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domingo, 22 de janeiro de 2012

A crítica musical não precisa morrer, só se adaptar


No último dia 11 de janeiro a edição online da revista americana Spin publicou um artigo explicando uma das mudanças provocadas pela movimentação de profissionais ligados à editoria. A tradicional revista em papel passará a ser bimestral, e a conjugação das mídias digitais trará alterações no site e no app para Ipad, sob o comando da editora-chefe Caryn Ganz. Mas o que mais chamou a atenção foi a criação do perfil exclusivo para reviews no Twitter: a decisão foi basear resenhas dentro das limitações de carateres do microblog, expandindo a base de discos resenhados para um mil e quinhentos por ano. A intenção é cobrir com mais agilidade, permitir maior interação com o público e abranger desde lançamentos no Bandcamp à mixtapes fresquinhas na web. As resenhas tradicionais cairão para vinte ao mês, dedicadas apenas aos lançamentos considerados "essenciais". Entre os motivos explicados no texto, há uma admissão de que o peso da crítica musical é bem menor nos dias atuais. Ou, como consequência de uma geração que possui acesso simultâneo aos lançamentos e parece se importar menos com o que jornalistas especializados tem a dizer, a sobrevivência da publicação passa a ser acompanhar o ritmo veloz e assumir dois pontos primordiais: apesar dos esforços da indústria, o consumidor de música gasta (tempo e dinheiro) apenas naquilo que realmente se apega, o que ocorre inevitavelmente após a audição ilegal da obra; a molecada que cresceu compartilhando muitas vezes conhece mais bandas do que especialistas que, por questão de gosto definido ou falta de tempo, acabam não conseguindo acompanhar o ritmo de lançamentos anuais no calendário musical.

Entretanto, a decisão da revista (que perdeu há muito seu poder de relevância exercido principalmente nos anos noventa) suscitou discussões ainda mais amplas lá fora e por aqui também. Há uma resistência de alguns jornalistas, tanto "old school" como mais novos em admitir a perda do status de guia, guru, luz que direciona e filtra tendências. O argumento principal é que a internet é recheada de opinião, geralmente vazia e sem embasamento, e que o excesso de informação não necessariamente supre o papel da crítica em instigar reações e promover o avanço. A opção de limitar ao máximo o espaço para análise também foi vista como um exemplo de oportunismo, desespero e, em última instância, perda do poder argumentativo, nivelando por baixo  o nível das resenhas. 

Uma das ironias desse debate é que a base de toda a discussão se baseia na livre (por enquanto) transmissão de dados proporcionada pela internet. Há música para download de todos os tipos, pra todos os gostos e curiosidades, assim como textos e livros sobre música pop espalhados. O que poderia espelhar diversidade de opiniões acaba sendo tratado com um divisionismo reducionista. A crítica morreu ou está viva e altiva? Velha mídia ou nova mídia? Não há espaço para inserção de poréns entre as trincheiras articuladas. Algumas podem ser citadas: o papel centralizador do especialista já era e não volta mais, simplesmente porque uma geração inteira - e outras ainda por vir - não faz noção do que é esperar pelo dia de chegada de um disco às lojas, muito menos de observar jornalistas com a exclusividade da audição antecipada. Também não sabem como mostrar um som maneiro pra muitas pessoas era tarefa hercúlea de gravar fitas individuais ou reunir a galera. Acesso, comunicação, rapidez, absorção: o oposto do que gente como eu viveu no período jurássico pré- Napster. A gurizada fuça seus sons e compartilha; alguns vão se sentir impelidos a ler a respeito, e criarão algum tipo de relação com a música, e com os que escrevem sobre ela. Dessa equação poderemos obter diversos resultados: um fã cada vez mais bem informado e interessado, um sujeito que adora dar opinião sem qualquer interesse real ou um acrítico downloader de qualquer coisa que um amigo indique. Todos eles podem montar bandas, e por aí vai o caminho complexo que temos de compreender. A crítica em si não morreu, mas precisa se adaptar a um público como esse, que é sim capaz de questionar quando se sentir enganado. A maneira como o jornalismo sofre para entender esses parâmetros, porém, é indicador de que não anda tão bem assim.  Velha mídia e nova mídia muitas vezes se fundem, porque os velhos tentam sobreviver (caso aqui levantado) e os novos muitas vezes não soam tão novos assim: há blogs que apenas regurgitam padrões antigos embora seus donos sejam parte desse público jovem e supostamente mais bem armado e antenado. Há exceções, é claro, e é a partir dessas experiências que podemos começar a vislumbrar o papel da disseminação de informação crítica nesse período. 

Outro ponto a ser considerado é o elevado risco em se fazer previsões no ambiente atual: as mudanças estão ainda sendo digeridas e é possível notar um interesse maior de um público global por música periférica. O que antes era apenas exótico começa aos poucos a ser visto como extensão natural da absorção constante de influências diversas - a molecada do parágrafo acima que monta bandas - aliado ao avanço da tecnologia de softwares de produção caseira acessível. A forma como os que consomem música enxergam a crítica muitas vezes passa pelo fato de que suas bandas novas prediletas são ignoradas (ou não) pela mídia.

Brasil

Aqui no Brasil, além do que já foi dito acima, é necessário que se faça um adendo: sendo filhote de uma realidade periférica, nosso jornalismo de música cresceu se abastecendo com as parcas informações de revistas gringas e discos importados: um hábito caro e restrito a uma classe média que se acostumou a enxergar uma crescente distância do seu suposto conhecimento com a do público a quem se dirigia: mais do que informar, a tendência era ser professoral, no sentido menos agradável da palavra: sem se preocupar com contextualizações, muitos textos eram contundentes e "definitivos": polemistas sem a função primordial, deterioravam análises que poderiam ser úteis. Claro que havia exceções, mas eram assim: exceções, não a regra. 

O cenário atual trouxe maior independência para o público: com melhores condições sociais, o acesso a uma lan house, a um celular com bluetooth e MP3 significou para muitos a chance de trocar informações sobre artistas e shows. O crescimento exponencial do rap nacional, por exemplo, não pode ser explicado apenas por esse aspecto, mas a organização dos envolvidos com o gênero passou pelas facilidades proporcionadas pela internet, seja na divulgação como na produção, e isso trouxe - e continua trazendo - um nível de qualidade artística ("sem espaço pra quem não corre") e um fortalecimento entre fãs e artistas. Contribuição da crítica? Se hoje caras como Criolo e Emicida abriram as portas de cadernos culturais, programas de TV e publicações maiores para outros nomes do rap, o processo de ebulição não foi acompanhado por esse meios. O jornalismo especializado está trazendo destaque ao final de um processo cujo aflorecimento foi quase que totalmente ignorado: poderia haver uma chance de recuperar o tempo perdido se as matérias atuais se baseassem em pesquisas e interesse real, mas o grosso do trabalho dos repórteres traz análises miúdas e preconceituosas, sem contexto e informação. De fato, a base do opinionismo de boy ou patizinha das redações está lá atrás, na nossa formação capenga de cagadores de regra disfarçados de estrelas da erudição e do bom gosto.Os poucos que se aventuraram a cobrir a efervescência criativa dos MC's, beatmakers e produtores de forma correta foram publicações de caráter independente. Me parece que o efeito foi mais de dentro pra fora, uma vez que as conversas travadas entre  os jornalistas independentes e rappers transcendiam as pautas de reportagens; era o caso de mostrar novos sons e trocar ideia nos bares, como entusiastas fazem. E nesse momento é que existe espaço para a molecada que ajudou a levantar a febre do rap, mas que pode estar presente em outros gêneros, se colocar através da rede com textos e reportagens. O cara que vai a shows (e não a eventos), lê livros por gosto e ama música - o nerd primordial - pode se livrar das picaretagens e ser relevante. Resta saber se as editorias estarão dispostas a recebê-los ou se terão de garimpar o universo dos nanicos.  

Não cresci lendo resenhas de 140 caracteres e portanto elas me parecem incompletas e vazias. Mas se houver uma interação maior entre aqueles que as escrevem e os leitores através de replies, talvez tenhamos uma visão mais adequada e equilibrada. Ou talvez seja só desespero de mercado editorial. A iniciativa da Spin ainda não pode ser analisada com a amplitude necessária. O fato é que vivemos em um tempo que parece exagerado, amplo e muitas vezes exaustivo pra quem vive de música, dos dois lados da moeda. Mas é justamente a recompensa proporcionada, a humildade da busca e o contato  com o público que podem formatar o novo papel da crítica.A distensão entre crítica e leitores é tanta que se esquece o básico: Uma resenha não é importante porque foi publicada. É importante se significar algo pra quem a lê. 

sexta-feira, 15 de julho de 2011

A música de hoje e o jornalismo "com delay"

Jornalista brasileiro respondendo questão proposta pela Pitchfork

Inicialmente esse post seria sobre os melhores discos do ano até agora, aquela coisa que os blogs e revistas fazem pra chamar a atenção e gerar acessos. Mas eu desisti. Primeiro porque deu preguiça, mas o motivo verdadeiro reside não na falta de entusiasmo com a produção musical disponibilizada nos últimos seis meses; consigo citar pelo menos cinco discos, entre nacionais e gringos, que me fazem sorrir só de lembrar que eles existem. Praticamente clássicos instantâneos. Citá-los seria trair a premissa inicial (ou retomar a idéia primordial, já não me lembro). Fato: existe boa música e motivos pra curtir. Mas então porque, quando lemos o conteúdo entregue por aqueles que filtram e analisam a arte (os "especialistas", críticos, escribas, qualquer coisa) bate aquela sensação de desgosto? Vou tentar descobrir, dentro da minha mente, enquanto escrevo esse texto.

Primeiro: digamos que há concordância em relação ao estilhaçamento do pop atual: uma geração inteira teve acesso a uma enorme quantidade de música, e eles estão criando coisas que se posicionam entre décadas diferentes. Aparentemente, uma coisa boa: sem barreiras e preconceitos, poderíamos ouvir novos talentos com grandes coleções de discos em um único HD. Mas reside aí o primeiro fator de preocupação: vejamos, antes tínhamos que realizar as mais bizarras aventuras para descobrir sons feras, porque o acesso era limitado. Havia um processo de depuração, digamos, que levava o nosso cérebro para um crescente estado de curiosidade e inserção de novas informações. Agora a coisa é toda despejada de uma só vez: o moleque vai lá e vasculha a produção de hip-hop da costa oeste nos anos 90 de manhã, jazz latino dos anos 60 á tarde e o college rock noventista de noite. De madrugada, pega o laptop e a guitarra e começa a criar.

Acho que basicamente estamos falando de talento e esforço. Gente que possui enorme conhecimento musical pode ser incapaz de entregar uma nota sequer com inteligência, mas o contrário também é verdadeiro. Então não mudou nada em relação ao passado pré-internet? Mudou, sim: tribos musicais resistem pouco, e a música produzida atualmente chacoalha entre revivalismos diversos e tentativas de vanguardismo, mas até aí é consequência e reação. Contexto, amigos, é algo que cabe aos tais jornalistas. Está claro que esses caras estão confusos e atordoados, mas fingem ter o controle de todos os movimentos em curso.

Uma passagem rápida por blogs e jornais gringos permite a visualização de uma constante, insistente eulogia ao sub-gênero que chamam de chillwave. Não me importo com o que isso quer dizer, mas sou informado que o Twin Shadow e o Toro Y Moi praticam isso aí. Washed Out, Memory Tapes e outros nomes também aparecem. Embora enxergue diferenças de qualidade entre eles, acho que eles praticam o synth-pop. Só isso, sem reducionismos ou revoluções.

Outra vertente que ganhou atenção "branca" recentemente é o rap. Em primeiro lugar, o gênero sempre influenciou e vendeu muitos discos lá fora, mas para boa parcela de blogueiros e especialistas, há um novo estilo, que para eles parece mais rico e menos incompreensível. É como querer ter respeito de rua botando uma corrente em volta do pescoço. Ou fingir que o estilo, como qualquer outro do pop, não é sujeiro á desdobramentos naturais. Tratar como algo novíssimo uma banda como o Odd Future é desconhecer o passado. Não seria nenhum crime (a ignorância), não fosse esse eximível através do exercício puro e simples da pesquisa. Olha a preguiça aí de novo, dessa vez não a minha.

Também temos o rock, sempre precedido pelo termo "indie": esse nunca foi tão reverente aos anos 90. Quem nasceu na época é mais fascinado pela década do que quem já era grandinho. Um pouco previsível, essa coisa cíclica e tudo o mais. Quando não empunhando guitarras temos os admiradores do folk pastoral e da tradição do compositor torturado, ou gente que viaja nos caminhos da psicodelia mais antiga e garageira.

Pulverizado. A eletrônica e suas possibilidades. Revivalismos. Cruzamento de idéias. Conexões globais. Tudo muito recente, e cujo resultado verdadeiro só seremos capazes de definir, como um todo, daqui a algum tempo. Algo ignorado pelos sabichões, que não admitem a confluência e rejeitam o exercício da dúvida.

Aqui no Brasil a coisa fica pior. Primeiro porque os mesmos fenômenos estão ocorrendo: molecada ouve um montão de coisa, sai fazendo som, crítico fica confuso. Daí acha que o rap agora é factível, mas continua "fechado" com os gênios deprimentes da MPB; redefine a palavra "indie" como sinônimo de "gosto sofisticado"; mantém relação incestuosa com músicos (tudo bróder), gravadoras (ainda?) e adentram nesse mundo do empresariado do entretenimento. A bíblia desse povo continua sendo alguma coisa gringa, mas até aí, bem, eu comprava uma porrada de revista e coletava informação delas. Mas uma coisa é tomar como referência de informação, outra é enfiar tudo pra dentro (ui) sem pensar duas vezes. Mas hoje, francamente, pesquisar se tornou bem menos difícil.

Se você ainda está aí, já percebeu que esse texto é um anacronismo total: pretende analisar com mais cuidado a forma como a crítica se coloca diante do pop atual, dá o diagnóstico, é longo demais para o padrão internético e começou com a mesma preguiça que não move o jornalismo musical. Com esperança, termina de forma diferente.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Jornalismo Musical-Indie Brasileiro É Bunda Mole



Tenho tido um contato maior com a comunicação via blogs há pouco tempo. Comecei a produzir Music For The People há pouco mais de três meses. Nesse período, também acompanhei mais de perto o trabalho de blogs "grandões" sobre cultura pop, em especial sobre música. Sou de outra geração. Na minha época, nos agarrávamos a edições da NME, Vox, Select, Spin para entender o que se passava lá fora, depois corríamos para encomendar os cds das bandas mais faladas. Aqui no Brasil, gostava de ler o Massari, porque até quando não se concordava era possível apreciar o texto, claramente escrito por um cara que amava a música de verdade. Ok, agora esperava que a internet nos colocasse diante de um mundo de troca de idéias e gente entusiasta do "diferente". Ou ao menos que pudessem escrever sobre aquilo que realmente lhes interessava. Não importando se sobre o último hype, o Radiohead, o MC5, tecnobrega, sei lá. Tá bom, que ingenuidade, não? Isso não é um estudo profundo sobre o assunto Jornalismo, blogs sobre musica indie, etc. Apenas uma breve constatação: existe uma micro parcela dos preceitos que norteiam os relacionamentos profissionais no Brasil. Traduzindo: blogs pequenos seguem a cartilha de blogs maiores, que são parceiros de blogs de jornalistas conhecidos, que reverberam sem filtro o que se escreve nas publicações major gringas. Seria estúpido dizer que não acompanho as mesmas publicações: faz parte do exercício observar o que é supostamente interessante em Londres, California, no Brooklyn ou na Suécia. Mas o espaço para discussão, que serviria muito bem aos blogs, não é o suficiente. Significa que um moleque que se considera repleto de ferramentas informativas verá as mesmas matérias sobre as mesmas bandas sendo reverberadas ad nauseam pela web. Eu sei, existem blogs por aí que são a essência do music lover: falam sobre música boa, sem focar exclusivamente no que é hype. Mas são minoria. Há um ciclo do mal que faz com que gente que poderia escrever bem resolva apenas ganhar a chancela dos estabelecidos "comunicadores", "gente das mídias sociais". A capa da NME vai ser tema dos blogs grandes, pequenos, nanicos...O problema não é repercutir o artista, mas ecoar sem argumentação o que se escreve. Estamos criando vacas sagradas dentro desse universo. Miniaturizando o potencial da internet. Eu vivia comprando Cds sem ter ouvido nem uma só música. Baseado apenas no que eu lia. Mas nem sempre eram os recomendados: quando uma resenha era bem escrita, eu sentia que deveria ouvir até aquele grupo que recebia uma nota baixa. Veja, o Massari falava sobre novidades, mas também sobre o Zappa e rock proto-punk australiano, ou bandas italianas, por exemplo. Difícil alguém ir além da Pitchfork hoje em dia. Isso porque as mixtapes são digitais e não fitas cassete de noventa minutos. Há um corporativismo esquisito na indielândia brasileira, um grupinho que venera as mesmas coisas. Nem tudo é caos: já conheci gente e blogs legais, e ainda que incipiente, há algum debate em curso. Talvez as bandas que estão aqui resenhadas sejam também as mesmas de acolá. Mas eu juro que não espero a Metacritic definir a média, ou ler alguém fodão para decidir a minha opinião. Obrigado pela preferência.