário de um mundo perfeito. Os riffs insistentes de "Immaterial" poderiam pertencer ao REM pré fama, enquanto "Cattletears" é meio Buzzcocks meio Joy Division. Achou tudo muito pouco original? Lembre que as melhores fórmulas ás vezes resultam em algo derivativo, ás vezes em um som familiar mas ao mesmo tempo empolgante. O segundo caso se aplica aqui. LoneLady conjuga o passado de sua cidade natal e cospe música boa. Que é atemporal por definição. 8/10