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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A ambição do Kasabian, a energia do Wild Flag

Dois discos com lançamento dentro dessa semana merecem a atenção, por motivos diferentes: Velociraptor!, quarto disco dos ingleses do Kasabian, e a estreia das americanas do Wild Flag. Propostas e situações com pouca coisa em comum, mas com bons resultados:


Desde o fim do Oasis a Inglaterra parece sentir a falta de uma grande banda de rock, que opere com grande aprovação popular e seja capaz de alinhar a urgência juvenil em escala maior. É bem verdade que a banda dos irmãos Gallagher andava devendo melhores álbuns, mas seus shows ainda eram capazes de mobilizar mais do que saudosos; bandas como o Arctic Monkeys e os novatos do Vaccines muitas vezes se vêem presas aos rótulos da imprensa britânica, e o sucesso de Coldplay e Muse não se distancia muito da roupagem de bandas como o U2. Falta mais sangue, boas canções e desejo de  ser mais do que a sensação indie. O Kasabian parece ter se preparado para ocupar esse espaço. Seus dois últimos álbuns alcançaram o primeiro lugar da parada britânica, mas Velociraptor! parece ser o mais coeso trabalho dos caras. 

Utilizando uma alquimia que reúne Kinks, Who, psicodelia e acenos para o rock dançante-agressivo - não diferente dos trabalhos anteriores - o Kasabian entrega um disco redondo, equilibrado entre rocks-hino   (Days Are Forgotten, Velociraptor!), baladas (Goodbye Kiss) e pequenas peças pop levemente intrincadas (La Fee Verte, Acid Turkish Bath). Sem desperdiçar nenhum momento e enxugando possíveis gorduras, Velociraptor! só pode ser criticado exatamente por seguir uma fórmula e produção que favorecem uma certa uniformidade asséptica, algo que se anula pelo poder das ótimas composições. É improvável que sejam aceitos no mercado norte-americano, mas sua influência e popularidade na ilha devem crescer ainda mais. 8/10  




O primeiro disco do Wild Flag possui um tipo de sonoridade forte que só a experiência anterior de suas integrantes pode explicar: Carrie Brownstein e Jante Weiss tocaram no Sleater- Kinney, Mary Timony era a líder do Helium e Rebecca Cole foi do The Minders. Dá até pra chamar de supergrupo, exceto pelo fato de que, mais do que um projeto de resultado díspare, o Wild Flag se parece mesmo como uma banda, uma unidade funcionando em alta rotação. Com dez músicas e duração parecida com os antigos LPs - direto, cru e adequado - a estréia das garotas de Portland e Washington D.C. surpreende pelo frescor: ao invés de veteranas do underground atirando suas últimas pedras, o Wild Flag é mais um renascimento criativo (embora Mary tenha uma boa carreira solo).

Integrando uma costura de guitarras duelantes, abrasividade e melodia, há muitos ganchos aqui para prender o ouvinte, mesmo após diversas audições. Romance é uma furiosa releitura new wave, Glass Tambourine se aproxima de um garagismo sixties, Endless Talk é rock setentista, Short Version é meio que tudo isso junto mais pós-punk. Sem se apoiar em referências óbvias, o Wild Flag vai flertando com extrema facilidade num universo rocker sujão e pop ao mesmo tempo. O que é objeto de extremo esforço para algumas bandas, é realizado como quem nem se importa pelo Wild Flag. Provavelmente porque elas realmente não tem mais paciência para expectativas e operam com consistência no cenário independente americano .Discão. 8,5/10  

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Eleanor Friedberger - Last Summer


Metade do cultuado Fiery Furnaces, Eleanor lança seu primeiro disco solo. A banda continuará viva, mas Last Summer pode ser um passo adiante com potencial para ofuscar futuros lançamentos do Fiery Furnaces. Com mais de dez anos de prolífica carreira, o grupo de Eleanor e seu irmão Matthew sempre explorou a maior quantidade de referências e experimentalismos dentro dos álbuns, com resultados que sempre intrigavam: é como se as canções do Fiery Furnaces explorassem pontos dissonantes e enterrassem um brilho melódico nunca totalmente exposto.

Eleanor trabalhou no disco praticamente sozinha, sem mostrar o processo para seu irmão e parceiro de composição. Um desafio a mais, que resultou em um disco que inverte o processo experimental: é um compêndio de brilhantismo pop, que esconde pequenos desafios dentro das canções. Dessa forma soa mais maduro e emocionante do que os oito discos lançados pela dupla de Chicago (vivem em Nova Iorque).

My Mistakes abre com excelência um disco que reserva ao ouvinte um bom número de surpresas e ganchos: como uma aventura new wave de aceno ao rock setentista também, a música encaixa arranjos tão fluidos que surpreendem (o sax se inclui ao invés de interromper histrionicamente a canção) . Inn Of The Seventh Ray é construída como uma canção glam mas passeia por novos territórios e despeja climas sobrepostos, com partes diferentes sendo inseridas com precisão; Heaven escancara a ambiência mais sessentista e soft, com pés na psicodelia e riqueza de instrumentação. Roosevelt Island começa com cheiro de disco music decadente com seu baixo de funk branco mas se desnuda no refrão com violões e sintetizadores cheios de vapor. One-Month Marathon mostra Eleanor languidamente cantando "queria que fosse novamente apenas você, eu e Liza...posso ver através de seu espelho?...não estarei vestindo absolutamente nada " enquanto o relato é levado por uma base acústica que é acompanhada por batida marcada e slide guitars. Owl's Head Park te leva para a metrópole ao som de arranjos delicados, entre o orquestral contido e Eleanor cantando livremente como uma Patti Smith jovem.

Last Summer é dos mais intrigantes discos do ano, um daqueles que explora aspectos musicais e sensoriais a cada canção sem perder de vista um controle coesivo; Eleanor possui um repertório sólido, de canções bem construídas, mas adiciona diversos pedaços de beleza melódica com mais do que meros enfeites, mas verdadeiros regalos inseridos ao longo do álbum. Invertendo a lógica de sua banda (experimentalismo com aceno pop), Eleanor se mostra uma compositora de rara habilidade ao combinar pop objetivo e direto com instrumentação e arranjos de um subjetivismo riquíssimo. 8,5/10