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quinta-feira, 14 de maio de 2015

DEZ DISCOS FUNDAMENTAIS DO DIY PUNK




Mais do que o clichê dos três acordes, as bandas que construíram discos fundamentais do punk faça-você-mesmo formaram gerações de pessoas dispostas a criar e fazer barulho, em qualquer área. Em diferentes partes do planeta, garotos e garotas tiraram o som das garagens e registraram, da maneira que fosse possível, seu grito de liberdade. Da Califórnia passando por Washington, de São Paulo até Londres, essa galera inspirou – e inspira até hoje – gerações de seguidores que, para além de fãs de música, são também admiradores de um estilo de vida em que a vontade e a criatividade são sempre mais fortes que as barreiras. Selecionamos alguns dos petardos mais inspiradores ao longo da história:

Minutemen – What Makes a Man Starts Fires? (1983)

Quem disse que o punk é só tosquice? O trio de San Pedro na Califórnia tinha Mike Watt  no baixo, um fera que injetava muita inventividade nas linhas do instrumento.

Circle Jerks – Group Sex (1980)

Com um vocalista alucinado como Keith Morris e canções velozes, a estreia do Circle Jerks é certamente um marco do punk rock.

Crass – Stations of the Crass (1979)

Os ingleses do Crass cuidavam de tudo de forma autônoma – o faça-você-mesmo em forma de banda – e tocavam música que inspirava muita gente a encarar questões políticas sem deixar de se divertir.

Germs – (GI) (1979)

Primeiro e único disco do grupo liderado por Darby Crash, morto em 1980. Fúria gravada parcialmente ao vivo no estúdio, para recriar as lendárias apresentações do Germs.

Cólera – Pela Paz em Todo o Mundo (1986)

Redson Pozzi nos deixou precocemente em 2011, mas o legado de sua banda é imensurável. O segundo disco do Cólera é um marco do punk brasileiro, recheado de hinos humanistas.

Fugazi – steady Diet of Nothing (1991)

Com uma filosofia DIY bem definida e músicos hábeis, o Fugazi mostrou que o hardcore poderia se expandir sonicamente; o disco foi produzido pela própria banda.

Minor Threat – Out of Step (1983)

Antes de integrar o Fugazi, Ian MacKaye esteve no Minor Threat: depois de alguns EPs, o disco de estreia da banda de Washington formou a base para o encontro do hardcore de letras pessoais e questões sócio-políticas.

Descendents – I Don’t Want to Grow Up (1985)

Antes da fórmula da melodia tomar conta do punk nos anos noventa, o Descendents já divertia milhares com músicas grudentas e aroma adolescente.

Black Flag – Damaged (1981)

Um disco icônico que reúne humor bastante ácido com violência e agressividade, além de riffs afiadíssimos cortesia do guitarrista Greg Ginn.

Nation of Ulysses – 13-Point Program To Destroy America (1991)

Com referências aos Panteras Negras e à paranoia anticomunista, adicionando um punhado de canções ultra velozes, o Nation of Ulysses e seu carismático líder Ian Svenonius entregou um pequeno clássico do barulho punk.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Na Läjä Records, o faça-você-mesmo é só a rotina





*texto originalmente publicado no site Get Loud da Converse

Não é todo site que oferece um f.a.q. ao consumidor tão brutalmente honesto e zombeteiro que contém itens como este:
“É verdade que 5% do lucro anual da Läjä Records é revertido para projetos de caridade e ajuda humanitária em todo mundo?
R: Não.”

É apenas um dos muitos exemplos da tríade sujeira-independência-diversão que é a base da Läjä Records, gravadora e loja independente sediada no Espírito Santo e capitaneada por Fábio Mozine, da lendária banda Mukeka di Rato e também integrante d’Os Pedrero e Merda. Iniciando atividades nos anos noventa como forma de impulsionar lançamentos de seu próprio grupo, a Laja não apenas se sustentou ao longo do tempo como cresceu e transpôs a barreira pré/pós internet com a mesma desenvoltura da sequência do setlist de um show do Mukeka.

O selo hoje é casa de bandas que podem perfeitamente formar uma escalação de sonho para um festival de hardcore e punk rock, embora haja espaço também para música que não necessariamente se encaixa no formato mais tradicional do gênero; é possível adquirir itens como camisetas ou moletons com estampas que não estarão brevemente em grandes lojas de departamento ou vestidas por celebridades da televisão. Também há uma seção de games no site que futuramente pode invadir o seu smartphone, já que há planos de transportá-los para a plataforma dos sistemas operacionais dos aparelhos móveis. O mais louco é que não se trata de uma empresa que vai ganhar prêmios corporativos, mas apenas Fábio Mozine e uns malucos que o ajudam a fazer coisas como embalar pedidos, ir ao banco e postar coisas no correio. Sobre isso tudo falamos com o fera:

Como a Läjä Records surgiu?

Surgiu basicamente da necessidade que eu senti em lançar a minha banda Mukeka di Rato, e pelo fato deu acreditar que teria como fazer um trabalho melhor que outros selos que eu observava na época e acreditar que teria maior controle.  Porém antes mesmo de lançar material da minha banda, eu lancei bandas como TPM e Gritos de Ódio, dessa forma a gravadora já começou com vida própria, lançando outras bandas que não apenas as que eu toco.

Você integra bandas diferentes que excursionam pelo globo e chefia as operações da Läjä. Conta com a ajuda de muita gente pra equilibrar as tarefas?

Conto com a ajuda de amigos, colaborando principalmente na criação de artes, e fazem tudo isso na base da brodagem, muitos deles gostam de ter suas artes divulgadas na Läjä.  Mas basicamente as operações diárias da Läjä são todas executadas por mim, seja a questão de escrever letras, escrever projetos, mixar ou masterizar um disco, até as funções como entregar um disco pra um cliente, visitar lojas, ir ao correio, comprar caixa de papelão, organizar estoques, ou seja, tudo.

Dá pra identificar claramente uma estética DIY na Läjä, desde a arte das capas dos discos, a linguagem utilizada e até o layout do site. Essa cultura do faça-você-mesmo é algo indissociável na sua vida?

Acho que sim né, é uma linguagem tosca que já ta encruada, não tem jeito.  Mas tenho projetos que seguem outra estética, como por exemplo, o cd do Bode Preto, também o CD do RDP com a capa feita pelo Marcatti.  Também são bandas com postura DIY em vários aspectos com uma estética um pouco menos largadona do que as que abundam na Läjä.

Quando a gravadora começou não vivíamos a era da internet plena. Como foi o processo de transição para vocês?

Tosco como é até hoje.  Minha primeira inserção na vida da internet foi ter um e-mail, depois usando redes sociais da época como mirc e icq, mas para divulgar a banda também.  Eu sou bastante daquela galera da inclusão digital, pra mim foi um sufoco aceitar ter um facebook, eu achava coisa de mané, minha namorada que fez o meu facebook, hoje eu uso de forma desenfreada, tipo, o lugar mais facil de ser falar comigo é o facebook.  É dificil pra mim acompanhar as novidades, e as minhas redes sociais são bem caseiras, mas estou no meu limite, não consigo ser mais profissa do que isso.

Qual o nível de podreira uma banda precisa ter para integrar o cast da Läjä?

Muito relativo isso.  O Hablan por la Espalda não tem podrera nenhuma, é uma banda que tem teclado, percussão, mas são meus amigos, eu acho a cara da Läjä, tenho orgulho de ter lançado.  As bandas são bem diferentes que saem pela Läjä, mas de uma certa forma, na minha cabeça, eu acho que elas tem uma ligação entre elas.

A história da Läjä reúne material de todo tipo, para além da música: desenhos, colagens, fotos, pôsteres etc. Pode ser um exercício meio pedante, mas dá pra situar a importância disso tudo pro underground brasileiro?  

É bem escroto mesmo querer avaliar o seu próprio material dessa forma, você mesmo dizer qual a importância dele, acho que outras pessoas devem fazer isso, mas, acho que posso dizer sim, que esse material influenciou pessoas e bandas aqui mesmo no ES e fora do estado.  Posso dizer isso pelos inúmeros com links, mp3 e até cds que recebo de bandas que adotam essa estética e que assumem isso, me dizem até que estão fazendo “hardcore vila velha”.  Isso é legal né?  Lembrando que isso é muito natural, a maioria das coisas que a gente fez, aprendemos vendo os discos do Cólera, do RDP, aprendemos vendo as colagens do Dead Kennedys, seguindo a estética de gravadoras como a Recess Records dos EUA e da banda FYP, que são colagens grotescas, figuras com bonequinhos dos anos 50, 60, ou seja, tudo vai se influenciando e eu acho isso bem normal.

Percebi que há uma seção de games no site. Fale sobre essa nova área de atuação do conglomerado.   
Surgiu como tudo surge, na tosquera, com pessoas oferecendo pra mim.  Fez bastante sucesso na época em que saiu, fizemos matéria até pra TV sobre os games.  Agora estou num processo de passar isso pra ios pra rapaziada jogar no iphone, android, essas paradas, mas você pode imaginar a dificuldade que está sendo isso pra mim dentro da minha limitação de entender e aceitar essa nova tecnologia, mas tá rolando!!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Steve Albini: Música, Indústria e Consumo



O produtor (ou engenheiro de gravação, como ele prefere) e músico Steve Albini esteve recentemente na Austrália, onde proferiu uma palestra muito esclarecedora sobre a relação da música com o público, a indústria fonográfica e as novas interações proporcionadas pela internet.

Albini, um veterano de pelo menos trinta anos no ramo, deixou claro seu entusiasmo pela "era da internet" na música, celebrando o barateamento dos custos de produção, a liberdade de distribuição e o contato direto com os fãs. Separamos alguns trechos importantes: 

"Os anos setenta até os noventa, o período em que estive mais ativo em bandas na cena musical - vamos chamar de era pré internet. A indústria da música era essencialmente a indústria de discos, em que discos e rádios eram os canais em que as pessoas conheciam a música e principalmente a experimentavam. Elas eram acompanhadas pela MTV e os vídeos nos anos oitenta e noventa, mas o principal relacionamento que as pessoas tinham com a música era através de música gravada."

"Mas gravar era uma aventura rara e dispendiosa, então não era comum. Até mesmo uma demo tape requeria um investimento considerável. Então quando eu comecei a tocar em bandas nos anos setenta e oitenta a maioria das bandas passavam por todo seu ciclo de vida sem uma única nota gravada."

"Estações de rádio eram enormemente influentes. radio era o único lugar para ouvir música e as gravadoras pagavam de acordo para influenciá-las. O jabá era ilegal, mas era expediente comum."

"Exposição internacional era extraordinariamente caro. Pra ter um disco seu conhecido no exterior, você tinha que convencer um distribuidor a exportá-lo. E era difícil que alguém ouvisse o disco e decidisse comprar. Então você acabava enviando cópias promocionais por um custo extremamente alto sem ter a certeza de alguém ouvir ou não."

“Vocês devem ter percebido que em minha descrição do mercado de massa da cena musical e da indústria pré internet eu quase não mencionei o público ou as bandas. Esses dois extremos do espectro praticamente não eram considerados pelo resto do negócio. Fãs deveriam ouvir o rádio e comprar discos, e as bandas deveriam fazer discos e excursionar para promovê-los. E isso era o máximo de consideração dada. Mas o público era de onde o dinheiro vinha, e as bandas eram de onde a música vinha."

“Através da internet, que mais do que qualquer outra coisa cria acesso as coisas, música ilimitada acabava se tornando disponível de graça. As grandes gravadoras não conseguiam ver como fazer dinheiro através da distribuição online então elas ignoraram, deixando os hackers e o público criarem um cenário de downloads. Pessoas que preferiam a conveniência do CD sobre os LPs naturalmente preferiram música baixada ainda mais. Você pode baixar ou fazer um stream ou ouvir no YouTube ou chamar seus amigos em message boards para eles mandarem um arquivo zip. Num piscar de olhos a música passou de ser rara, cara e disponível apenas em meio físico em lojas específicas para ser onipresente e grátis pelo mundo. Que evolução fantástica."

"Há muita sombra jogada pelas pessoas na indústria sobre o quão terrível é o compartilhamento de música, que é o equivalente a roubo, etc. É uma besteira. Eu quero que vocês vejam, por um minuto, a experiência da música pela perspectiva de um fã, pós internet. Música que era difícil de encontrar agora é fácil. Música que se aplica ao meu gosto, por mais esquisito que seja, está acessível a poucos cliques ou postando um tópico em um fórum. Dessa forma tive mais acesso a música que jamais imaginei. Com curadoria de outros entusiastas, desejosos de me manter ligado nas coisas legais; pessoas como eu, que querem que outras pessoas ouçam a melhor música existente."

"Agora veja as condições pela perspectiva de uma banda. Em comparação com o passado, equipamento de gravação e tecnologia se simplificaram e se tornaram plenamente disponíveis. Computadores agora já vêm carregados com software suficiente para fazer uma demo e lojas de instrumentos vendem microfones e outros equipamentos por um preço razoável... Essencialmente toda banda agora tem a oportunidade de gravar. E elas podem fazer coisas com essas gravações. Elas podem postar online em vários lugares; Bandcamp, YouTube, SoundCloud, seus próprios websites. Elas podem linkar em fóruns, Reddit, Instagram, Twitter e até nos comentários de streams de outras músicas. 'LOL,' 'isso é um lixo,' 'muito melhor,' 'morte ao falso metal,' 'LOL'. Ao invés de gastar uma fortuna em ligações internacionais tentando encontrar alguém em cada território para ouvir sua música toda banda no planeta agora tem acesso instantâneo e grátis ao mundo nas pontas dos dedos."

A transcrição completa do discurso de Albini foi publicada pelo Guardian (em inglês).


domingo, 16 de fevereiro de 2014

O Renegades of Punk vai pra Europa no esquema DIY



O barulho tropical-punk de Aracaju vai viajar: a banda The Renegades of Punk vai fazer uma turnê na Europa em meados de junho e até aí não é surpresa já que o trampo dos caras é classe, todo trabalhado nos timbres e nos riffs estilo facas Ginsu. Só que o esquema da viagem é autonomia pura, junta-os-truta-e-vamo-aí, sem deixar de ter uma organização bem feita, é claro. Conversamos com a vocalista/guitarrista Daniela pra destrinchar os detalhes:

Como surgiu a ideia da turnê?


Quem está dando total apoio e nos ajudando com o lance de marcar os shows e vão acabar dirigindo pra gente lá são o pessoal da No Gods No Masters, Josimas e Andreza. A gente tem alguns amigos que moram lá e alguns contatos que foram feitos através dos anos. Temos um 7'' lançado pelo selo alemão Thrashbastard e alguns lançamentos que estão pra sair por selos franceses. Daí o assunto de irmos pra lá tocar sempre vinha à tona. Com a ajuda e incentivo do pessoal da No Gods No Masters isso se tornou mais real. Desde então começamos a planejar nossa ida pra lá

Também vão rolar eventos pra arrecadar grana pra turnê. Conta mais sobre isso.

Os eventos pra arrecadar grana que estamos pretendendo fazer serão acontecimentos mensais, ao menos, aqui na nossa cidade. Nossa intenção é contar com a colaboração dos amigos e tentar fazer shows a custo mínimo (zero é o ideal) para tudo que entrar na bilheteria ir para a "caixinha" da banda. O que levantarmos de grana até o início de junho será usado para diminuir os custos da viagem, que são significativos. Os eventos provavelmente vão se dividir entre shows, eventos com rango vegan e venda de merchandise da banda.




A turnê vai passar por quais lugares?

A ideia é que ela comece em Barcelona e termine no Punk Illegal, na Suécia, passando por França, Itália, Suíça, Alemanha, Rep. Tcheca, etc.


Deu pra sacar que o esquema DIY permeia toda a parada da turnê; Quais as vantagens e ificuldades dessa autonomia?

Diy é nosso modus operandi. É a forma que a gente faz as coisas. Existem outras, claro, mas é assim que aprendemos a fazer as coisas funcionarem e é a forma que mais nos agrada. As vantagens são a autonomia e experiência que você troca com as pessoas que vivem coisas bem parecidas com você, independente da localização geográfica. A desvantagem é que tudo necessita de um pouco mais de trampo e suor pra acontecer. Mas isso é, ao mesmo tempo, parte da beleza do processo.